Na atualidade, uma das tecnologias mais visíveis é a aeronáutica. Seu crescimento foi espetacular: pessoas viajam com naturalidade, tarifas baratas permitem que passageiros substituam o ônibus pelo avião. O lado ruim, ao menos em comparação com o passado, é o conforto: poltronas apertadas, aeroportos congestionados e atrasos tiram boa parte do encanto das viagens aéreas.
Mas nem sempre foi assim: em 17 de junho de 1947 a Pan American World Airways - Pan Am lançou sua primeira linha “volta ao mundo”: seu vôo 001 saia de São Francisco no sentido oeste, cruzando o Pacífico e fazendo escalas em Honolulu, Hong Kong, Bangkok, Delhi, Beirute, Istambul, Frankfurt, Londres e finalmente chegando a New York. O vôo 002 saia de New York e fazia o trajeto em sentido contrário. A passagem, na classe econômica, custava US$ 2.300 (22 mil dólares de hoje).
O interessante é que o passageiro podia desembarcar em qualquer cidade do trecho e permanecer nela por quanto tempo quisesse, até um limite de seis meses para completar a viagem; o percurso era completado em 48 horas.
Mesmo para a classe econômica, o conforto era grande; os Boeings e Airbuses de hoje são maiores e mais rápidos, mas em termos de conforto assemelham-se mais aos caminhões boiadeiros que cruzam nossas estradas quando comparados aos Super Constellations que faziam os vôos 001 e 002; nestes, a comida e a bebida eram refinadas e o espaço amplo.
Os Constellations, chamados Connies, eram quadrimotores caracterizados pelo perfil semelhante ao de um golfinho e pelos lemes triplos; 856 deles foram produzidos pela Lockheed, e eram o avião presidencial no governo Eisenhower. Transportavam entre 60 e 95 passageiros, a uma velocidade de cruzeiro de cerca de 550 km/h.
Essa rota durou quase 40 anos; assoberbada por problemas decorrentes de má administração, a Pan Am faliu e deixou de voar em 1991. Sua subsidiária brasileira, a Panair do Brasil fechara em 1965, ao que consta em função de uma decisão arbitrária de nosso governo da época - sua verdadeira história ainda não veio à tona.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
O IEEE - Institute of Electrical and Electronics Engineers, fundado no século XIX e que se diz a maior associação de profissionais técnicos do mundo, anunciou em meados de abril que concedeu o prêmio “IEEE Milestone in Electrical Engineering and Computing” à HP, pela sua calculadora HP-35. Apresentada em julho de 1972, a HP-35 foi a primeira calculadora científica de bolso, lançada em uma época em que as calculadoras desse tamanho normalmente eram capazes de fazer apenas as quatro operações.
A HP-35, assim batizada por possuir 35 teclas, executava todas as funções das réguas de cálculo, com mais precisão e velocidade, tendo tornado obsoletas essas réguas, que foram utilizadas por gerações de cien tistas, engenheiros, estudantes e outros profissionais. Pode-se afirmar que essa máquina iniciou uma nova era em termos de como as pessoas ensinam, aprendem e executam cálculos.
Ela foi o primeiro produto a utilizar simultaneamente circuitos integrados e LEDs, tecnologias que também haviam sido desenvolvidas pela HP. Além disso, incorporava algoritmos inéditos.
A máquina foi desenvolvida quando um dos fundadores da HP, Bill Hewlett, desafiou seus engenheiros a criarem um dispositivo que coubesse no bolso de sua camisa e tivesse a mesma capacidade de computador de mesa que utilizava, o HP-9100. A máquina, ao ser lançada, era vendida a US$ 395, valor hoje equivalente a US$ 2.000; apesar do preço elevado, a HP, que esperava vender dez mil unidades, equilibrando os custos de desenvolvimento e produção, vendeu cem mil máquinas no primeiro ano.
O IEEE criou o programa de premiações “Milestones” em 1983, como forma de prestar reconhecimento aos responsáveis por avanços na área de engenharia elétrica e eletrônica; já foram concedidos cerca cem prêmios, dentre eles a Benjamin Franklin, por seus trabalhos na área da eletricidade e ao italiano Alessandro Giuseppe Volta pelas pesquisas que acabaram por gerar as baterias elétricas.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Já há algum tempo fala-se nos netbooks, computadores pequenos, simples e baratos cuja principal função é acessar a internet, onde residiriam a maior parte dos programas e dados dos usuários.Os fornecedores de notebooks tradicionais e do software a eles associados, principalmente o Windows, diziam não acreditar que os netbooks fariam sucesso, pois na prática, seriam úteis apenas quando conectados à internet, além de terem um poder de processamento muito baixo em relasção às maquinas normais. Assim, sua chegada parecia ser vista apenas como uma marolinha - um número relativamente pequeno dessas máquinas foi vendido até agora, e elas tem problemas de performance ao rodar jogos mais sofisticados, editar imagens etc; com as novidades que estão surgindo, parece qua a marolinha está se tornando um tsunami.
A gigante das telecomunicações AT&T anunciou que passará a oferecer, ainda experimentalmente, netbooks por US$ 50 às pessos que se tornarem assinantes de seus serviços de acesso à internet, cujos custos também estão cada vez menores. Outras organizações, inclusive provedores de serviços de telefonia celular estão se preparando para lançar serviços semelhantes.
Mas não se trata apenas de novos patamares de preços; ao que parece, a indústria de computadores pessoais deve passar por uma reviravolta como não se via desde quando foram lançados os notebooks - e naquela ocasião o impacto foi menor porque essas máquinas chegaram ao mercado com preços altissimos, não abalando o mercado de máquinas de mesa.
Especialistas ligados à indústria afirmam que no final desse ano já serão comuns máquinas do tamanho de livros de bolso, equipadas com telas do tipo touch screen, teclados deslizantes e baterias cuja carga dura todo o dia. No final de março/início de abril deste ano foi realizada em Las Vegas a feira CTIA Wireless, uma das mais importantes nesse setor, e onde o tema foi exaustivamente tratado, tendo na ocasião os fabricantes Asustek e Acer anunciado que em junho seus novos netbooks estarão nas lojas.
Essas máquinas utilizam tecnologia bastante diferente da utilizada nos notebooks convencionais. Empresas como a Samsung e a Qualcomm, produtoras de chips baratos, que consomem pouca energia, usualmewnte utilizados em telefones celulares, estão tentando viabilizar a aplicação de seus produtos nos netbooks.
A dupla Microsoft e Intel, que fabrica os principais compoentes dos atuais notebooks (o Windows e os chips), parece que vai enfrentar um desafio sem precedentes. A primeira está em situação particularmente vulnerável, uma vez que muitos dos novos netbooks vão utilizar software Linux ao invés do Windows; o restante da indústria e até mesmo os revendedores sentiriam o impacto das mudanças; o instituto de pesquisas Gartner estima que até o final de 2009 os netbooks representarão 10% do mercado de PCs.
A maior parte dos netbooks atuais utiliza o chip Atom, fabricado pela Intel; é uma versão mais barata e menos poderosa do chip que é utilizado nos notebooks convencionais. As novas máquinas utilizarão chips baseados na arquitetura ARM, desenvolvida pela empresa inglesa de mesmo nome para uso em celulares; são mais baratos (cerca de US$ 20) e consomem ainda menos energia que o Atom.
