Obsoletismo Humano (III)

Postado por jomosil em 12.04.2009

Nesta última parte, concluindo as idéias críticas sobre a situação do desenvolvimento humano para o país, reafirmo pelo menos três fatores que tenho observado como geradores do obsoletismo que aqui discuto. Passemos ao artigo. 

Três fatores (pelo menos) podem ser considerados críticos para a situação que o país vem enfrentando, desde há muito tempo, desde o início da república. O primeiro é a sub-administração, o segundo a sub-política ou sub-governança e o terceiro é a sub-educação, este último podendo ser uma das raízes que geraram a organização que veio a ser denominada de país Brasil.

A economia seria um fator se não fosse apenas o resultado operacional destes três; se fosse um fator de contribuição para que não pudéssemos alcançar o desenvolvimento sustentável. Mas o fator econômico não é o negativo neste processo de desenvolvimento. Neste caso, o Brasil é um país economicamente rico; mas, sub-administrado, sub-politizado ou sub-governado e sub-educado não conseguirá chegar a nenhum lugar, por melhores que sejam os projetos, mesmo que haja ventos positivos, porque só nos preparamos para a corrupção.  

Embora seja otimista em relação à Educação como fator de transformação e desenvolvimento de Sistemas Humanos, sou um tanto cético quanto ao (atual) projeto “Todos pela Educação”, em especial quando vejo os resultados das provas do IDEB, do ENEM e do ENADE e outros testes e exames feitos por nossos estudantes, nos quais são ou reprovados ou têm conceito insuficiente. Junte-se a estes números o uso da máquina pública pelos empresários e lobistas que, cada vez mais, se fortalecem com a “limpeza” dos cofres através dos poderosos incrustados nos palácios governamentais e nas assembléias, secretarias, fóruns e ministérios do país.  

Parece que me torno repetitivo e, às vezes, sinto que estou andando em círculo quando fico tratando deste assunto aqui. Mas uma coisa realmente acontece com a população brasileira como resultado do mau uso destes três fatores assinalados aqui: as pessoas estão cada vez mais se tornando obsoletas e parecem satisfeita (em parte) com os programas do tipo “Pão e Celular” que os políticos descobriram ser mais eficientes que os programas “Pão e Circo” da onda maquiavélica.

Afinal, estamos no século 21, iniciando a Era do Conhecimento, e quase não precisamos mais de Maquiavel quando temos nossos Marcola, Beira-mar, e outros líderes que sabem usar as tecnologias disponíveis para promover planejamentos e vídeo-conferência com seus comandados de dentro da prisão-hotel e, assim, realizar de forma bastante concreta a caminhada para o Obsoletismo Humano.  

Por que, então, gastar dinheiro com educação, com livros, se o povo não sabe usar estes instrumentos e preferem usar outros menos complexos e que exige menos habilidades essenciais para colocar em ação? Projetos educacionais não dão votos, que o diga o último candidato a presidente que, em sua campanha garantiu elevar o IDH do país tomando como ponto crítico a educação. (Uma arma, mesmo tecnicamente sofisticada, é mais fácil de lidar do que um livro por mais simples que seja o seu conteúdo. A arma requer APENAS treinamento, instrução que se consegue realizar em algumas horas ou alguns dias, enquanto o livro requer EDUCAÇÃO e aprendizagem que só se consegue realizar em quinze, vinte ou mais anos de trabalho intensivo. Nesta questão o Marcola ganha de folga para os administradores públicos do país).  

O que se vê, então, é usar todo o dinheiro que se destina a instrumentalização do Processo Educacional Brasileiro em benefício próprio, enviando-o para os paraísos fiscais, através de projetos bem mais maldosos que os dos traficantes.  

Para mim não existe diferença entre lavar dinheiro, sobrefaturar obras, extrair nota fiscal fria, fazer lobby para construção civil e outros projetos sociais, econômicos, tecnológicos ou montar bingos, ONGs e empresas fantasmas, e o “trabalho” que os líderes do tráfico realiza na guerra civil que assola o país. Políticos e traficantes, boleiros e lobbistas todos estão no mesmo pé de igualdade quando se trata de promover o Obsoletismo Humano no país (salvo raríssimas exceções entre os políticos). 

Concluo usando uma frase muito bem elaborada por Proudhon: “Faço guerra a idéias antiquadas, não a homens antiquados”[i]. Precisamos de uma Nova Educação e de uma Nova Esperança.

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[i] PROUDHON, P-J. A Nova Sociedade. Porto: Edição Rés, s.d.

Obsoletismo Humano (II)

Postado por jomosil em 04.04.2009

Continuando com o artigo concluo nesta segunda parte as reflexões sobre a (suposta) entrevista do “Sr. Marcola” e prossigo colocando minhas idéias sobre o que conceituo como Obsoletismo Humano: 

Como Marcola, nós também lemos, estudamos e usamos como referência bibliográfica em nossos trabalhos sobre estratégia e prospectiva textos como o de Carl von Clausewitz e, mesmo assim, não conseguimos formar cidadãos proativos, que não fogem da incerteza, que não se distanciam do poder, que têm coragem de ousar e ser criativos, porque ser criativo requer que sejamos anarquistas, visto que só pode criar alguma coisa quando se está livre e/ou na ilegalidade e isto o Marcola sabe fazer muito bem. Apenas a diferença entre o meu ser criativo e o ser criativo do Marcola está na qualidade do bem criado e a sua destinação coletiva.

