Educar a Individualidade

Postado por jomosil em 28.05.2008

Atualmente existe um acúmulo de conhecimentos sobre o cérebro que revela a obsolescência de nossos sistemas educacionais, que ainda praticam um ensino baseado em concepções do cérebro e da aprendizagem que já estão superadas. (YUS, 2002)[1]. 

Das minhas leituras e releituras deste livro de Rafael YUS um capítulo que me chamou a atenção (entre todos os que me chamaram a atenção) foi o 3 que tem por título: Educar a Individualidade, pelo fato de tratar de um assunto que sempre me intrigou nos meus primeiros anos de aprendizagem da Arte de Ler, que era o cérebro humano e seu papel na educação do homem. Neste capítulo, Yus trata de algumas conclusões que chegaram alguns pesquisadores sobre o cérebro e escolhe o trabalho de Caine e Caine (1991, Apud YUS, 2002), que apresentam como resultados de suas pesquisas doze princípios, de grande relevância para a escola, pois supõem as bases para os tipos de aprendizagem compatíveis para o cérebro (p.53). 

Vou sintetizar aqui estes princípios que, para mim, representam um significativo Diálogo para o Futuro porque fornece as bases para as (possíveis e necessárias) mudanças do sistema pedagógico como venho alertando em vários artigos. Estes princípios são um convite irrecusável aos pedagogos e professores de todos os níveis que desejam contribuir para a transformação deste país em uma nação promissora e feliz. Vamos à leitura destes princípios. 

Princípio 1: O cérebro é um sistema adaptativo complexo. Talvez a característica mais potente do cérebro é sua capacidade para funcionar em muitos níveis e de muitas formas simultaneamente. (…) Os pensamentos, as emoções, a imaginação, as predisposições e a psicologia trabalham normal e interativamente (…). A educação deve ser realizada com a natureza multifacetada do aprendiz humano. 

Princípio 2: O cérebro é um cérebro social. No primeiro ou segundo ano de vida fora da matriz, nossos cérebros se encontram em um estado mais flexível, impressionável e receptivo do que nunca. Começamos a formar nossa mente enquanto nossos cérebros/mentes interagem como nosso primeiro ambiente e com nossas relações interpessoais. (…) Por isso, a aprendizagem está profundamente influenciada pela natureza das relações sociais dos aprendizes. 

Princípio 3: A busca de significado é inata. Em termos gerais, a busca de significado se refere ao dar sentido para nossas experiências. (…) A busca de significado é encontrar um sentido de identidade, uma exploração de nosso potencial e de nossa busca pela transcendência. 

Princípio 4: A busca de significado acontece por meio da “modelação”. Na modelação são incluídos os mapas esquemáticos e as categorias, ambos adquiridos e inatos. (…) A educação efetiva deve dar aos alunos a oportunidade de formular seus próprios modelos de compreensão. 

Princípio 5: As emoções são críticas para a “modelação”. (…) As emoções e os pensamentos não podem ser separados. (…) Isso explica como estratégias, tal qual a aprendizagem cooperativa, proporcionem efeitos positivos para as conquistas e a auto-estima da criança. 

Princípio 6: Todo cérebro percebe simultaneamente, e cria partes e conjuntos. Os dois hemisférios cerebrais mantêm uma estreita interação, não importando se a pessoa está trabalhando com as palavras, matemática, música ou arte. Princípio

7: O aprendizado envolve a atenção focalizada e a percepção periférica. O cérebro absorve informação do que diretamente consciente, mas também absorve diretamente a informação que está além do centro de atenção imediato. 

Princípio 8: A aprendizagem sempre envolve processos conscientes e inconscientes. (…) Isso significa que muito da compreensão pode não ocorrer durante uma aula, mas horas, semanas ou meses depois. Isso implica o desenho apropriado do contexto, a incorporação da reflexão, as atividades metacognitivas e os caminhos para ajudar criativamente os alunos a elaborar idéias, habilidades e experiências. O ensino vem a ser, assim, uma questão que consiste em ajudar os alunos a tornar visível o que invisível. 

Princípio 9: Temos ao menos duas formas de memória organizativa. Apesar de existirem muitos modelos de memória, um que proporciona uma excelente base para os educadores é considerar que temos uma memória espacial/autobiográfica, que não precisa ser repetida e permite lembrar da experiência no “instante”, estando sempre envolvida, sendo inesgotável e motivada pela novidade. 

