Diálogos com Edgar Morin

Postado por jomosil em 23.07.2008

A Cabeça Bem-Feita (II) 

O desenvolvimento da inteligência geral requer que seu exercício seja ligado à dúvida… Edgar MORIN (2003, p.22). 

Vamos continuar um diálogo com Edgar Morin, através do seu livro A Cabeça Bem-Feita e começo questionando sobre o problema da complexidade planetária. Considero em princípio o problema da fragmentação do conhecimento que se processa há quase quatro séculos como justificativa para as dificuldades de compreensão dessa complexidade, resultando disto uma variedade de disciplinas que não ajudaram muito o homem a compreender e apreender os valores planetários e apenas gerou uma hiperespecialização que trouxe algumas explicações para resultados de curto prazo, mas não explicou e nem resolveu a questão principal sobre a qual se debruçaram os pensadores, em sentido planetário. 

Há inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e, por outro lado, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários. (…) De fato, a hiperespecialização impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Ora, os problemas essenciais nunca são parceláveis, e os problemas globais são cada vez mais essenciais. Além disso, todos os problemas particulares só podem ser posicionados e pensados corretamente em seus contextos; e o próprio contexto desses problemas deve ser posicionado, cada vez mais, no contexto planetário.  

Na minha área de atuação, Administração de Negócios, sempre mirei a especialização com ressalvas, considerando apenas como um mal necessário para se poder andar em um labirinto competitivo no qual as partes eram mais interessantes para o contendores do que o todo; ou seja, como as organizações eram tratadas de modo fragmentado em atenção ao mundo com um conhecimento também fragmentado em disciplinas, isto tornava a divisão de tarefas, de saberes, de espaços, o ponto forte de cada negócio e aqueles que caminhavam em sentido oposto (pode-se dizer: em sentido transversal), isto é, com uma visão de mundo generalista, tendia a ficar para trás e não conseguia acompanhar os seus parceiros e concorrentes. Esse retalhamento que gerou as empresas a partir da visão ideológica de mundo no que se refere às economias e às políticas, sobretudo quanto a estas, gerou essa hiperespecialização que afeta a todas as áreas de conhecimento humano. 

Ao mesmo tempo, o retalhamento das disciplinas torna impossível apreender ‘o que é o tecido junto’, isto é, o complexo, segundo o sentido original do termo. Portanto, o desafio da globalidade é também um desafio de complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os comportamentos que constituem um todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico) são inseparáveis e existe um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre as partes e o todo, o todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos próprios de nosso século e de nossa era planetária nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais freqüência, com os desafios da complexidade. (2003, p.14). (…) 

Efetivamente, a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fraciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento corretivo ou visão a longo prazo. Sua insuficiência para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os problemas, mais impensáveis eles se tornam. Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e irresponsável. (2003, p.14-15) 

Assim, os desenvolvimentos disciplinares das ciências não só trouxeram as vantagens da divisão do trabalho, mas também os inconvenientes da superespecialização, do confinamento e do despedaçamento do saber. Não só produziram o conhecimento e a elucidação, mas também a ignorância e a cegueira. (2003, p.15) 

Como o homem, o mundo é desmembrado entre ciências, esfarelado entre as disciplinas, pulverizado em informações. (MORIN, 2002, p.26)[1] 

Acredito que é interessante continuarmos mais tarde a discutir sobre este assunto. Pelo menos no que ficou exporto até aqui está claro que a fragmentação do saber que culminou com a fragmentação das ações e atividades humanas, teve seus pontos fortes e fracos, sendo que, pela minha ótica, percebo muito mais pontos fracos do que fortes, se levarmos em consideração a problemática ambiental cujo ecossistema complexo foi degradado até o ponto de se tornar uma ameaça para a humanidade e para a vida planetária apenas para satisfazer a ambição e a acumulação de riquezas e poderes. 

Pão, Paz e Liberdade

Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos

Educação: a resposta certa ao trabalho infantil (OIT)

Mensagem ICA 2008: “Luta contra a mudança climática através das cooperativas”

Campaña Cooperativa Global Contra la Pobreza: Cooperando Fuera de la Pobreza

Leia também o Blog: http://jovinodash.blogspot.com


[1] MORIN, Edgar. O Método: a natureza da natureza. V.1. Porto Alegre: Sulina, 2002.

Diálogos com Edgar Morin

Postado por jomosil em 13.07.2008

 A Cabeça Bem-feita

Mi optimismo se funda en lo improbable”
Edgar Morin[1]

 Após falar em redução da pobreza, combate ao trabalho infantil e realçar a importância do cooperativismo como uma das mais salutares alternativas para humanização do Planeta, volto a conversar com autores e, neste caso, escolhi Edgar Morin.