Como o ARM tem dificuldades para rodar Windows, os fabricantes de netbooks tem preferido utilizar o Linux, que lhes custa US$ 3 ao invés dos US$ 25 ou US$ 75 que a Microsoft usualmente cobra dos fabricantes que querem vender máquinas que chegam ao mercado com o Windows XP ou Vista instalado. Outra alternativa é utilizar o sistema operacional Android, do Google, projetado originalmente para telefones celulares.
De qualquer forma, o tempo que se aproxima parece ser de grandes mudanças, e os únicos players que parecem já ter ganhos garantidos são as operadoras de telefonia celular, que deverão ver seu tráfego aumentar na medida em que o mercado de netbooks crescer.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Apesar de todo charme trazido pelos seus índices espetaculares de crescimento econômico, não há dúvidas de que a China é uma ditadura, com seus dirigentes seguindo ao pé da letra os ensinamentos de tiranos assassinos como Stalin, Mao e outros.
Como toda boa ditadura, a China procura bloquear o acesso de seus cidadãos a qualquer informação que possa significar, mesmo que remotamente, críticas ao seu governo; para isso, lê e-mails e torpedos, espiona chatrooms, bloqueia o acesso a determinados sites, etc.
No último dia 23 de março, mais uma vez o governo chinês mostrou não estar para brincadeiras: os internautas daquele país deixaram de conseguir acessar o YouTube - o acesso a certas URLs do serviço já não era possível, mas a partir daquele dia a impossibilidade de acesso tornou-se total.
O Google, a quem pertence o YouTube, afirmou desconhecer as causas do bloqueio, mas algumas hipóteses foram levantadas por analistas, tais como a disponibilidade de filmes em que aparecem soldados chineses espancando cidadãos tibetanos ou os filmes liberados pela marinha americana mostrando barcos chineses tentando impedir trabalhos de pesquisa que vinham sendo desenvolvidos por seus navios - cabe dizer que os americanos afirmam que estavam em águas internacionais realizando pesquisas lícitas, o que os chineses afirmam ser mentira.
Não importa com quem está a razão, o que não se pode admitir é a censura, apesar de diplomatas chineses terem afirmado que “a internet na China é livre, mas precisa ser controlada para garantir a segurança nacional”…
Na medida em que iniciativas como essa proliferarem, é possível que os governos não democráticos venham a tomar medidas ainda mais duras contra a liberdade de comunicação. Como cidadãos, cabe-nos lembrar do que diziam os políticos da velha UDN: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”…
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A imprensa noticiou que a IBM fez uma oferta de US$ 7 bilhões para adquirir a Sun Microsystems, famosa pelos servidores que fabrica. À primeira vista, isso poderia ser interpretado como uma mudança de estratégia da “Big Blue”, que nos últimos tempos tem paulatinamente deixado os negócios ligados à fabricação de hardware: em 2003 vendeu sua unidade de discos rígidos à Hitachi do Japão e em 2005 vendeu sua divisão de PCs à chinesa Lenovo.
O mercado comenta que a IBM estaria oferecendo US$ 10 por ação da Sun, aproximadamente o dobro do preço registrado em bolsa no dia 17 de março, data em que a oferta passou a ser comentada; no dia seguinte, os papéis subiram cerca de 80%, fechando a US$ 8,89.
Apesar de os dirigentes das duas empresas terem se negado a comentar o assunto, analistas dizem que o interesse da IBM pela Sun, cujos servidores são utilizados em data centers de grande porte, decorre de aspectos estratégicos ligados a software.
Apesar da interessante fatia que detém no mercado de servidores, a Sun também vem tentando expandir seus negócios ligados à software, buscando evitar as conseqüências do processo de comoditização do hardware, que leva seus preços para baixo e que conduziu a Sun a uma situação financeira não muito confortável. A Sun vem sofrendo forte concorrência de servidores baseados em microprocessadores de baixo custo fabricados pela AMD e Intel utilizando tecnologia ligada ao ambiente PC; os principais concorrentes da Sun nessa área são a Dell e a HP.
Em termos de software, a Sun criou o sistema operacional Solaris, baseado em Unix, e a linguagem Java, além de ferramentas ligada a essa última. Java parece ter um futuro bastante promissor, sendo utilizada amplamente, inclusive em aplicações ligadas à telefonia celular, área que vive um período de crescimento intenso; Java é também uma das mais ensinadas linguagens nos cursos de Ciência da Computação.
Java é muito utilizada pela IBM, que inclusive criou o Eclipse, uma plataforma para desenvolvimento baseada em Java, que em termos práticos concorre com essa última. Se a aquisição ocorresse, provavelmente a IBM uniria Java e Eclipse, posicionando-se melhor para concorrer com a Microsoft e suas ferramentas Windows.
Há no entanto um obstáculo à efetivação dessa estratégia: as leia anti-truste em vigor nos Estados Unidos. Juntas, IBM e Sun teriam 65% do mercado dos servidores que rodam Unix e 42% do total do mercado - esses percentuais referem-se ao valor das máquinas. Do ponto de vista de quantidade de servidores, essa participação cairia para 18%, deixando claro que a fatia das empresas se concentra nas máquinas mais caras.
Este obstáculo tende a ser menos grave pelo fato de as leis anti-truste serem aplicadas de maneira mais branda em períodos de recessão, pois as autoridades preocupam-se em incentivar os negócios. Resta ver como o assunto vai se desenvolver e preparamo-nos para eventuais conseqüências em nossas organizações.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie
28 Feb
Postado por: vjbreternitz em: Geral
A FAPESP promoveu no final de fevereiro o Workshop on Physics and Chemistry of Climate Change and Entrepreneurship, evento no qual falou John Twidell, diretor do Centro Amset da Universidade de Montfort, no Reino Unido. O Professor Twindell disse que “uma das maiores e mais baratas alternativas para a redução das emissões de gases geradores do efeito estufa, como o carbono, é o estudo da eficiência energética dos veículos e edificações das grandes cidades”.
Segundo o pesquisador, os edifícios consomem cerca de 50% da energia produzida por um país, principalmente para iluminação, comunicação, aquecimento, resfriamento e bombeamento. E em casos particulares – a exemplo da Inglaterra – mais de 10% da energia utilizada no país é perdida de forma passiva, como por exemplo por leds de rádios e televisores que ficam ligados o tempo todo. Disse Twidell que a economia é a melhor forma de energia renovável e que é necessário dar atenção ao desempenho dos refrigeradores, isolantes térmicos e motores utilizados na construção civil e automóveis.
Segundo ele, visando o aumento da utilização de energias renováveis até 2020 na União Européia, foram criados diversos padrões para os países que compõem a UE; um desses padrões prevê que até aquela data, 20% da energia total utilizada nesses países deve ter origem em fontes renováveis.
O pesquisador disse que na Grã-Bretanha, por exemplo, todos os novos edifícios deverão seguir o conceito de carbono zero. Se essas construções utilizarem energia que contribua para a emissão de carbono, elas terão que compensar com o uso de alternativas como células fotovoltaicas, energia eólica ou biocombustíveis.
Ainda de acordo com essas metas, para abastecer sua população e indústria, cada um dos 27 países da União Européia deverá ter pelo menos dez fontes de energia renovável a mais do que as atuais. Por sua vez, o governo do Reino Unido obriga a redução das emissões de carbono no país em 80% até 2050.
