Lá vai um quase-século na estrada
carregando o acúmulo
de uma existência
mais atrás
a espreitar-lhe
segue-o a morte
com a negra túnica roçando o chão
amolando sua foice.
Flantuares
Eles formavam uma família há poucos meses, mas a idéia ainda não lhes tinha ocorrido. Até que andavam por entre as prateleiras de uma loja de variedades e deram de cara com árvores. Pequenas, grandes, coloridas, verdes, brancas, cheias de bolas, enfeites e então se apaixonaram. Sim, depararam-se com árvores de natal, pinheirinho pra uns, simplesmente árvore para outros. Era tanto brilho, luzes e magia, que eles não resistiram e adquiriram o primeiro exemplar de tronco e folhas de suas vidas.
Chegaram em casa e ainda eram meados de outubro, mas logo montaram o monumento natalino bem ali, na entrada da sala de estar. Ela encarregou-se de escolher a bolinha que cada galho receberia, cada pequeno embrulho, cada estrelinha. Ele ficou com a difícil tarefa de instalar o pisca-pisca que, claro, não poderia faltar. Luzes, câmera, ação: a árvore deles ganhou vida e piscava num ritmo constante.
O casal ficou orgulhoso e feliz porque agora vivia em um lar completo, muito familiar como todos deveriam ser.
A partir daí, inauguraram outra tradição: rechear os pés da árvore com presentes que só seriam abertos na noite de natal, claro.
Embrulhos grandes, pequenos, coloridos, disfarçados, todos iam pra debaixo da moça de galhos verdes, à espera do grande momento.
E assim foi passando os dias. Todas as vezes que eles olhavam para a pequenina, mas imponente, lembravam-se que eram, sim, uma família feliz. Pequena, criando ainda hábitos e costumes, mas muito, muito feliz.
E após todos os festejos, pacotes abertos, presentes e abraços recebidos, ela foi desmontada. Mas deixou a certeza de que no próximo ano voltaria, e como não poderia deixar de ser, seguindo a tradição de acrescentar em sua decoração uma peça nova.
Postado por Bela Tati
Segue o poema vencedor do V Concurso de Poesias da Universidade do Grande ABC (UniABC), realizado em novembro/2008.
Um poeta se perdeu na paisagem
de um romance épico que lia
galopava pelos prados
ao som da natureza
pensava ser um cavaleiro
a serviço do rei.
Como numa bruxaria
as palavras o enfeitiçaram
folheava o livro
feito quem dedilha uma lira
e a história tornou-se seu calabouço.
Na torre do castelo havia uma princesa
de lábios intocados
a entoar cantigas medievais
tal qual o trovador apaixonado
num platonismo angustiante
o homem poetizava
a cada capítulo lido.
Ficava a virgem cantando ao vento
esperando por um príncipe
que nunca vinha
sua voz lamuriosa
hipnotizou o leitor enamorado
como um timbre de sereia.
De tanto esperar ficou demente
e seu canto tão melancólico
que o leitor se abateu.
Ela definhava
a vida dele minava em lágrimas
ela se atirou da torre
ele sentiu-a pular do livro.
Não havia mais páginas para virar
só a contracapa em branco
onde escreveu um poema
no qual morria ao lado dela.
Morre a donzela de tristeza
morre o poeta fundido à história.
Flantuares
Saudade
Palavra sem tradução
Sem sentido
Saudade
De coisas que fiz
De coisas que não fiz
De coisas que vou fazer
Saudade
Palavra sem tradução
Sentimento bom de guardar
E às vezes muito ruim de sentir
Saudade
De um gesto, uma palavra, de um lugar
De um olhar, de um momento
Talvez nem tão especial, mas que deixou saudade
Saudade
De algo recente, que já passou
De algo distante, que nunca chega
De algo presente, de agora
Saudade
De quem se foi
De quem virá
Saudade de quem está
E sempre estará
Andréa Zafani
Porque verto em alegria por saber da sua chegada, deixo que debruce seus olhos sobre mim, eu quero saber do meu desejo refletido neles, saber da sua masculinidade crescendo, da rigidez de seu(s) membro(s). É bom saber de você sem conseguir se soltar dos meus traços, atado a liberdade de me ter sua quando quiser.
Seus dedos segredando (com) a rosa, inventando corações, redesenhando o altar em que queimam. O corpo a estremecer no ir e vir de suas mãos com fome que é minha.
E eu aceito (com) o afago, os sonhos, as pequenas mortes, como se um chamado fosse, um pedido de socorro, uma prece, que me penetra e é absolvida de qualquer confissão. É edificante saber das minhas palavras em sua boca, esse emblema divino de desespero e perdição, em sua voz, rouca, que dentro de mim ecoa e goteja quereres perdidos em um verso de poesia soletrada na surdina, uníssona, onde se instala seu verbo urgente.
