Grupo de Escritores da UniABC

O novo blog do Blogs.universia.com.br

O velho

Lá vai um quase-século na estrada
carregando o acúmulo
de uma existência
mais atrás
a espreitar-lhe
segue-o a morte
com a negra túnica roçando o chão
amolando sua foice.

Flantuares

A árvore

Eles formavam uma família há poucos meses, mas a idéia ainda não lhes tinha ocorrido. Até que andavam por entre as prateleiras de uma loja de variedades e deram de cara com árvores. Pequenas, grandes, coloridas, verdes, brancas, cheias de bolas, enfeites e então se apaixonaram. Sim, depararam-se com árvores de natal, pinheirinho pra uns, simplesmente árvore para outros. Era tanto brilho, luzes e magia, que eles não resistiram e adquiriram o primeiro exemplar de tronco e folhas de suas vidas.
Chegaram em casa e ainda eram meados de outubro, mas logo montaram o monumento natalino bem ali, na entrada da sala de estar. Ela encarregou-se de escolher a bolinha que cada galho receberia, cada pequeno embrulho, cada estrelinha. Ele ficou com a difícil tarefa de instalar o pisca-pisca que, claro, não poderia faltar. Luzes, câmera, ação: a árvore deles ganhou vida e piscava num ritmo constante.
O casal ficou orgulhoso e feliz porque agora vivia em um lar completo, muito familiar como todos deveriam ser.
A partir daí, inauguraram outra tradição: rechear os pés da árvore com presentes que só seriam abertos na noite de natal, claro.
Embrulhos grandes, pequenos, coloridos, disfarçados, todos iam pra debaixo da moça de galhos verdes, à espera do grande momento.
E assim foi passando os dias. Todas as vezes que eles olhavam para a pequenina, mas imponente, lembravam-se que eram, sim, uma família feliz. Pequena, criando ainda hábitos e costumes, mas muito, muito feliz.
E após todos os festejos, pacotes abertos, presentes e abraços recebidos, ela foi desmontada. Mas deixou a certeza de que no próximo ano voltaria, e como não poderia deixar de ser, seguindo a tradição de acrescentar em sua decoração uma peça nova.

Postado por Bela Tati

http://sopadeletrinhasdatati.blogspot.com/

Um leitor poeta

Segue o poema vencedor do V Concurso de Poesias da Universidade do Grande ABC (UniABC), realizado em novembro/2008. 

Um poeta se perdeu na paisagem

de um romance épico que lia

galopava pelos prados

ao som da natureza

pensava ser um cavaleiro

a serviço do rei.

Como numa bruxaria

as palavras o enfeitiçaram

folheava o livro

feito quem dedilha uma lira

e a história tornou-se seu calabouço.

 

Na torre do castelo havia uma princesa

de lábios intocados

a entoar cantigas medievais

tal qual o trovador apaixonado

num platonismo angustiante

o homem poetizava

a cada capítulo lido.

 

Ficava a virgem cantando ao vento

esperando por um príncipe

que nunca vinha

sua voz lamuriosa

hipnotizou o leitor enamorado

como um timbre de sereia.

 

De tanto esperar ficou demente

e seu canto tão melancólico

que o leitor se abateu.

Ela definhava

a vida dele minava em lágrimas

ela se atirou da torre

ele sentiu-a pular do livro.

Não havia mais páginas para virar

só a contracapa em branco

onde escreveu um poema

no qual morria ao lado dela.

 

Morre a donzela de tristeza

morre o poeta fundido à história.

                                             Flantuares 

          

UM SENTIMENTO

 

Saudade

Palavra sem tradução

Sem sentido

Saudade

De coisas que fiz

De coisas que não fiz

De coisas que vou fazer

Saudade

Palavra sem tradução

Sentimento bom de guardar

E às vezes muito ruim de sentir

Saudade

De um gesto, uma palavra, de um lugar

De um olhar, de um momento

Talvez nem tão especial, mas que deixou saudade

Saudade

De algo recente, que já passou

De algo distante, que nunca chega

De algo presente, de agora

Saudade

De quem se foi

De quem virá

Saudade de quem está

E sempre estará

Andréa Zafani

Sem hora para acabar

 Porque verto em alegria por saber da sua chegada, deixo que debruce seus olhos sobre mim, eu quero saber do meu desejo refletido neles, saber da sua masculinidade crescendo, da rigidez de seu(s) membro(s). É bom saber de você sem conseguir se soltar dos meus traços, atado a liberdade de me ter sua quando quiser.
Seus dedos segredando (com) a rosa, inventando corações, redesenhando o altar em que queimam. O corpo a estremecer no ir e vir de suas mãos com fome que é minha.