Ao citar tecnologias de transporte modernas, como veículos elétricos ou movidos a hidrogênio, Twidell ressaltou que a ênfase das pesquisas deverá estar mais nos veículos e em outros componentes do que nos próprios combustíveis, dizendo que “chegamos a um patamar de abundância na área das energias renováveis, mas ainda temos muito a estudar no campo da eficiência energética, cujas tecnologias possam garantir a sustentabilidade a um custo adequado”.
Uma iniciativa que se ajusta às propostas de Twidell é o uso do KERS (Kinetic Energy Recovery Systems) pelos carros da Fórmula 1: esse sistema, que captura energia gerada durante as freadas, armazenando-as para uso no processo de retomada da velocidade, já deve ser utilizado em 2009, podendo vir a ser posteriormente adotado por veículos comerciais e de passeio.
As declarações de Twidell acerca de não se dar ênfase à busca de novos combustíveis soam estranhas, lembrando as acusações feitas ao etanol, que recentemente foi colocado como responsável pela alta no preço dos alimentos – essas acusações foram rebatidas pelo Brasil, inclusive por diplomata brasileira falando à ONU também na última semana de fevereiro. Infelizmente, interesses de ordem financeira, atingidos pela queda no preço do petróleo, podem ter influenciado o pesquisador inglês.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Falamos em nosso último post dos problemas que podem advir da paralisação de serviços baseados na internet. Para confirmar nossas preocupações, o Gmail, serviço de correio eletrônico do grupo Google, ficou fora do ar por algumas horas no início desta semana.Foram prejudicados 113 milhões de usuários do serviço espalhados pelo mundo. Dentre esses usuários estão não apenas as pessoas físicas que nada pagam pelo uso do mesmo, mas também empresas e órgãos governamentais, como a Casa Branca, que pagam por serviços com características especiais.
Tão logo os usuários começaram a perceber o problema, a notícia começou a se espalhar através de sites de notícias e blogs - os que tentavam acessar o serviço recebiam uma mensagem genérica de erro; nessa altura, o próprio Google informou estar com problemas, que estava tentando resolver. Cerca de duas hora e meia mais tarde, o Google informou ter normalizado a situação, não fornecendo maiores detalhes, especialmente acerca das causas do problema.
Para aumentar a sensação de insegurança, vale lembrar que há algumas semanas todos os serviços de pesquisa do Google ficaram fora do ar por cerca de 40 minutos, segundo a empresa por um erro de operação. Mais assustadoras são as declarações de Misha Glenny, autor do bestseller McMafia: “não pensem que o Gmail travou por conta de um problema em um servidor ou coisa parecida; uma parada desse tipo com certeza é o resultado da ação de algum grupo que buscava esse resultado. Os crimes cibernéticos estão crescendo de forma explosiva”.
Aqui, um problema similar: no dia 25 de fevereiro quando se tentava acessar o provedor Terra, recebia-se uma mensagem do tipo “senha inválida”; o help desk da empresa informava, através de uma gravação, que havia um problema impedindo o acesso, que foi regularizado posteriormente.
Repetindo o que dissemos em nosso último post: a única certeza é de que estamos, cidadãos e a sociedade como um todo, correndo grandes riscos, que precisam ser controlados. De que forma, só o futuro dirá com certeza - esperemos que não seja necessária uma grande catástrofe para que a sociedade passe a efetivamente se preocupar com o assunto.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana MackenzieO jornalista John Markoff publicou recentemente um artigo no New York Times discutindo aspectos relativos à segurança na Internet. Markoff diz que a situação é muito ruim, a ponto de especialistas acreditarem que a segurança e a privacidade rede são tão frágeis que a única solução para esses problemas é simplesmente criar uma nova internet, pois da forma em que as coisas se encontram, além dos prejuízos individuais que podem advir de invasões, também os fluxos financeiros e comerciais podem ser muito prejudicados, gerando prejuízos incalculáveis não só a indivíduos como a empresas e economias inteiras - é mais um ingrediente com potencial para agravar a grande crise que vivemos.
Há uma grande dúvida: como seria essa nova internet? Uma alternativa seria a criação de uma comunidade fechada, uma espécie de mega intranet, cujos membros abririam mão do anonimato e de algumas liberdades em troca de mais segurança. Lembremo-nos de que há alguns anos surgiu a idéia de se criar uma espécie de selo digital, como forma de combater o spam: todas as mensagens enviadas via e-mail pagariam uma pequena taxa, de forma a tornar economicamente inviável a remessa de mensagens em massa. Nesse cenário, a atual internet sobreviveria como um espaço marginal, que as pessoas frequentariam por sua própria conta e risco.
Um exemplo da fragilidade da rede é a atuação do Conficker, software que teria sido criado e lançado na internet por uma rede criminosa da Europa Oriental e que contaminou milhões de máquinas ao redor do mundo, inclusive algumas ligadas a redes teoricamente com alto nível de segurança, como as das forças armadas francesas. Em novembro de 2008, redes militares americanas suportando operações no Iraque e Afeganistão também foram invadidas numa tentativa de espionagem.
Os criadores da internet jamais imaginaram que a rede, inicalmente destinada ao uso acadêmico e militar um dia suportaria grande parte do fluxo de comunicações e de comércio de todo o mundo, razão pela qual nunca se procurou criar de forma organizada mecanismos que garantissem a segurança desse fluxo, não só em termos de proteção contra invasões mas também de estabilidade - imaginemos o caos gerado por alguns dias sem a possibilidade de pessoas e empresas realizarem transações pela rede. Os esforços recentes na área, apesar de muito grandes, não tem se mostrado plenamente eficientes, especialmente porque buscam resolver problemas pontuais, não abordando o assunto de forma mais ampla.
Para se ter uma idéia da dimensão desses esforços, basta dizer que no próximo ano deverão ser dispendidos cerca de US$ 79 blhões em produtos e serviços na área de segurança digital; quase todo esse dinheiro será gasto tentando “cercar” o ambiente atual - utilizando uma metáfora militar, seria como a construção de uma Linha Maginot, a serie de fortificações francesas construida antes da Segunda Guerra Mundial e destinada a defender aquele país de um ataque alemão; inicada a Guerra, os alemães não atacaram a Linha, simplesmente circundaram-na e invadiram a França.
Visando buscar soluções mais globais, cientistas americanos utilizando fundos federais estão pesquisando soluções para o problema, dentro da filosofia de “começar tudo de novo”. Na Stanford University, onde os protocolos de software da internet original foram criados, pesquisadores desenvolvem um sistema que deve tornar possível introduzir uma rede mais avançada conectada à atual internet, porém com um grau maior de segurança. A previsão é de que em meados de 2009, essa rede estará funcionando forma experimental em oito universidades americanas.
A idéia é que além de mais segura, essa nova internet tenha também a capacidade de suportar melhor o uso de celulares, o que a rede atual ainda não faz de forma eficiente. Essa característica é importante, pois acredita-se que até o final de 2009 4 bilhões desses aparelhos estejam em operação (160 milhões no Brasil), devendo os celulares ganharem cada vez mais importância como ferramenta para transações comerciais e operações financeiras, necessitando por essa razão de uma base que lhes permita operar de forma eficiente e segura.