Preciso da sua língua a lamber com apetite a minha, a embriagar-me, a “assinar minha pele com sua saliva“; eu a lhe proporcionar a melhor seiva. Preciso que sinta a minha respiração parar, o meu cheiro misturado ao seu, meus pêlos eriçarem num arrepio, eu com gosto seu. Suas mãos me livrando das vestes, meus sentidos se perdendo sob seu toque, ao deslizá-las minuciosamente por onde a vida se faz promessas.
A nossa noite começará sem hora para acabar, vou te recitar um sonho, te colocar entre minhas coxas, te encaixar onde me liqüefaço, estridente e insensata, na firmeza de suas carícias, que me preencha, que ocupe os espaços que são seus, o seu sexo invadindo o meu, que germine a sua eternidade em mim…
O peso do seu corpo espalhado sobre o meu, a se entregar sem controle dentro de mim, a derramar todos os seus devaneios entre todos os meus lábios…
Aline Belle
Há um coleirinha no telhado
cantando como se fosse
o último do mundo
tão dolente é seu canto
parece que vai morrer.
Através da janela
vejo os carros
urrarem na avenida
as pessoas na calçada
não ouvem o pássaro
que não pára de cantar
só os cães acorrentados
atentam ao prenúncio.
Eu tiro uma foto dele
e o mantenho salvo para sempre.
Flantuares
Sua ausência me faz fraca
Fico sem rumo, sem direção
A energia que necessito, não existe
Sua ausência me dói
Uma dor que não pára
Machuca meu corpo intacto
Um vazio me rouba o ar
E sufoca a dor da sua ausência
O silêncio me tortura
E aos poucos
Sinto meu coração definhar
Meu corpo desfalecido
Sua ausência é cruel
Sem dó, sem piedade
Ela queima em minhas entranhas
Me torno frágil
Totalmente exposta a esse sofrimento
Ao sofrimento da sua ausência
Mas o amor não é pra todos
Tem que ser forte, saber amar
É um privilégio dos românticos
Pra quem ama
A esperança de ser correspondido
É um sonho viável, mesmo diante de
Uma ausência.
Andréa Zafani
De 3 a 9 de novembro, acontece a 1ª Feira de Livros da UniABC, evento que trará à universidade os últimos lançamentos d o mercado editorial . A Feira pretende atender à comunidade interna e externa e tem o objetivo de incentivar o hábito da leitura, a formação de novos leitores e a divulgação da produção literária contemporânea.
A Universidade entende que iniciativas como essa são importantes para a divulgação do livro como fonte de aprendizagem e descoberta de novos conhecimentos para os alunos dos mais diferentes níveis, mas em sua organização preocupou-se em atender uma demanda de seus alunos e professores, que muitas vezes não têm como ir às grandes livrarias e feiras para estar a par do que é publicado.
Data e local:
O evento será realizado de 3 a 7/11, de segunda a sexta-feira, das 14h às 21h. Dia 8 e 9/11, sábado e domingo, das 10h às 16h, no campus da UniABC, à Av. Industrial, 3.330 – Bairro Campestre – Santo André – SP.
A entrada é gratuita!
Escolas também poderão participar!
Traga seus alunos! Confirme hoje mesmo a participação de sua escola.
Mais informações, ligue para (11) 4991-9864. Falar com Cinthia, entre 10h e 19h.
Contamos com a presença de todos!
Grande Mestre
De profunda
Sabedoria
E alegria
Aquele
Que ensina
E conduz
Que de seu conhecimento
Traz a nós
Grande ensinamento
Aquele
Que exorta
E edifica
Nem mesmo
O maior dos seres
É tão grande como você
Não existe ninguém no mundo
Que se compara a você
Ensinar
Exortar
Edificar
Conduzir
No ato de ensinar
Somente
Você
Possui a maior
Das honras
Que por apenas
Prazer
Mostra a nós
Um caminho
Ao meu professor
Que tudo me ensina
Desejo sempre
As maiores
Alegrias
Nemeses
Capítulo 1
Acordei com o toque do meu celular. Desliguei-o e nem quis saber quem era. Fiquei na cama por mais alguns minutos. Além de ser um domingo, ainda eram sete horas da manhã e queria dormir até meio-dia. Já estava pegando no sono de novo, quando o aparelho toca novamente. Irritado, resolvi atendê-lo. Era Ricardo, o baixista da minha ex-banda, quem ligava. Há anos não nos falávamos, pois eu estava morando na capital e depois de me mudar de Mauá, não voltei mais lá.
- Olá, Jonas! Há quanto tempo, hein!
- Pois é, digo o mesmo, velho amigo.
