Salvar
De todas as propostas indecentes, a mais escandalosa delas é a religiosa, que pretende salvar a humanidade. Essa pretensão é, acima de tudo, uma negação de Deus e uma ameaça à vida.
Existindo Deus e sendo Deus quem cria o universo, qualquer idéia de alienação de Deus do que cria, nega ambos. Se quem cria logo perde o controle do que cria, ou criou irresponsavelmente ou fracassou.
Havendo fracassado, Deus não é Deus, tendo sido irresponsável não é bom e, portanto, também não é Deus. Se alguma criatura precisa ser salva de algo, seria de uma imperfeição de quem criou.
Sendo que cremos no Deus que é Deus sem reticências, sabemos com a mais absoluta das certezas que nenhuma de suas idéias poderia possivelmente fracassar. Portanto, tudo aquilo que em nossa limitação percebemos como fraqueza, ou imperfeição no mundo, é parte do projeto original, tem uma boa razão por detrás e, embora, possa parecer paradoxal, faz parte da perfeição do todo e, por conseqüência da mente idealizadora do todo. Nessa mente, a visão do conjunto é completa. Nada periga no conjunto e nem dele pode escapar, sob pena de deixar de ser, nunca ter sido e nunca vir a ser.
Essa certeza e absoluta segurança fornecem o contexto para a mais perfeita liberdade no momento. Só é livre quem o é sem precondições. A liberdade condicionada a senões ou dentro de opções muito restritas é uma farsa. Quando se diz que alguém é livre para escolher entre o bem e o mal, na verdade proclama-se a sua escravidão mais definitiva. Ao tirar de uma pessoa a possibilidade de uma terceira ou quarta via ou, mesmo, de criar a sua própria via, faz-se dela um ser despido de qualquer dignidade e fechado na rigidez da impossibilidade. E/ou, este ou aquele, morre nesse condicionamento a criatividade, a alegria e, por fim, a própria pessoa como entidade.
Daí, a pretensão de salvar quer, de fato, tornar cativo o ser e nesse ato diz que Deus não é Deus. Essa posição salvadora é, no fundo, um “ateísmo” religioso e, socialmente, uma usurpação da dignidade humana.
Confundir os conflitos existenciais e psicológicos com sintomas de uma alegada perdição ou pecaminosidade é má-fé. As contingências do momento e, mesmo o processo de desenvolvimento, com certeza causam desconfortos, que são apenas sinais de progresso. O pé dói quando o sapato aperta. O erro não está no pé e nem no sapato. Antes, esse é um sinal de crescimento.
(Onaldo Alves Pereira)
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