Princípio 10: Aprendizagem é desenvolvimento. (…) O cérebro compreende e lembra melhor quando os fatos e as habilidades estão impregnados na memória espacial natural. (…) Entretanto a aprendizagem é ilimitada: os neurônios continuam sendo capazes de estabelecer novas conexões durante toda a vida. 

Princípio 11: A aprendizagem complexa é reforçada pelo desafio e inibida pela ameaça. O cérebro/mente aprende muito (estabelece conexões máximas) quando é desafiado de maneira apropriada em um ambiente em que se estimula a atitude de correr riscos. No entanto o cérebro/mente “enfraquece” quando percebe uma ameaça. (…) Dada a percepção ameaçadora das provas, é recomendável avaliar de maneira alternativa, em um ambiente de alerta relaxado, utilizando os desempenhos e as produções (portfólios). 

Princípio 12: Cada cérebro está organizado de maneira única. (…) As inteligências múltiplas e os estilos de aprendizagem são aspectos característicos do ser humano e nos mostram a necessidade de educar partindo da individualidade de cada pessoa. 

Deixo a análise, a reflexão e discussão destes doze princípios para o próprio leitor. Eles são importantes e merecem um estudo mais aprofundado. A leitura do livro pode ampliar as idéias e ajudar-nos a pensar melhores formas de proporcionar a aprendizagem em nossas aulas. 

Pão, Paz e Liberdade

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[1] YUS, Rafael. Educação integral: Uma educação holística para o século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002.

Os Estatutos do Homem (Thiago de Mello)

Postado por jomosil em 19.05.2008

Dentre as minhas releituras favoritas uma é o expressivo e contagiante poema de Thiago de Mello Os Estatutos do Homem, o qual, certamente, alguns de vocês já tiveram a oportunidade de ler. Nada melhor, nestes dias sombrios de indefinição política, econômica, cultural (no caso específico do Brasil), do que conversar um pouco com Thiago de Mello através de seu poema. No Brasil, pelo que posso perceber e venho sentindo isto desde a juventude, não existe o hábito pela leitura da poesia e de poemas, o que faz deste país, possivelmente (que me conteste aqueles que possuam informações mais precisas e atuais), um país sem poetas e sem poemas, embora sejamos bons trovadores, pelo menos em alguns rincões desse imenso território (como é possível perceber no Nordeste, nos já quase esquecidos livrinhos de cordel o que vem ainda mais reforçar minhas idéias de que não somos ou deixamos de ser trovadores, poetas e declamadores). Creio que a poesia é a mais sublime forma de expressão da liberdade humana e se considerarmos que essa liberdade é uma utopia disso resulta que não vivemos uma vida verdadeira. Assim… 

Thiago de Mello: Fica decretado / que agora vale a verdade. / Agora vale a vida, / e de mãos dadas, / trabalharemos todos / pela vida verdadeira. 

Então fica decretado, também, que os dias tristes, os momentos modorrentos da cotidianidade sombria, cinzenta, como dizem alguns, também deverão ser postos de lado a fim de podermos trabalhar como se todos os dias fossem domingos? 

Thiago de Mello: Fica decretado / que todos os dias da semana, / inclusive as terças-feiras / mais cinzentas, têm direito / a converter-se em manhãs / de domingo. 

Em sentido poético isto realmente é maravilhoso, mas como as pessoas irão ou poderão fazer isto acontecer, quando vivemos num mundo em que a desconfiança é a referência padrão para todos e perdemos o contato com uma realidade pedagógica que poderia contribuir para a transformação do Homem num ser integral? Então… 

Thiago de Mello: Fica decretado que o homem / não precisará nunca mais / duvidar do homem. / Que o homem confiará no homem / como a palmeira confia no vento, / como o vento confia no ar, / como o ar confia no campo azul / do céu.O homem confiará no homem como/ um menino confia em outro menino. 

Isto é muito interessante. Porém, fico a meditar como poderemos em um mundo cartesiano que se pauta por dicotomias e dilemas tendo sempre como referência dois pólos para todas as coisas do mundo: um bom e outro ruim; um verdadeiro e outro falso; ou um que lhe interessa e outro que ele pensa que não lhe interessa ou que tende a lhe causar algum prejuízo num jogo de verdade/mentira. 