O projeto, chamado Stanford Clean Slate, não tem a pretensão de resolver todos problemas de segurança da internet, mas deve gerar ferramentas que permitirão aos criadores de software e hardware projetarem soluções mais eficientes, inclusive dando às autoridades policiais mais recursos para rastrear criminosos no ciberespaço, o que pode ser um meio de desestimular ataques.
Apesar de todo esse esforço, os limites reais da segurança dos computadores são limitados pela natureza humana, pelo seu desejo de privacidade, pela tentação de ganhos fáceis etc. A atual estrutura da internet na prática garante o anonimato dos usuários, o que deve se tornar menos garantido em uma rede mais segura. Esse é mais um grande problema dos criadores de uma futura internet, pois isso vai contra o espírito libertário, profundamente arraigado, da atual internet.
A única certeza é de que estamos, cidadãos e a sociedade como um todo, correndo grandes riscos, que precisam ser controlados. De que forma, só o futuro dirá com certeza - esperemos que não seja necessária uma grande catástrofe para que a sociedade passe a efetivamente se preocupar com o assunto.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie
03 Dec
Postado por: vjbreternitz em: Geral
Todos nós que vivemos “antenados” em tecnologia frequentemente nos esquecemos de que às vezes o progresso e a tecnologia podem trazer grandes desgraças; um exemplo disso é o grande desastre que aconteceu em Bhopal, na Índia, em 1984.
Em 3 de dezembro daquele ano, gás venenoso vazou das instalações de uma fábrica de pesticidas da Union Carbide, matando milhares de pessoas, em um desastre frequentemente descrito como o pior acidente industrial da história.
A Union Carbide escolheu Bhopal, uma cidade de 900 mil habitantes para instalar sua fábrica em função de suas ligações com o vasto sistema ferroviário do país.
A unidade começou a operar em 1969, produzindo entre outros componentes de pesticidas, o MIC - metilisocianato.
Na noite de 2 de dezembro água começou a se infiltrar em um tanque de armazenamento de MIC - isso provocou a formação de gás que começou a vazar para a atmosfera, porém o alarme somente foi dado cerca de duas horas depois, por volta de meia noite, quando pessoas começaram a sentir os efeitos do envenenamento pelo gás. Houve pânico, e pessoas começaram a morrer imediatamente, não só envenenadas, mas também pisoteadas por outras que tentavam fugir.
Nunca se soube o número exato de vítimas; a Union Carbide falava em 3.800 mortos, mas a prefeitura da cidade dizia terem sido recolhidos 15.000 corpos, além das 50.000 pessoas que ficaram inválidas ou desenvolveram doenças crônicas por terem aspirado o gás.
Independentemente dos números, todos os indícios apontavam como culpados a Union Carbide e o governo indiano, seu sócio na fábrica, principalmente por negligência, pois apesar da extrema volatilidade e toxicidade dos produtos químicos em uso na fábrica, não estavam previstas medidas de segurança ou prevenção, que haviam sido deixadas de lado como forma de economia. Trabalhadores que apontaram problemas foram demitidos, alarmes estavam desligados há anos, os tanques de armazenagem estavam sobrecarregas, a manutenção preventiva negligenciada, enfim, um desastre anunciado, causado pelo desleixo e pela ganância.
A Union Carbide, considerada a principal responsável, pagou indenizações estimadas em 15% dos prejuízos (seguros de vida, tratamentos de saúde, etc.). Seu principal executivo, Warren Anderson, foi acusado por homicídio pela justiça indiana, porém simplesmente desapareceu - o governo americano não demonstrou nenhuma disposição em entrega-lo à justiça. Investigadores do Greenpeace, que têm mantido um interesse ativo no caso, encontraram Anderson, em 2002, vivendo confortavelmente numa região elegante dos Estados Unidos.
A Union Carbide foi adquirida pela Dow Corporation em 2001; esta recusou-se a assumir qualquer responsabilidade pela tragédia, argumentando que a dívida já havia sido paga através de vários acordos extrajudiciais.
As vítimas sobreviventes continuam a lutar com problemas de saúde: dificuldades respiratórias crônicas, problemas de visão, aumento da incidência de câncer e defeitos congênitos. O meio ambiente permanece contaminado.
O que se espera é que a tragédia nos sirva como alerta, no sentido de que cuidados com a segurança são sempre necessários e não devem ser deixados de lado por questões financeiras. Deus punirá os culpados.
O velho COBOL, que começou a ser utilizado em 1960, é uma das mais antigas linguagens de programação ainda em uso. Por ser antigo, os profetas tresloucados da modernidade pela modernidade, costumam anunciar sua morte a todo momento.
No entanto, sólido e confiável, o COBOL resiste - e ainda cresce. Segue em uso na maioria das empresas comerciais em todo o mundo, notadamente nas instituições financeiras. Convive harmoniosamente com praticamente todos os sistemas operacionais, incluindo o IBM z/OS, o Windows e a família Unix/Linux. Além de suas qualidades intrínsecas, o custo de reescrever um aplicativo COBOL em uma nova linguagem não justifica os benefícios que essa nova versão possa eventualmente trazer.
Além disso, o COBOL suporta agora Unicode, geração de XML, chamadas de/para linguagens como o C e está presente em ambientes de desenvolvimento como .NET e tem capacidade de operar em ambientes Java, além de acesso a bases SQL.
Recentemente, Computerworld publicou texto de Rodrigo Caetano, dizendo que enquanto os mainframes continuarem reinando no grandes bancos brasileiros, os profissionais do COBOL podem ficar sossegados, pois a demanda por seus serviços não vai cessar. Diz o texto que programar em COBOL dá a certeza de emprego com boa remuneração por um longo tempo, pois estima-se que entre 60% a 70% das empresas de porte em todo o mundo ainda têm seus sistemas programados em COBOL.
O texto de Caetano diz que ainda é possível aprender COBOL e entrar nesse mercado, apesar de poucos cursos superiores da área de TI ainda manterem cursos da linguagem - há algumas exceções, como a Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie, cujos alunos colocam-se facilmente no mercado.
O texto de Caetano cita Gilberto Faes Jr., presidente da Associação Brasileira de Profissionais COBOL, que afirma que uma das características que dão longevidade à linguagem é sua capacidade de mudar constantemente, tendo passado por várias atualizações desde que foi criada. Faes também afirma que um sistema desenvolvido em COBOL é mais rápido e mais estável do que os desenvolvidos em qualquer outra linguagem.
Pelo jeito, a morte da velha COmmon Business Oriented Language ainda será anunciada muitas outras vezes…
Em sua edição de 30 de agosto, o New York Times noticiou que a Comcast (www.comcast.com), um dos maiores provedores americanos de acesso à Internet, passará a limitar o volume de downloads de seus usuários residenciais a 250 gigabytes ai mês.
Entrando em vigor no próximo dia 1º de outubro, o limite não deve afetar muitos usuários, ao menos em um primeiro momento, mas a simples adoção da medida deve gerar controvérsias.
Segundo a empresa, os 250 gigabytes são cerca de cem vezes o volume de dados utilizado por seu usuário médio, e que menos de 1% de seus usuários ultrapassa esse limite.
Muitos dos provedores reservam-se o direito de cancelar o acesso ao serviço dos usuários que os utilizam em demasia – a novidade é que isso ocorre pela primeira vez, configurando mudanças no ambiente Internet como é conhecido atualmente. Relatório produzido pela Cisco recentemente diz que o pequeno usuário de hoje será o usuário médio de amanhã, ou seja, que a demanda por largura de banda deve continuar crescendo.