Devido à profundidade de sua obra, vou iniciar puxando do alforje alguns pensamentos de Morin para preparar nosso futuro dialógico com este autor.   Escolhi um tema que ele também gosta que é a liberdade. Afinal, a assinatura deste Blog é justamente formada por três palavras que fazem parte de meus estudos de Coopreendedorismo: Pão, Paz e Liberdade. Portanto, nada melhor do que ler um pequeno trecho de Morin que fala da liberdade para começar a discutir “A Cabeça Bem-feita”[2]: 

Liberdade

“(…) A liberdade supõe, ao mesmo tempo, a capacidade cerebral ou intelectual de conceber e fazer escolhas, e a possibilidade de operar essas escolhas dentro do meio exterior. Sem dúvida, há casos em que se pode perder toda a liberdade exterior, estar numa prisão, mas conservar a liberdade intelectual. O sujeito pode, eventualmente, dispor de liberdade e exercer liberdades. Mas existe toda uma parte do sujeito que não é apenas dependente, mas submissa. E, de resto, não sabemos realmente quando somos livres”.(In “A cabeça bem-feita”).  

“A complexidade da relação indivíduo, espécie, sociedade, cultura, idéias é a condição da liberdade. Quanto maiores são as complexidades da trindade humana, maior é a parte da autonomia individual, maiores são as possibilidades de liberdade.

(…) Tentei conceber as possibilidades de liberdades humanas dentro e por meio de suas dependências ecológicas, biológicas, sociais, culturais, históricas. Eu tentei ir além do geneticismo, do culturalismo, do sociologismo, mas integrando o gene, a cultura, a sociedade. Eu quis situar o problema da liberdade na relação autonomia-dependência, possessão-possuidor.

(…) O tempo de uma vida humana pode estar totalmente subjugado pela necessidade de sobreviver para viver, ou seja, de submeter o trabalho sem ser assegurado de gozar sua vida, senão apenas por pequenos flashes… Desse modo, em vez de sobreviver para viver, vivemos para sobreviver. Viver para sobreviver mata no embrião as mais importantes possibilidades de liberdade: é uma esmagadora maioria de humanos que, não somente no passado histórico, mas ainda atualmente por todos os lugares do globo, só pôde viver para sobreviver, e na sociedade de baixa complexidade, nas piores condições. 

O espírito (mind) de um ser humano é ao mesmo tempo a sede das submissões e a sede das liberdades. Ele é a sede das submissões quando ele é prisioneiro de sua herança biológica, de sua herança cultural, dos imprintings, das idéias impostas, de um poder do Super-Ego imperativo no interior dele próprio.” (In “La Méthode, 5. L´humanité de l´humanité. L’ identité humaine”; trad: Nurimar Falci)[3] 

Ainda não li “La Méthode, 5”. Pretendo adquirir o livro para aprender um pouco mais sobre o trabalho desenvolvido por Edgar Morin. Por isso, deverei discutir aqui nos próximos artigos um pouco do texto que utilizo para nomear este artigo: “A Cabeça Bem-feita” e posteriormente poderei trabalhar mais outros textos de Morin, como “Os Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro”. 

Talvez a ânsia por alcançar a liberdade tenha proporcionado ao Homem uma capacidade impar para fragmentar o Universo, uma vez que ele se sentia insignificante para abarcar com fracos conhecimentos uma maravilha fantástica como o planeta Terra e o Cosmos em que ela está posicionada. Esta fragmentação que foi chamada pelos estudiosos de Ciência ao invés de conduzir à tão esperada liberdade tornou o Homem prisioneiro de um saber sem saber quando o que lhe interessava ou o que ele buscava era o conhecimento do conhecimento, para reafirmar Morin.  

Faz parte também de Diálogos Para o Futuro provocar a busca de uma totalidade na complexidade para podermos nos aproximar de uma liberdade mesmo que tardia diante de um Planeta devastado e de uma população em crise de existência que enfrenta diariamente o monstro da desigualdade socioeconômica e da violência medíocre, da miséria material e da pobreza intelectual que são as sobras desta fragmentação improdutiva. 

Pão, Paz e Liberdade

Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos

Educação: a resposta certa ao trabalho infantil (OIT)

Mensagem ICA 2008: “Luta contra a mudança climática através das cooperativas”

Campaña Cooperativa Global Contra la Pobreza: Cooperando Fuera de la PobrezaLeia também o Blog: http://jovinodash.blogspot.com


[1] Tradução: Meu otimismo se funda no improvável. Ver o site: http://www.edgarmorin.com/.

[2] MORIN, Edgar. A Cabeça Bem-Feira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003

[3] Para obter mais informações sobre Edgar Morin visite o site: http://edgarmorin.sescsp.org.br/.