Thiago de Mello: Fica decretado que os homens / estão livres do jugo da mentira. / Nunca mais será preciso usar / a couraça do silêncio / nem a armadura de palavras. / O homem se sentará à mesa / com seu olhar limpo / porque a verdade passará a ser servida / antes da sobremesa. 

Neste caso… 

Thiago de Mello: Por decreto irrevogável / fica estabelecido o reinado permanente / da justiça e da claridade, / e a alegria será uma bandeira generosa / para sempre desfraldada / na alma do povoFica decretado que o dinheiro / não poderá nunca mais comprar o sol / das manhãs vindouras. / Expulso do grande baú do medo, /o dinheiro se transformará / em uma espada fraternal / para defender o direito de cantar / e a festa do dia que chegou. 

… finalizando, podemos dizer que hoje é o futuro de uma nova utopia e o futuro será o agora da grande realização do Homem e do Planeta, por isso… 

Thiago de Mello: Fica proibido / o uso da palavra liberdade, / a qual será suprimida dos dicionários / e do pântano enganoso das bocas. / A partir deste instante / a liberdade será algo vivo e transparente / como um fogo ou um rio, / ou como a semente do trigo / e a sua morada será sempre / o coração do homem. 

Foi muito bom conversar com Thiago de Mello. Mais ainda porque uma oportunidade como esta de rever, reler e reinterpretar um poema como Os Estatutos do Homem não é fácil de achar sempre. Espero que este diálogo contribua, um pouco mais, para melhorar a nossa compreensão da Natureza, do Planeta e do Homem. 

Pão, Paz e Liberdade

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O Caminho para uma Administração Total

Postado por jomosil em 12.05.2008

O Ser Total[i]. O caminho para uma Administração Integral 

Seja imprevisível e esteja em constante mudança. Nunca pare de mudar e nunca pare de ser imprevisível; somente assim a vida pode ser uma alegria. OSHO (2004)[ii] 

Conversar com o Prof. Caravantes é mais que gratificante, é uma viagem dialógica fascinante que nos projeta em um futuro presente. Podemos perceber bem esta projeção quando lemos o “O Ser Total”. Criador, juntamente com W. Bjur, da Metodologia (ou princípio científico) denominado ReAdministração, conversa aqui comigo e com os leitores e nos apresenta um pouco do que ele chama de Ser Total. O que é mesmo esse Ser Total? 

Num mundo crescentemente organizacional, as macroorganizações e as estruturas são normalmente consideradas os pontos fulcrais de análise. Pois, ainda que seja assim, creio que possa e mesmo deva ser diferente. As organizações – pouco importa seu tamanho – são extensões do homem, são ficções legais, produto e obra da imaginação desse próprio homem. Portanto, se algo ou alguém deve ser considerado o centro das atenções e o ponto de partida, eu não tenho nenhuma dúvida, este é o homem. (p.16). 

O que você denomina Ser Total eu denomino Homem Integral. Neste caso estou considerando o Homem em, pelo menos, quatro grandes esferas segundo nos foi legado por T. Chardin, como sejam: Noosfera; Hilosfera; Logosfera; Biosfera. Creio que para alcançarmos uma condição de Ser Total dentro das organizações, independente do tamanho que elas apresentem, teremos que imprimir uma transformação, uma mudança, sobretudo educacional, que vai afetar alguns paradigmas que estão incrustados no comportamento desse homem pelo menos desde o Iluminismo.  

Entendo aqui o homem em seu sentido mais amplo, total e completo e não apenas o homem funcional, o homem-mosaico, dividido e esfacelado entre as múltiplas exigências da vida organizacional moderna. Na minha visão pessoal, ou somos capazes de nos repensarmos como homens, de nos autodesenvolvermos e nos aperfeiçoarmos – e de forma acelerada – ou então estamos fadados a um futuro nada promissor. (p.16). Às vezes tenho a nítida sensação de que criamos um mundo tão complexo, tão intrincado, que nós próprios acabamos por não mais entendê-lo. Outras vezes eu procuro comparar a época em que meus pais passaram sua juventude com a que eu hoje vivo; definitivamente não há muito em comum. (p.19). 