Nos últimos meses não apenas a Comcast, mas também outros provedores já vinham discutindo medidas como essas, dizendo que limites são necessários para garantir um nível de serviço adequado a todos os usuários.
No mês de junho passado a Time Warner Cable iniciou um processo piloto similar em uma cidade do Texas, oferecendo diferentes preços para níveis diferentes de uso, fazendo com que heavy users paguem taxas extras; outro grande provedor, a AT&T, já disse estar preparando medidas similares, o que nos leva a refletir que a idéia não é de todo estranha, pois ao pagarmos nossas contas de luz e água, por exemplo, o fazemos em função do volume consumido. No entanto, desde que o uso da Internet se disseminou, ainda não se havia visto nenhum limite real ao seu uso, o que chega agora.
Para implementar essa medida, a Comcast vem contatando os usuários que têm ultrapassado o limite e pedido a eles que moderem o uso, o que alguns têm feito. Aqueles que não o fizerem serão notificados que suas contas correm o risco de serem encerradas.
A Comcast não disse quais foram os critérios utilizados para fixar o limite em 250 gigabytes, mas esclareceu que para atingi-lo o cliente deve baixar 62.500 músicas ou 125 filmes por mês, mas que a chegada dos filmes em alta definição e os jogos on line aumentam substancialmente o tráfego de dados – quatro horas de HD TV (TV de alta definição) por dia fazem com que o limite seja atingido.
Resta ver quais os efeitos práticos da medida anunciada e em que medida afetará os usuários brasileiros, pois provedores nacionais podem pensar em medidas semelhantes, ainda mais no momento em que se observa uma tendência no sentido de que o mesmo provedor forneça acesso à Internet, TV a cabo e telefonia, o que torna mais difícil para o usuário comum a migração de um fornecedor para outro.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie
A Biotecnologia pode ser definida como “a arte e a técnica de adaptar os seres vivos às necessidades do homem”. Nessa definição, otimista, enquadram-se as alterações que vem sendo feitas em plantas e animais, tentando obter variedades mais produtivas e resistentes às pragas, os esforços para decifrar o código genético (genoma) dos seres humanos como forma de melhor combater as doenças, etc. Vale lembrar que um dos maiores marcos da ciência brasileira foi o fato de que nossos cientistas decifraram (em 2000) o genoma da “Xylella fastidiosa”, um microorganismo que causa uma doença chamada “amarelinho”, que todos os anos destrói uma parte considerável de nossa colheita de laranjas; o conhecimento do código permite que a doença seja combatida de forma mais eficiente, evitando prejuízos da ordem de US$ 100 milhões/ano.
O desenvolvimento das técnicas de clonagem de animais chamou nossa atenção para a possibilidade de uso da biotecnologia para fins discutíveis do ponto de vista ético, em especial a clonagem de seres humanos, que pode ser utilizada para fins racistas, com o apelo a velhas idéias como a da eugenia, que propunha melhorar a raça humana, impedindo por exemplo que “raças inferiores” e portadores de determinadas doenças tivessem filhos.
Quando se trata da biotecnologia, lembramo-nos dos “disaster movies”, filmes que quase sempre relatavam a perda de controle sobre experimentos científicos, gerando jacarés gigantescos ou piranhas assassinas - evidentemente desastres podem ocorrer, mas a ciência tem tido êxito em mante-los sob controle - ao menos até o momento…
Mas, nessa área, não devemos nos preocupar apenas com acidentes. Diariamente temos notícias acerca de atentados terroristas movidos por extremistas: fanáticos religiosos e/ou políticos e malucos de várias espécies utilizam o terror como arma para atingir seus inimigos ou simplesmente chamar a atenção; esse tipo de terror normalmente tem sido exercido através do uso de armas de fogo e explosivos - no Iraque os americanos tiveram mais baixas causadas por atentados terroristas do que por ações de guerra convencional.
A esse arsenal pode juntar-se a qualquer momento um novo tipo de arma: as biológicas, acerca das quais há ainda pouco conhecimento e consequentemente muito pouca defesa. Cientistas russos tem divulgado informações acerca dos grandes esforços da extinta União Soviética nessa área e também acerca do fato de que o colapso da mesma teria permitido que alguns de seus cientistas tenham sendo corrompidos por governos e organizações criminosas para que lhes fornecessem informações acerca do processo de construção dessas armas.
Para termos uma idéia da capacidade de destruição de uma arma desse tipo, basta dizer que alguns quilos de uma cultura de antraz (Bacillus anthracis, que é endêmico em algumas regiões da África e Rússia, onde ataca o gado), lançados de um pequeno avião voando a baixa velocidade sobre uma área metropolitana, numa noite calma, poderiam matar milhões de pessoas, tantas quanto uma bomba de hidrogênio de um megaton. O antraz ataca os pulmões após incubar durante um período de um a cinco dias, matando 90% dos atingidos. Deve-se lembrar que durante a II Guerra Mundial, o exército japonês atuando no sul da China inoculou pulgas não só com antraz, mas também com cólera, febre tifóide, peste bubônica e outras doenças, tendo essa operação causado a morte de cerca de cinquenta mil pessoas na região.
Para disseminar o terror ou chantagear um governo, a ameaça de difusão de uma doença é a arma ideal. Ainda é difícil detetar uma epidemia em seu início; determinados microorganismos são cada vez mais resistentes a antibióticos e vacinas - tudo isso permite-nos especular acerca do fantasma das armas biológicas, que podem se equiparar à bomba de neutrons pela sua capacidade de matar sem destruir propriedades. Mesmo que não se chegue a atacar diretamente seres humanos, pode-se pensar também em ataques à agricultura e à pecuária, causando grandes danos a setores inteiros da economia, ou a determinados países - além dos terroristas e criminosos comuns, essas armas podem ser utilizadas por concorrentes desleais. Ao que consta, funcionários públicos federais, por razões de natureza política, há alguns anos disseminaram uma praga que cauou imensos prejuízos aos plantadores de cacau da Bahia.
E como combater essa ameaça? Além das formas clássicas de combate ao terrorismo, os países ocidentais pretendem implementar de forma efetiva o tratado que bane as armas biológicas (ao qual o Brasil aderiu em 1997) e envidar esforços para identificar precisamente o que se fez em termos de desenvolvimento dessas armas, em especial na Rússia, Iraque, Líbia e África do Sul, que seriam os países que mais avançaram na área; alguns países, como os Estados Unidos e Inglaterra já estão desenvolvendo planos de contingência envolvendo serviços de emergência, como bombeiros, pronto-socorro etc., de forma a que haja reação rápida numa situação de ataque. Na área científica, buscam-se soluções para prevenir, identificar antecipadamente e combater as doenças que poderiam ser geradas numa situação como essa, já estando em andamento pesquisas envolvendo vacinas, bibliotecas de DNA etc.
Há fanáticos por hardware que procuram incrementar a performance de suas máquinas aumentando a velocidade de trabalho de seus componentes; esse processo é chamado overclocking e os que o praticam overclockers. Uma das conseqüências dessas alterações é o aumento da temperatura, que passa a exigir sistemas de refrigeração mais eficientes.