Conversamos um pouco sobre nossas vidas, ele continuava morando na mesma casa e levava a mesma vidinha pacata na oficina mecânica de seu pai. Depois que terminou o ensino médio não estudou mais. Namorava a Adriana, uma menina horrorosa, que estudou com a gente no ginásio. Quase não acreditei nisso. Falei-lhe sobre minha vida na faculdade de contabilidade e meu emprego no escritório, mesmo sabendo que ele não entendia muito dessas coisas. Mas estranhando aquela ligação após anos longe daquela cidade, perguntei em tom de gracejo:
- O que o faz ligar após tanto tempo? Alguma notícia especial?
- Nem sei como te dizer, cara. – e com sua voz calma como a de um padre – Elder morreu.
Não acreditei. Fiquei uns segundos mudo, até que do outro lado ouvi a voz de Ricardo me chamando:
- Jonas!
- Quando foi? – perguntei incrédulo.
- Há três dias. Desculpe ter te informado só agora, mas é que você sumiu. Deu trabalho conseguir seu número de telefone. Quando puder passe aqui, assim podemos conversar melhor.
Conversamos mais um pouco, porém ele teve que desligar o telefone, pois tinha que buscar a namorada na casa dela porque a prometera levá-la ao cinema naquele dia, e já estava atrasado. Pelo tom de sua voz, percebi que ela o dominava.
Elder foi meu amigo na infância e na adolescência. Gostava demais dele, nos divertíamos muito juntos. Nascera com uma voz maravilhosa, por isso era o vocalista da banda. Há tempos não o via e nem pensava nele. Fiquei aturdido com a notícia de sua morte. Pensei em ligar para sua casa, falar com sua mãe e saber se ela precisava de algo, afinal, ela sempre me tratou bem. Revirei minhas coisas à procura da minha agenda telefônica, mas não a achei, e meu celular era novo, não tinha o número dela. Sem pensar duas vezes, peguei um trem rumo a Mauá. No caminho, através da janela, reparei na paisagem das cidades que há entre Mauá e São Paulo e lembrei-me das andanças que fazia com meus amigos por essas regiões, quando éramos adolescentes.
Em uma hora cheguei a Mauá. Era verdade. Encontrei a mãe dele chorando no sofá. Abracei-a, dei os pêsames e me contive para não chorar na frente dela. Conversamos um pouco e ela me chamou para subir ao quarto onde o encontraram morto. Disse-me que se tivesse sido mais atenta, teria previsto aquilo.
O local estava intocado desde o ocorrido, ninguém havia mexido em nada. Era o mesmo lugar que nós usávamos para ensaiar as músicas de nossa banda. Os pôsteres de Elvis Presley, John Lennon e Jimmy Hendrix já estavam há quase duas décadas na parede. A guitarra em cima da cama, que ele batizou de Rock Piece, era a mesma que ele usava na banda. A única que ele usou sua vida toda, pois aquela lhe era especial. Chorei. Dona Estela passou a mão em minha cabeça e chorou também.
O telefone toca, ela vai atendê-lo. Ando desconsolado pelo quarto, revistando tudo. Vejo uma câmera de vídeo em cima da cômoda. Quando a pego na mão percebo que ela está ligada. Sempre fui curioso e naquela hora, aquilo havia despertado minha curiosidade. Pensei: “Por que a câmera está ligada?”.
Vasculhei-a. Tinha algo gravado. Apertei o play e quase tombei de susto. Vi Elder sentado na cama com uma garrafa de conhaque numa mão e um baseado enorme na outra. Ele deu um trago forte, duas goladas exageradas e disse:
- Olá! Se você está assistindo a essa gravação, então estou morto.
De repente ouvi os passos de Dona Estela na escada. Desliguei a câmera e meti-a embaixo da jaqueta, depois fiz o possível para disfarçar minha cara de espanto. Quando ela entrou no quarto, disse-lhe:
- Dona Estela, estou profundamente triste. Elder era meu amigo de infância e, também, o melhor que tive. Nunca mais haverá uma amizade como a nossa. – dramático, mas sincero – Vou-me embora, pois as lembranças que este quarto me traz, embora alegres, também são doloridas nesta hora.
- Tudo bem, Jonas, compreendo. Vá e viva de maneira a não acabar como meu filho, mas volte de vez em quando para me visitar. Elder era filho único, por isso via em você o irmão que nunca teve. E eu sempre o tive como um segundo filho. - Se ela soubesse que fui eu quem ofereceu a Elder o primeiro baseado, talvez não tivesse dito isso.
Despedi-me dela e saí com os olhos carregados de lágrimas. Estava a falar sozinho no caminho de volta pra casa, me perguntando por que aquilo acontecera. Daí senti um peso na jaqueta, me lembrei da câmera. Apressei-me, mas antes que chegasse em casa, passei num bar para tomar um conhaque e refletir sobre a vida.
Flantuares