No que concerne às organizações estamos vivendo sucessivas mudanças, em grande parte estruturais e muito pouco comportamentais, e muitas delas as vezes trazem consigo denominações que sugerem, quase sempre, arranjos e afirmações  teóricos quando, no meu modo de estudar, se tratam de meras técnicas gerenciais. Eu ainda não consigo vislumbrar teorias de administração e continuo a imaginar a administração como uma grande e complexa disciplina, a qual tem encontrado apoio científico significativo em várias áreas de conhecimento e em várias ciências, como é o caso da Biologia com a Teoria dos Sistemas Gerais. 

Tal teoria, que teve seu ponto de partida na Biologia, permitiu, por exemplo, que as organizações fossem vistas como sistemas abertos, inter-relacionados com o ambiente e preocupados com a eficácia, com os resultados, e não somente com seu processamento interno. (p.29). 

A educação formal, especializada, passou, pouco a pouco, a substituir a experiência que, tradicionalmente, era obtida pela vivência, pelo exercício contínuo de determinada função. Cada vez mais fica a produtividade do indivíduo dependente de sua capacidade de incorporar novas teorias e conceitos aprendidos na escola, e a de transferi-los para a atividade diária. (p.29). 

Nesse novo contexto, as organizações e os papéis que desempenham deverão ser reinterpretados segundo uma abordagem radicalmente diferente, e os seus dirigentes, mais do que simples treinamento, deverão buscar um auto-desenvolvimento que os capacite a entender, conviver e administrar a nova realidade (p.31-2). 

Nada menos que um novo conceito de administração se faz necessário, e que se pode correr o risco de batizar com o nome de Administração Transpessoal. Atrevo-me a, mais do que o risco de cunhar nomes, tentar estabelecer um conceito para Administração Transpessoal: um novo campo de pesquisa em Administração, de caráter multidisciplinar, onde conhecimentos científicos das áreas de Behavior, Ciências do Comportamento Aplicadas, Psicologia, Antropologia Cultural, Comunicação, Cibernética e Estratégia, bem como técnicas como Programação Neurolingüística e Hipnose são contemplados (p.32). 

Penso que para alcançar a esfera de ser total, ser integral, para o Homem é preciso mudar os paradigmas educacionais em todos os sentidos, sobretudo aqui no Brasil. Em especial as empresas devem investir menos em Treinamento e mais em Desenvolvimento de Sistemas Humanos. 

O grande desafio com que nos defrontamos é a busca de uma sociedade auto-renovável, isto é, imune à decadência e à entropia. (p.50). (…) E este homem capaz de auto-renovação com toda certeza não pode ser produto de treinamento pura e simplesmente. Minha distinção entre indivíduo treinado e indivíduo desenvolvido é que o primeiro é preparado especificamente para desempenhar uma tarefa ou função predeterminada e não para discutir sua real validade. Ele é capaz de implementar com maior ou menor precisão o que lhe foi atribuído ou ordenado. E o que são indivíduos desenvolvidos? (…) são cônscios de que a realidade não está lá fora, esperando para ser descoberta, mas que cada um é participante efetivo da realidade social, ainda que o caráter dessa participação possa diferir de um para outro. (p.55). 

Sei que poderíamos continuar por longos textos conversando com o Prof. Caravantes, em especial neste tema que ambos gostamos, relativo a uma Administração Transpessoal que, no meu trabalho está incluída no contexto para Administração Integral. A leitura de Ser Total e outros livros do Prof. Caravantes é muito importante para a formação de administradores para administrar as organizações deste século e enfrentar os desafios de uma sociedade infoeconômica glocal. 

Pão, Paz e Liberdade.

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[i] CARAVANTES, G. R. O Ser Total. Porto Alegre: AGE, 2002.

[ii] OSHO. Pepitas de Ouro. São Paulo: Gente, 2004.

Diálogos para o Futuro

Postado por jomosil em 05.05.2008

Um Diálogo com a Arte de Ler. Ou o desencontro entre Leituras.

Oh! Bendito o que semeia

Livros… livros à mão cheia…

E manda o povo pensar!

Castro Alves (1847-1871)[i]

Quando na segunda metade do século 19 para Castro Alves distribuir livros a mão cheia representava o melhor caminho para se conseguir promover as transformações culturais para um país, hoje em pleno século 21, obscurecer as mentes através de uma sub-cultura mecanicista parece ser o instrumento mais eficiente para sustentar políticos e ideologias medíocres. 