Por um Futuro Cooperativista

Postado por jomosil em 06.07.2008

As cooperativas estão enfrentando a mudança climática numa escala e ritmo que mostram a sua liderança em numerosos países e setores no mundo. Embora algumas se comprometam a reduzir as emissões de gases das estufas, outras se esforçam para neutralizar os efeitos do carbono e todas trabalham para conseguir a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Afinal, a mudança climática é mais do que uma simples preocupação ambiental; tem um impacto inegável no bem estar econômico e social dos povos em todo o mundo. (ACI, Mensagem, 2008)[1] 

Falar em Cooperativismo é falar do futuro; é sem dúvida, dialogar com o futuro, em especial aqui no Brasil onde este tema ainda encontra forte resistência tanto da política ideológica quanto da economia pragmática negativa e exploratória. Mas continuamos insistindo em por em ação os princípios cooperativistas a discutir com garra a importância da conscientização de uma filosofia cooperativista. 

Já tive oportunidade de discutir em outro momento (V. Blog http://jovinodash.blogspot.com) sobre este tema e retomo a ele para lembrar aos interessados que, além de se comemorar o dia internacional das cooperativas devemos considerar que todos os dias têm que ser construídos com uma base cooperativista para as relações interpessoais de todas as pessoas. 

O Cooperativismo é desenvolvimento 

Sim. E é desenvolvimento em sentido amplo e macro visto que no ambiente cooperativista ele ocorre em todos os sentidos ou em todos as direções sociais, econômicas, políticas, culturais e, muito especial, educacionais, sendo por isso considerado a melhor e mais importante via de transformação socioeconômica e de redução da pobreza que até agora foi criada pelo Homem. 

O Cooperativismo é educação 

Sim. Ele consegue tornar as pessoas mais educadas em todos os sentidos: no sentido comportamental, no sentido cultural, no sentido social, no sentido econômico, no sentido ambiental e, em especial, no sentido espiritual. Tudo isto ocorre porque a psicologia do cooperativismo procura proporcionar aos humanos a consciência grupal, a qual não é nova porque os humanos se tornaram humanos justamente porque conseguiram alcançar nos idos da pré-história, os primeiros níveis de uma conscientização grupal que mais tarde tem como modelo a família (o clã familiar). 

O Cooperativismo é economia 

Sim e em meus estudos e pesquisas tenho nomeado o cooperativismo como o Quarto Setor Econômico justamente porque ele é uma das mais consistentes realizações econômicas da sociedade humana, uma vez que não visa o lucro no sentido capitalista, não se propõe ao gratuitismo exagerado como no socialismo e no fascismo e nem se prende a unanimidade como na democracia. Por tudo isto o Cooperativismo é uma instância superior, avançada da economia humana. É o único caminho socioeconômico capaz de abolir ou minimizar o conceito radical de propriedade e de individualismo negativo.  

O Cooperativismo é futuro hoje 

Sim. Veja-se o modelo de Mondragon (para citar apenas um caso de sucesso coletivo), na Espanha. Se o Cooperativismo deu certo e está dando certo ali, acredito que poderá dar certo em tantas outras regiões paradoxais como as que temos no Brasil e na América Latina. Na mensagem da ACI (disponível em http://www.ica.coop e http://www.ilo.org/) para o dia Internacional das Cooperativas, são apresentados outros exemplos. Hoje, pelo que tenho estudado e pesquisado, vejo que uma das melhores alternativas socioeconômicas para redução da pobreza e geração de renda está no Cooperativismo. Veja a campanha da ACI pela redução da pobreza em: http://www.ica.coop/outofpoverty/index.html cujo lema vai listado abaixo. 

O Cooperativismo é Empreendedorismo 

Sim. Vejo nas experiências da cooperação familiar alguns dos melhores modelos para desenvolvimento humano e negocial. Como resultado de minhas observações e estudos investigativos criei a expressão Coopreendedorismo para melhor explicar e caracterizar o empreendedorismo familiar que temos aqui no interior do Brasil e que não é ainda bem estudado ou bem compreendido pelos especialistas em economia. Acredito que o mesmo acontece nos demais países da América Latina e Caribe e em outros continentes. 

Em agosto (6/8 a 8/8) estaremos mais uma vez reunidos com os companheiros da América Latina e Caribe para discutir a importância e o valor do Cooperativismo para nossos países no V Encontro de Pesquisadores Latino-Americanos de Cooperativismo, em Ribeirão Preto – São Paulo. Naquela oportunidade estarei apresentando dois trabalhos nos quais discuto conclusões sobre Coopreendedorismo e algumas abordagens sobre a educação de jovens segundo os aspectos filosóficos do Cooperativismo. 

Este ano a ACI propõe como tema para comemorar o Dia Internacional das Cooperativas a luta contra a depredação do meio ambiente e pela preservação ecológica do Planeta. Isto representa um importante diálogo com o futuro entre tantos outros que temos salientado aqui em várias de atividade humana. A Cooperação é um dos elementos essenciais de nosso sistema CACHHH aplicado ao desenvolvimento e amadurecimento de sistemas humanos. 

Pão, Paz e Liberdade

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[1] ACI. Mensagem para o Dia Internacional das Cooperativas. http://www.ica.coop/outofpoverty/index.html.


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