A Cabeça Bem-Feita (II)
O desenvolvimento da inteligência geral requer que seu exercício seja ligado à dúvida… Edgar MORIN (2003, p.22).
Vamos continuar um diálogo com Edgar Morin, através do seu livro A Cabeça Bem-Feita e começo questionando sobre o problema da complexidade planetária. Considero em princípio o problema da fragmentação do conhecimento que se processa há quase quatro séculos como justificativa para as dificuldades de compreensão dessa complexidade, resultando disto uma variedade de disciplinas que não ajudaram muito o homem a compreender e apreender os valores planetários e apenas gerou uma hiperespecialização que trouxe algumas explicações para resultados de curto prazo, mas não explicou e nem resolveu a questão principal sobre a qual se debruçaram os pensadores, em sentido planetário.
Há inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e, por outro lado, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários. (…) De fato, a hiperespecialização impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Ora, os problemas essenciais nunca são parceláveis, e os problemas globais são cada vez mais essenciais. Além disso, todos os problemas particulares só podem ser posicionados e pensados corretamente em seus contextos; e o próprio contexto desses problemas deve ser posicionado, cada vez mais, no contexto planetário.
Na minha área de atuação, Administração de Negócios, sempre mirei a especialização com ressalvas, considerando apenas como um mal necessário para se poder andar em um labirinto competitivo no qual as partes eram mais interessantes para o contendores do que o todo; ou seja, como as organizações eram tratadas de modo fragmentado em atenção ao mundo com um conhecimento também fragmentado em disciplinas, isto tornava a divisão de tarefas, de saberes, de espaços, o ponto forte de cada negócio e aqueles que caminhavam em sentido oposto (pode-se dizer: em sentido transversal), isto é, com uma visão de mundo generalista, tendia a ficar para trás e não conseguia acompanhar os seus parceiros e concorrentes. Esse retalhamento que gerou as empresas a partir da visão ideológica de mundo no que se refere às economias e às políticas, sobretudo quanto a estas, gerou essa hiperespecialização que afeta a todas as áreas de conhecimento humano.
Ao mesmo tempo, o retalhamento das disciplinas torna impossível apreender ‘o que é o tecido junto’, isto é, o complexo, segundo o sentido original do termo. Portanto, o desafio da globalidade é também um desafio de complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os comportamentos que constituem um todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico) são inseparáveis e existe um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre as partes e o todo, o todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos próprios de nosso século e de nossa era planetária nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais freqüência, com os desafios da complexidade. (2003, p.14). (…)
Efetivamente, a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fraciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento corretivo ou visão a longo prazo. Sua insuficiência para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os problemas, mais impensáveis eles se tornam. Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e irresponsável. (2003, p.14-15)
Assim, os desenvolvimentos disciplinares das ciências não só trouxeram as vantagens da divisão do trabalho, mas também os inconvenientes da superespecialização, do confinamento e do despedaçamento do saber. Não só produziram o conhecimento e a elucidação, mas também a ignorância e a cegueira. (2003, p.15)
Como o homem, o mundo é desmembrado entre ciências, esfarelado entre as disciplinas, pulverizado em informações. (MORIN, 2002, p.26)[1]
Acredito que é interessante continuarmos mais tarde a discutir sobre este assunto. Pelo menos no que ficou exporto até aqui está claro que a fragmentação do saber que culminou com a fragmentação das ações e atividades humanas, teve seus pontos fortes e fracos, sendo que, pela minha ótica, percebo muito mais pontos fracos do que fortes, se levarmos em consideração a problemática ambiental cujo ecossistema complexo foi degradado até o ponto de se tornar uma ameaça para a humanidade e para a vida planetária apenas para satisfazer a ambição e a acumulação de riquezas e poderes.
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[1] MORIN, Edgar. O Método: a natureza da natureza. V.1. Porto Alegre: Sulina, 2002.