Esses sistemas de refrigeração inicialmente eram compostos por dissipadores de calor e ventiladores mais eficientes e em maior número. Posteriormente foram se sofisticando, chegando-se a sistemas de refrigeração a água, gelo seco ou nitrogênio líquido, que alcançam os –190ºC. Aproveitando a instalação dessa parafernália, feita de forma artesanal pelos próprios overclockers, começou-se a pintar os gabinetes, adicionar alças para facilitar seu transporte e outras pequenas modificações. Modding é o nome que se dá a esse processo de “personalização” dos equipamentos –a palavra vem do inglês “modification”.
Mas as modificações estão sendo feitas agora de maneira mais sofisticada e ousada, com gabinetes transparentes iluminados por luzes de néon e leds, cabos coloridos, adesivos etc. Há gabinetes construídos com materiais como alumínio, plástico, cerâmica ou até mesmo madeira; outros têm formatos exóticos, como o construído por um modder (praticante do modding) espanhol, que construiu um gabinete em forma de caminhão de bombeiros, em que o pára-choques é a porta do drive de DVD e o tanque de água realmente contém água – destinada à refrigeração da máquina.
Algumas empresas atendem àqueles que não tem suficiente habilidade manual: o cliente pode especificar as alterações que deseja e essas empresas se encarregam de viabilizá-las; elas também mantém fóruns para troca de informações, chat, download de software, artigos técnicos e lojas virtuais.
O modding vem ganhando dimensões tais que já existem concursos premiando as alterações mais criativas e “parties”, eventos em que aficionados se reúnem para exibir suas criações e trocar informações – nesses eventos, o importante é exibir a máquina mais original. Há grupos de modders que trabalham em conjunto – são os chamados clãs.
Já se observa modding de roteadores, TVs e telefones celulares. Será que o dólar em queda permitirá que overclocking e modding se popularizem entre nós?
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Acaba de ser divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, World Economic Forum) o “Relatório Global de Tecnologia da Informação 2007-2008”, que estuda as economias que mais conseguem tirar proveito das novas tecnologias para incrementar sua produtividade e competitividade.
O Brasil caiu seis posições no ranking geral e passou a ocupar a 59ª posição entre os 175 países analisados (estamos caindo desde 2005); na América Latina o melhor colocado é o Chile, que apesar de ter caído três posições, ocupa a 34ª posição; o México é o 58º e a Argentina o 77º.
A Dinamarca segue em primeiro lugar, seguida pela Suécia, Suíça, Estados Unidos e Cingapura – o Chade é novamente o último colocado. Uma grande surpresa foi a Coréia do Sul, que subiu dez posições e está em 9º lugar. Índia (50°) e China (57º) estão relativamente próximos ao Brasil. A Ásia e o Oriente Médio são as regiões que mais têm subido no ranking.
Para nosso país, é um resultado intrigante, pois o ano passado foi excelente para nossas indústrias de computadores e telecomunicações: mais de 10 milhões de PCs foram vendidos e o Brasil ultrapassou a marca de 120 milhões de usuários de telefones celulares; já há alguns anos os internautas brasileiros são os que passam mais tempo conectados à Internet.
Segundo o WEF, há um conjunto de fatores que podem explicar essa situação, sendo os mais importantes de natureza estrutural, como o péssimo nível educacional da população, além de impostos e burocracia muito altos, justiça lenta, dificuldades para a abertura de novos negócios etc.
Cabe uma menção especial à educação, pois a tecnologia somente pode criar competitividade se a população estiver pronta para tirar proveito dela, o que não ocorre no Brasil: na qualidade do ensino de matemática e ciências estamos na 114ª posição e em termos de qualidade do sistema educacional como um todo, na 117ª.
Em algumas áreas, o país é bem sucedido, como em termos de sofisticação do mercado financeiro, por exemplo, em que o Brasil está em 31º lugar. O país também se destaca (27ª posição) no uso de tecnologia pelo setor público. Porém, quando se discute os impostos sobre o setor de TI e seus efeitos sobre o mercado, vamos para a última posição no ranking (127º).
Outros fatores que podem ajudar a explicar a situação, talvez, sejam os de natureza setorial/regional: no mesmo Brasil que é referência em serviços relativos ao Imposto de Renda e eleições eletrônicas, apenas 17% dos domicílios têm acesso à internet, 47% da população nunca usou um computador e 59% nunca acessou a Internet. Enquanto 30% e 31% dos domicílios das regiões Sudeste e Sul, respectivamente, têm computadores, apenas 13% das famílias do Norte possuem o equipamento. No Nordeste, o índice cai para 11%.
Concluindo, vale refletir acerca das palavras da economista Irene Mia, que coordenou a elaboração do estudo: “A tecnologia sozinha não traz competitividade a uma economia; tudo depende do ambiente em que ela é usada. Há certos avanços no Brasil, mas a realidade é que outros países estão avançando de forma mais rápida. Isso deveria ser um motivo para o Brasil parar e pensar por que isso está ocorrendo - não se pode ficar parado quando o assunto é tecnologia.”
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie
No início dos anos 90 uma revolução agitava o mundo da informática. Ganhava força a arquitetura cliente-servidor e as redes se tornavam uma febre no mundo da informática corporativa.
Os computadores de grande porte, os mainframes, e os profissionais a eles ligados, passavam a ser chamados “dinossauros”, pois a extinção dessas máquinas era tida como iminente. Muitos desses profissionais deixaram bons empregos por terem encontrado oportunidades (às vezes não tão boas) no mundo das redes.
Em 1991, Stewart Alsop, à época diretor da InfoWorld, um importante periódico na área de informática, chegou a dizer que em 1996 o último mainframe seria desligado. No Brasil, o banco Bamerindus (hoje HSBC) iniciou um processo pioneiro (ao menos entre os grandes bancos) de substituição de seus mainframes pela nova arquitetura.
O Bamerindus voltou atrás depois de perder muitos milhões de dólares no processo (o que ajudou o banco a quebrar logo depois) e Alsop, hoje um “venture capitalist”, também vê suas previsões não se concretizarem: a IBM está lançando no Brasil seu novo modelo de mainframe, o System z10. Registre-se que o Brasil é o terceiro mercado para mainframes, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha.
O alvo do produto não são apenas as empresas que têm suas estruturas de processamento de dados baseadas em mainframes, como as instituições financeiras, empresas de internet e grandes varejistas, mas também as empresas que buscam mais eficiência no uso de energia e estão em processo de consolidação de servidores, ou seja, substituindo diversos servidores de menor porte por um mainframe que atua também como servidor. A própria IBM iniciou há dois anos seu processo de consolidação, no qual 3.900 máquinas estão sendo substituídas por 30 mainframes. Nos próximos cinco anos, segundo o Gartner Group, 70% das mil maiores empresas do mundo farão modificações como essa.
Segundo a IBM, apesar do custo de aquisição de mainframes ainda ser alto, o retorno financeiro ocorre num período estimado entre dois e cinco anos; além disso, em relação aos servidores mais usados, o System z10 apresenta um custo com energia e um consumo de espaço físico 85% menores, sendo a capacidade de processamento de uma máquina z10 “top de linha” equivalente à de aproximadamente 1.500 servidores de plataforma baixa comuns. Os custos de operação e administração de equipamentos também tendem a ser menores.
A morte do mainframe é mais um exemplo de profecia equivocada na área de tecnologia, assim como foram as das mortes do rádio e do cinema substituídos pela TV e das ferrovias substituídas pelos carros, caminhões e aviões. Neste momento, anunciam a morte da mídia impressa, a ser substituída pela Web.