Aqui desejamos desenvolver pessoas para um futuro positivo; lá eles desejam criar pessoas para um presente destrutivo e negativo. Mas, vale esta citação do Clausewitz, para este momento: Quando o discernimento é claro e profundo o resultado não pode ser outra coisa que não princípios gerais e vistas de ação de um alto nível; é nestes princípios que está ancorada a opinião em cada caso particular imediatamente considerado. (…) Nestes casos, muitas vezes, nada mais nos pode ajudar senão uma máxima imperativa, independente de raciocínio, e que logo o controla: a máxima é, em todos os casos duvidosos, deve aderir-se à primeira opinião, e não desistir dela até que a isso sejamos forçados por uma convicção clara. Portanto, seja ou não verdadeira a reportagem (uma vez que não tive acesso ao original de O Globo) fico com a máxima de Clausewitz[i].

 Entre as reflexões que podemos destacar relativa a essas e outras questões estão aquelas concernentes à educação que, para mim, é um dos pontos cruciais do obsoletismo humano nacional. Nesta segunda parte o artigo procurou focalizar este tópico. Vejamos então: 

Falar sobre educação tecendo críticas às metodologias pedagógicas atuais é correr o risco de ser tachado de obsoleto ou desvairado ou mesmo de desfocalizado porque se trata de um assunto perigoso quando se está vivendo em uma sociedade minimamente democrática.

Mas, ainda existem pensadores corajosos que insistem em tratar deste assunto a despeito do descaso daqueles que se locupletam com os recursos públicos sem ser necessário desenvolver qualquer tipo de produto intelectual, seja escrever artigos, livros, desenvolver projetos de pesquisa e outras (bobagens) que nós, professores, pesquisadores e pensadores, fazemos no nosso labor universitário ou mesmo escolar, e da pobre maioria que desconhece o que seja educação pelo simples fato de que fora excluída dela ou de forma proposital por aqueles que estão passeando pelos poderes a séculos e fazendo uso da riqueza da nação em benefício próprio ou para seus descendentes, ou por mero desconhecimento como algo deveras importante para as suas vidas. Sabemos que somos minoria, mas não vamos desistir de pensar no futuro a partir de uma idéia de educação no presente. Em particular, faço isto por atitude e determinação.

 Tenho lido muitos artigos que tratam do descalabro da educação nacional, para usar aqui uma expressão do saudoso Darcy Ribeiro, em especial quando estão apreciando os resultados de testes, provas e avaliações divulgados nos últimos meses sobre o desempenho de estudantes brasileiros e dos seus cursos. Tenho sido otimista em relação à Educação e, por isso, não paro de discutir este tema e aborda-lo nos Blog, nos artigos que faço, nas discussões em sala de aula, e muito discuto nas reuniões com colegas. É bem perceptível que existe uma preocupação de alguns grupos de pensadores neste país com a Educação, mas apenas preocupar-se não é suficiente porque este é um tema mais do que falado e discutido nos discursos políticos, em especial nas épocas de eleições. Tivemos até um candidato a presidente que tinha como principal lema de campanha a Educação. Ao lado da preocupação vamos encontrar os projetos elaborados pelos governos voltados para promover a Educação e, como sempre, não passam de projetos encadernados para atender a alguma campanha publicitária de marketing político no sentido de angariar simpatizantes ou manter os que já assumiram este papel. Neste rol de projetos surge, agora, mais um, o projeto “Todos pela Educação”, para o qual estão sendo destinados bilhões de reais, os quais, provavelmente, nunca chegarão a ser aplicados efetivamente em educação, como já é comum neste país se considerarmos que a referência administrativa pública que temos é de usurpação dos recursos públicos para benefícios pessoais.  Vem à mente, então, as seguintes perguntas: por que se gasta tanto dinheiro com educação no Brasil e o país continua sub-educado, com o analfabetismo se disseminando através de outras modalidades que não apenas a de saber ler e escrever? Por que o jovem brasileiro não gosta de estudar, de ir à escola, de ler e, no Brasil, se lê menos que na Argentina e no Chile que têm populações muito menores que a nossa? Quais os pontos fracos do Processo Educacional Brasileiro (PEB)? Será que se falha apenas por falta de qualidade ou será que não se está usando efetivamente ferramentas de qualidade que sejam adequadas para um processo que já amarga uma doença de improdutividade e insuficiência intelectual há dezenas e dezenas de anos? Por que países como Coréia do Sul, Irlanda, China e outros fazem projetos educacionais com prazos de 20, 30, 40 anos e conseguem obter resultados positivos ao longo desses anos projetados e nossos projetos e seus resultados são ruins? Não posso ser pessimista com a Educação quando vejo resultados como o da Irlanda (conforme foi mostrado no programa “Mundo S.A.” que a rede Globo leva ao ar às terças-feiras às 06h45min da manhã) que conseguiu se transformar em uma realidade educacional e econômica em quarenta anos graças a investimentos em educação. 

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[i] CLAUSEWITZ, C von. Da Guerra. Lisboa: Publicações Europa-América, s.d.


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