É difícil, pela minha leitura sociológica, se alcançar a liberdade sem que se possa construir uma base para o auto-conhecimento das pessoas e isto passa pela educação, pela leitura, pela Arte de Ler. Não vejo possível, ainda, aqui neste país, qualquer Diálogo para o Futuro quando o brasileiro lê não mais que 1,8 livros por ano. Creio que, em sentido contrário, a aquisição ou mesmo a apreensão per capita de músicas tipo “Creu” e outras de estilo (?) musical duvidoso seja muito maior que 10 ou 12 por ano.  

Ou seja, nossa população está mais preparada para absorver mediocridades e menos preparada para absorver intelectualidades. Tal quadro dificulta o desenvolvimento local sustentável e ficamos reféns dos negócios estrangeiros e não passamos de meros (e péssimos) consumidores de produtos (inclusive os “Creus da vida”) que vêm de fora, bem como do que aqui se produz.

Estou vivendo em um estado brasileiro que amarga um dos mais altos índices de analfabetismo e, ainda assim, nesse estado, em uma cidade do sudoeste, um grupo de abnegados professores, alunos, funcionários de uma universidade ousa desenvolver, criar, implementar um projeto sobre leitura infanto-juvenil! Parece-me que estou sonhando, que estou no futuro e não aqui e agora diante deste quadro de plena deseducação do povo, como deseja muito dos que se arvoram donos do poder.

Construir um diálogo com a Arte de Ler é, sem dúvida, nestas paragens do Sudoeste da Bahia, o cenário de um futuro que não se descortinará cedo como realidade presente; é um dos maiores desafios que uma pessoa letrada (pelo menos) tem diante de si. É o confronto entre o letramento e o aletramento.  Entre o esclarecimento e a alheamento. E isto fica bem patente quando um projeto como o ENLLIJ não recebe o apoio social, cultural, político, financeiro (econômico), científico que merece pela sua grandiosidade e até mesmo da população que carece de informações e de comunicação relacionadas com a educação.  

Por quê? Está bem claro que tal situação acontece porque ela não proporcionará aos poderosos condições de continuidade no poder através do voto do leitor, da pessoa letrada, a qual só conseguiria atingir este nível importante para a construção de sua liberdade através da Arte de Ler.

Esta falta de apoio ficou bem patente pela falta de divulgação ou falta de interesse dos órgãos de mídia local. A mídia só tem interesse maior por temas ou assuntos que não impliquem uma leitura mais amadurecida por parte do ouvinte ou leitor de jornal. Assuntos que sejam capazes de construir eleitores em lugar de leitores (parafraseando, aqui, o Dr. Maurício Cavalcante em sua fala na abertura do II ENLLIJ) interessam mais aos políticos em geral, e o jornalismo local segue esta mesma cartilha de estar devidamente atrelada (e à sombra) daqueles que estão no poder. Afinal, a mídia também é maquiavélica.

A isto eu chamo desencontro entre Leituras. Enquanto um grupo pequeno (pequeno mesmo ou, diria, micro) de pessoas realmente interessado em promover uma Leitura Real das coisas e do mundo, realmente interessados em promover Diálogos para o Futuro, um grupo maior (pode-se dizer macro) está fazendo o inverso, promovendo a não-leitura do texto e do contexto, promovendo o não-diálogo porque as incursões políticas para caça de votos são preferencialmente monológicos e não dialógico, para evitar que o e-leitor faça muitas perguntas ou mesmo cobranças de promessas que foram feitas, ex ante, na eleição passada.

Ler ainda é uma utopia ou um estado de arte utópico para uma vasta população de não-alfabetizados, por isso pessoas que fazem projetos como o II ENLLIJ estão no futuro enquanto a grande maioria está no passado e dificilmente chegará a este futuro. Mas, recuso diálogos pessimistas e por isso ainda acredito que nossa utopia é válida e chegará a se tornar uma realidade, contrariando vontades políticas e desdém jornalisticos.

Pão, Paz e Liberdade.

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[i] ALVES, A. de Castro. Poesias Completas de Castro Alves. EDIOURO, 1966.


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