E quais são os pontos comuns entre as tecnologias sobreviventes? Não apenas a existência de alguma vantagem não totalmente suplantada pela tecnologia substituta, mas a necessidade de as empresas que as fornecem e/ou utilizam adotarem novos modelos de negócio e o medo de abandonarem uma massa de usuários leais e de parceiros de negócio confiáveis. Além e acima destas, a capacidade de adaptação.
Segundo artigo recentemente publicado pelo New York Times, essas profecias normalmente superestimam a importância dos aspectos técnicos das novidades, deixando de lados fatores relativos ao ambiente de negócios propriamente dito, cujos interesses acabam favorecendo a evolução e não a revolução tecnológica. Em termos práticos, as empresas querem máquinas que cumpram suas missões a custos adequados, não importando se são ou não a última moda em termos de tecnologia.
O historiador John Steele Gordon, diz que esse processo é similar ao observado na natureza: algumas espécies desaparecem em função de problemas ambientais, como os dinossauros, mas milhares de outros répteis sobreviveram e evoluíram adaptando-se às mudanças ambientais.
Na área de tecnologia, o rádio é um exemplo de sobrevivência pela adaptação. Deixou de ser o aparelho ao redor dos quais as famílias se reuniam para ouvirem programas de variedades e novelas, para ser um fornecedor de entretenimento para períodos em que as pessoas estão trabalhando ou viajando de automóvel, bem como um prestador de serviços de utilidade pública, fornecendo notícias, previsão do tempo etc., tornando-se o que Paul Saffo, um estudioso do futuro na área de tecnologia, chama de “audio wallpaper”.
Alterações no ambiente de negócio podem inclusive revitalizar tecnologias decadentes, como vem ocorrendo como as ferrovias, que voltam a se expandir quantitativa e qualitativamente em função dos custos de combustível, excesso de automóveis nas cidades, demoras em aeroportos etc.
Voltando ao mainframe: ele é um caso clássico de sobrevivência garantida por um processo de revitalização: novos e mais baratos microprocessadores, maior versatilidade em termos de software etc., levaram a permitir que ele assuma novas funções além das que lhe eram atribuídas, passando, por exemplo, a rodar sistemas Web.
Encerrando: no mundo da tecnologia a capacidade de adaptação é fundamental para a sobrevivência e a adesão cega às novidades pode ser perigosa para as empresas e para os profissionais que a praticarem. Charles Darwin tinha razão ao dizer que não é o mais forte ou o mais inteligente que sobrevive, e sim, o mais adaptável.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Neste momento em que se fala tanto em empreendedorismo e em que vivemos num ambiente de mudanças tecnológicas constantes, é oportuno lembrar um pioneiro que viveu em tempos semelhantes (embora a palavra empreendedorismo ainda não existisse), aproveitando tecnologia que surgia para construir grandes redes e revolucionando a mídia e a vida cotidiana das pessoas, de forma análoga à que a Internet vem fazendo hoje.
David Sarnoff nasceu na Rússia em 1891, tendo sua família logo imigrado para os Estados Unidos. Órfão de pai começou a trabalhar muito cedo para ajudar a sustentar sua família. Aos 15 anos, comprou um aparelho de telegrafia e aprendeu o código Morse, o que o ajudou a ser contratado como contínuo pela Marconi Wireless Telegraph Co., tendo sido promovido a telegrafista em 1908.Como acontece às vezes, Sarnoff estava no local certo e na hora certa: estava trabalhando na noite de 14 de abril de 1912 e recebeu uma mensagem que se tornou famosa: “SS Titanic ran into iceberg, sinking fast” (SS Titanic bateu em iceberg, afundando rápido). Sarnoff permaneceu em seu posto pelas próximas 72 horas, transmitindo para o mundo as mensagens que chegavam dos navios de socorro.
As habilidades e a capacidade de empreender de Sarnoff fizeram-no subir rápidamente: em 1915 ele sugeriu à empresa a criação dos antecessores dos atuais aparelhos domésticos de rádio – à época, rádio era assunto principalmente para amadores entusiasmados. Sua idéia foi considerada inviável do ponto de vista comercial – consta que executivos da empresa teriam dito: “a caixa de música sem fio não tem nenhum valor comercial. Quem pagaria para ouvir uma mensagem enviada a ninguém em particular?”. Mas, ele teve outra oportunidade. Em 1919, a General Electric comprou a Marconi e formou a RCA (Radio Corporation of América) e Sarnoff foi à luta: para criar uma massa crítica de ouvintes dispostos a comprar seus rádios, era necessário criar estações comerciais, que veiculassem música, notícias e esporte; em 1921, ele conseguiu transmitir a luta Jack Dempsey versus Georges Carpentier, pelo título mundial de boxe; os rádios da RCA fizeram sucesso: em três anos, mais de um milhão de aparelhos foram vendidos, com o nome comercial de “Radiola”. Mas era preciso mais: em 1926, já como um dos principais executivos da RCA, formou a NBC (National Broadcasting Co.), uma subsidiaria que criaria um grande número de emissoras, gerando ainda mais compradores para os aparelhos; a NBC foi a primeira rede comercial de rádio.
Outra amostra de sua genialidade: os gramofones estavam sendo substituídos, desde 1906, por equipamentos com alto-falantes internos, fabricados pela Victor Talking Machine Co. e comercializados sob a marca “Victrola”; Sarnoff promoveu a fusão das empresas (surgia a RCA-Victor) e das tecnologias, juntando o rádio e o toca-discos num só móvel e criando os antepassados dos atuais aparelhos de áudio. O sucesso das medidas de Sarnoff levou os investidores à loucura: as ações de RCA chegaram a valer US$ 573,75 cada, até que em 1929 o “crash” da bolsa de New York levou seu preço a US$ 2,25.
Sarnoff tornou-se presidente da RCA em 1930, incentivando pesquisas acerca de televisão, tecnologia que ele já propusera em 1923. Em 1939, quando da inauguração da Feira Mundial de New York, a abertura do “stand” da RCA foi televisionada – era uma nova era que se iniciava, com Sarnoff dizendo que a tecnologia ali mostrada era provisória, que cores, gravação em vídeo, etc., chegariam em breve. A 2a. Guerra Mundial (da qual Sarnoff participou atuando na área de comunicações, chegando a general do exército americano) só permitiu que começassem a ser vendidos os aparelhos domésticos de TV em 1946; em 1951, a NBC começou a transmitir programas em rede nacional.
Enquanto Sarnoff era extraordinário quanto ao entendimento e aplicação da tecnologia, seu grande rival, William Payle, da CBS (Columbia Broadcasting System) era imbatível no que hoje chamamos “conteúdo”; Sarnoff focava na tecnologia, Pailey na programação – e na medida em que tecnologia se tornava uma “commodity” (algo que se podia obter pagando e não investindo em criação), a maior habilidade da CBS em atrair e reter talentos levou-a à vitória no longo prazo: em 1986, cinco anos após a morte de Sarnoff, a General Electric assumiu o controle do grupo RCA, que àquela altura já havia perdido boa parte de seu brilho. Hoje a RCA e a NBC são novamente grandes empresas, mas essa já é outra história; o importante é lembrar que talento e dedicação são fundamentais.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Quase todos acreditamos que o uso de computadores nas escolas beneficia os alunos. Essa crença tem fomentado a adoção, por todos os níveis de governo, de políticas estimulando o uso dessas máquinas, no que é chamado de processo de inclusão digital.
