Uma lição do passado como diálogo para o futuro
Geral 03.06.2008Instrua-se e, principalmente, eduque-se o povo; a fim de que ele possa sentir o desejo de engrandecer-se materialmente e moralmente; a fim de que possa compreender a necessidade de ser previdente e de garantir o futuro; a fim de que se interesse seriamente pelo bem-estar físico e moral de sua família, cuja responsabilidade o ignorante desconhece… (Luiz Tarquínio, Apud DUMÊT, 1999, p.73)[i].
Depois que assisti a apresentação do trabalho em equipe de estudantes do curso de Administração das FIJ, coordenada pela estudante Sara Liana, Sétimo Semestre, na disciplina Empreendimento e Negócios I, que trabalhou o tema “Luiz Tarquínio: Uma abordagem da visão e liderança do empreendedor e da responsabilidade social empresarial”, fiquei muito emocionado, sobretudo porque me sentia como se estivesse em outro país, em outro mundo e num futuro bem longínquo que mais se assemelhava a uma das minhas utopias.
E não resisti à tentação de desenhar um Diálogo para o Futuro com uma figura impar dentro da historia da Bahia e do Brasil: Luiz Tarquínio. Por que falar com Luiz Tarquínio é falar com o Futuro? Lendo a primorosa biografia feita por Eliana Dumêt (1999) bisneta de Luiz, percebe-se muito bem que estamos falando com um homem que surgiu de repente pela graça de uma ex-escrava para se tornar um dos maiores e melhores empreendedores brasileiros e ainda assim totalmente esquecido pela história e pelos historiadores, economistas, sociólogos, contadores, sociólogos, cientistas sociais e administradores.
Por que Luiz Tarquínio nunca é lembrado como um dos grandes empreendedores brasileiros e dos maiores batalhadores pelo processo de industrialização do Brasil? Por que a História da Bahia e do Brasil não dedica um amplo espaço para falar, discutir, criticar até se preciso, as idéias, o trabalho, a criatividade e a visão empreendedorial de Luiz Tarquínio?
Num primeiro momento pela minha idéia, penso que as pessoas que trabalhavam no sentido de fazer o Futuro Hoje na sociedade brasileiras dos séculos passados não eram bem vistas ou compreendidas para serem discutidas na academia e nas escolas elementares e secundárias do país. Principalmente quando essas pessoas buscavam tornar realidade idéias que pareciam aos olhares e leituras desses intelectuais ideológicos parte das utopias que eles rejeitavam em particular no que se refere à construção social de uma realidade humana includente. Nas palavras de Eliana,
O país, que mal estava entrando no regime de trabalho livre, distante das reivindicações de classe, tinha dificuldade em entender um homem de negócios que falava em direito dos trabalhadores, injustiça de salários e saneamento do ambiente de trabalho, que transformou em um lugar mais alegre e saudável para os operários (p.17).
Luiz Tarquínio rompeu todos os conceitos e preconceitos da época para modelar uma organização na qual defendia o capital, dignificando e amparando o trabalho e o trabalhador. (…) Tornou-se o precursor da justiça social no Brasil, por ter reconhecido desde cedo os direitos do trabalho e do trabalhador, que o capital não pode esquecer. Sua visão clarividente anteviu, há mais de 100 anos, quando apenas começava a indústria, a necessidade de celebrar a conciliação entre capital e trabalho. (p.18-19).
Luiz Tarquínio conseguiu mesmo sem diploma, sem cursos formalmente realizados em colégios e academias demonstrar a milhares de teóricos das ciências sociais e econômicas o significado de justiça social e a forma de promovê-la com desenvolvimento econômico. (DUMÊT, 1999, p.20). Foi chamado por alguns de louco e visionário e por outros de comunista como foi o caso de Ruy Barbosa seu contemporâneo, que, como ele, também estava conversando com o futuro diante de pessoas que só olhavam para o passado.
Em verdade, apreciar a biografia de Luiz Tarquínio é realizar um diálogo gratificante porque nos mostra que, apesar da resistência de grupos agropecuários e políticos para dificultar o desenvolvimento industrial do Brasil ao longo dos últimos 200 anos, nossa revolução industrial ainda não ocorreu não foi por falta de pessoas com visão positiva do futuro e este empreendedor é um exemplo disso.
Precisamos, efetivamente, criar nossa história social, política e econômica para que possamos formar os empreendedores e transformadores socioeconômicos de amanhã a partir de agora. Sobretudo porque ainda não temos uma história com H que possa contribuir para a construção do pensar brasileiro.
Os historiadores precisam deixar de lado essa medíocre idéia de que tudo que se relaciona com empresas, com indústrias, com capital representa uma afronta à formação humana e social das pessoas. Mesmo porque os regimes centralizados não conseguiram se sustentar em virtude de que, naquelas sociedades em que se instalaram, havia uma História e um povo. Os que ainda estão em vigor fragilmente devem-se ou à fraca história do povo (Cuba, Coréia do Norte) ou a uma identificação, de certo modo precária, com a burocracia que reinava antes dessas revoluções como é o caso da China com seu estilo confuciano de administrar. Sem industrialização não existe desenvolvimento e isto Luiz Tarquínio nos mostrou há mais de cem anos.
Sem industrialização não podemos promover a educação e a redução da pobreza e da violência no país e nem elevar nossos índices de desenvolvimento humano, itens que Luiz Tarquínio já havia vislumbrado desde a adolescência, o que o tornou uma pessoa detentora de um conhecimento eclético e um exemplo de que devemos mudar nossos modelos e paradigmas pedagógicos a fim de tornar as pessoas mais livres para aprender: a pensar, a ler, a interpretar, a desenvolver (criar), a estudar e a reaprender continuamente.
Esta é uma tese andragógica que é rejeitada pela academia e por aqueles que são preparados na academia para promover a educação. E para concluir um pouco mais do seu pensamento: A inteligência, a atividade, o trabalho e a dedicação dos pobres e plebeus só têm valor, só merecem apreços para os grandes corações, para as almas nobres, para os espíritos privilegiados… (Tarquínio, Apud DUMÊT, 1999, p.31).
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
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[i] DUMÊT, Eliana Bittencourt. Luiz Tarquínio, O semeador de Idéias. São Paulo: Gente, 1999.