No entanto, estudos concluídos recentemente por pesquisadores da Unicamp indicam que essas políticas podem estar gravemente equivocadas, ao mostrarem que o uso de computadores para fazer tarefas escolares está relacionado ao pior desempenho dos alunos, especialmente entre os mais pobres e mais jovens.
Os pesquisadores que coordenaram o trabalho, Jacques Wainer e Tom Dwyer afirmam terem constatado que, entre alunos da mesma classe social, os que sempre usam o computador para elaboração das tarefas têm pior desempenho.
Estudos anteriores apontavam para o fato de que alunos que tinham computadores em casa apresentavam melhor desempenho, mas na realidade parece que esse melhor desempenho derivava do fato desses alunos pertencerem a famílias com melhor situação financeira, o que implicava em uma melhor performance por razões de acesso a outras fontes de informação, apoio dos pais etc., e não simplesmente por utilizarem computadores.
A pesquisa de Wainer e Dwyer, para evitar essas distorções, considerou os alunos dentro de suas classes sociais e focou-se no uso da máquina para elaboração de tarefas, tendo constatado que em todas as classes sociais os alunos que usam o computador têm desempenho pior em Português e Matemática do que aqueles que nunca o utilizam para suas tarefas, sendo essa diferença agravada entre os alunos mais pobres.
Não existem dados que expliquem as razões desse fenômeno, mas a pesquisa deve alertar aqueles que formulam políticas públicas, especialmente em termos de instalação de computadores em escolas e distribuição dessas máquinas aos alunos.
É preciso entender melhor o fenômeno do impacto dos computadores no desempenho dos alunos antes de defender a simples distribuição de tais equipamentos, especialmente se considerarmos os custos envolvidos e a crônica escassez de recursos para a educação.
Temos observado que escolas recebem computadores e seus professores simplesmente não têm nenhum conhecimento acerca de como utilizá-los, além de não ser disponibilizado software educacional para utilização na escola, o que com freqüência transforma o computador num simples videogame, máquina de escrever ou ferramenta para acesso a sites do tipo Orkut (ou coisa pior), sem qualquer benefício real para o aluno.
Wainer disse que se não houver uma reflexão maior acerca do assunto, corremos o risco de transformar a inclusão digital em exclusão educacional, e que são necessários outros estudos sobre o tema, mas que os resultados de suas pesquisas são coerentes com os de outras pesquisas realizadas no exterior.
Acreditamos que esses estudos devem servir como sinal de alerta, especialmente em função de nossa tendência de “seguir a boiada”, enquanto educadores e formuladores de políticas públicas; simplesmente tendemos a seguir o que está na moda e distribuir computadores está na moda.
A reflexão pode impedir que causemos ainda mais problemas às camadas mais humildes e indefesas de nossa população e que desperdicemos dinheiro público.
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Dia desses me dei conta de que realmente sou um “dinossauro” da TI: comecei em 1970, programando em Assembler para um Univac 1005 (uma “poderosíssima” máquina com 4K, isso mesmo, 4K, de memória principal) – esse “mainframe” era apoiado por um sistema ”convencional” (tabuladoras, perfuradoras e classificadoras de cartões etc.) Remington-Sperry-Powers, que foi o antecessor dos 1005. E o nome da coisa não era TI ou Informática, mas sim Processamento de Dados e alguns ainda chamavam o computador de “cérebro eletrônico”… Nessa onda de nostalgia, lembrei-me de um artigo que “New York Times” publicou há algum tempo acerca do desenvolvimento da linguagem Fortran, que quase todos os meus contemporâneos usaram - James Gray, um pesquisador na área de software que trabalhou para a Microsoft, chegou a dizer, parafraseando a Bíblia: “No princípio, era o Fortran”… Vale lembrar que Gray desapareceu com seu veleiro em 2007. Lembramos essas histórias porque julgamos oportuno dar aos nossos jovens profissionais e estudantes uma visão do passado, para que possam se preparar melhor para o futuro. Lembro do artigo que John Backus (que também morreu em 2007) trabalhava para a IBM, e em 1953, ao 28 anos de idade, solicitou aos seus superiores autorização para iniciar pesquisas acerca do que chamou de “uma melhor maneira de programar” – era uma época em que se usava linguagens de muito baixo nível, praticamente linguagem de máquina, o que tornava a programação extremamente complexa, trabalhosa, e consequentemente, lenta e cara.
Foi formada uma equipe, que chegou a ter dez profissionais; era um time com forte treinamento em matemática, mas no mais bastante eclética: reunia desde um especialista em criptografia a uma estudante recém formada, passando por um pesquisador do MIT e por um especialista em xadrez. Foi utilizado para o projeto um computador IBM 704, uma máquina bastante poderosa para a época – mas disponível para a equipe apenas no período noturno…
Segundo Backus, várias foram as causas do sucesso do Fortran: primeiramente, o grupo definiu que desenvolveria uma linguagem que pareceria um misto de Inglês com álgebra, buscando uma sintaxe similar à das fórmulas utilizadas por cientistas e engenheiros, os grandes usuários de computadores na época.
Dessa forma, a linguagem poderia ser facilmente usada por esses profissionais, praticamente sem auxílio de programadores, que eram os únicos responsáveis até então pela tradução dos problemas para a linguagem da máquina e trabalhavam em binário ou usando Assemblers, linguagens que utilizavam abreviações como PRT para imprimir, RD para ler, etc. – essas abreviações eram usadas pelo montador (Assembler) para gerar as instruções em binário. Um problema adicional, é que cada máquina tinha seu próprio Assembler.
O Fortran tinha seu foco mais no problema que o usuário tentava resolver utilizando o computador do que na máquina propriamente dita. Uma linha de código Fortran gerava várias instruções em linguagem de máquina, ao contrário dos Assemblers, em que a relação era quase sempre um para um; por essa razão, Fortran é considerada a primeira linguagem de alto nível.
O Fortran tinha uma performance quase tão boa quanto a dos Assemblers, em termos de tempos de processamento, o que era muito importante numa época em que esse era um recurso escasso e consequentemente, caro.Em fevereiro de 1957 o Fortran foi apresentado formalmente, durante a “Western Joint Computer Conference”, em Los Angeles. Para a ocasião, a IBM pediu a seus clientes que apresentassem casos reais, como o cálculo do fluxo de ar para o projeto de asas de aviões, e promoveu um benchmarking, apresentando esses problemas a programadores Assembler e Fortran. Os resultados foram impressionantes: em média, os programas em Fortran foram construídos cinco vezes mais rapidamente que aquelas em Assembler, sem perda significativa de performance em termos de tempo de processamento.Ao encerrar-se o evento, os profissionais da área sabiam que uma nova era se iniciava – e essa era ainda não terminou: até hoje o Fortran é usado em aplicações ligadas a Física, Química, monitoramento de clima etc. Sua versão mais recente é a Fortran 2003, que é mantida por um grupo ligado à ISO (International Standards Organization).
Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@mackenzie.br) é profissional oriundo da área de Informática, tendo atuado em empresas de grande porte (Prodesp, Prodam, Banespa etc.). Mestre em Engenharia, doutorando em Administração (FEA/USP), é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.