E eu aceito (com) o afago, os sonhos, as pequenas mortes, como se um chamado fosse, um pedido de socorro, uma prece, que me penetra e é absolvida de qualquer confissão. É edificante saber das minhas palavras em sua boca, esse emblema divino de desespero e perdição, em sua voz, rouca, que dentro de mim ecoa e goteja quereres perdidos em um verso de poesia soletrada na surdina, uníssona, onde se instala seu verbo urgente.
Preciso da sua língua a lamber com apetite a minha, a embriagar-me, a “assinar minha pele com sua saliva“; eu a lhe proporcionar a melhor seiva. Preciso que sinta a minha respiração parar, o meu cheiro misturado ao seu, meus pêlos eriçarem num arrepio, eu com gosto seu. Suas mãos me livrando das vestes, meus sentidos se perdendo sob seu toque, ao deslizá-las minuciosamente por onde a vida se faz promessas.
A nossa noite começará sem hora para acabar, vou te recitar um sonho, te colocar entre minhas coxas, te encaixar onde me liqüefaço, estridente e insensata, na firmeza de suas carícias, que me preencha, que ocupe os espaços que são seus, o seu sexo invadindo o meu, que germine a sua eternidade em mim…
O peso do seu corpo espalhado sobre o meu, a se entregar sem controle dentro de mim, a derramar todos os seus devaneios entre todos os meus lábios…
 

Aline Belle

O coleirinha

Há um coleirinha no telhado
cantando como se fosse
o último do mundo
tão dolente é seu canto
parece que vai morrer.

Através da janela
vejo os carros
urrarem na avenida
as pessoas na calçada
não ouvem o pássaro
que não pára de cantar
só os cães acorrentados
atentam ao prenúncio.

Eu tiro uma foto dele
e o mantenho salvo para sempre.

Flantuares

 

http://www.flantuares.blogspot.com

Ausência

Sua ausência me faz fraca

Fico sem rumo, sem direção

A energia que necessito, não existe

Sua ausência me dói

Uma dor que  não pára

Machuca meu corpo intacto

Um vazio me rouba o ar

E sufoca a dor da sua ausência

O silêncio me tortura

E aos poucos

Sinto meu coração definhar

Meu corpo desfalecido

Sua ausência é cruel

Sem dó, sem piedade

Ela queima em minhas entranhas 

Me torno frágil

Totalmente exposta a esse sofrimento

Ao sofrimento da sua ausência

Mas o amor não é pra todos

Tem que ser forte, saber amar

É um privilégio dos românticos

Pra quem ama

A esperança de ser correspondido

É um sonho viável, mesmo diante de

Uma ausência. 

Andréa Zafani

1ª Feira de Livros da UniABC- Participe!

De 3 a 9 de novembro, acontece a 1ª Feira de Livros da UniABC, evento que trará à universidade os últimos lançamentos d o mercado editorial . A Feira pretende atender à comunidade interna e externa e tem o objetivo de incentivar o hábito da leitura, a formação de novos leitores e a divulgação da produção literária contemporânea.

A Universidade entende que iniciativas como essa são importantes para a divulgação do livro como fonte de aprendizagem e descoberta de novos conhecimentos para os alunos dos mais diferentes níveis, mas em sua organização preocupou-se em atender uma demanda de seus alunos e professores, que muitas vezes não têm como ir às grandes livrarias e feiras para estar a par do que é publicado.

Data e local:

O evento será realizado de 3 a 7/11, de segunda a sexta-feira, das 14h às 21h. Dia 8 e 9/11, sábado e domingo, das 10h às 16h, no campus da UniABC, à Av. Industrial, 3.330 – Bairro Campestre – Santo André – SP.

A entrada é gratuita!

Escolas também poderão participar!
Traga seus alunos! Confirme hoje mesmo a participação de sua escola.
Mais informações, ligue para (11) 4991-9864. Falar com Cinthia, entre 10h e 19h.
Contamos com a presença de todos!
 

Ao grande Mestre

  

Grande Mestre

De profunda

Sabedoria

E alegria

 

Aquele

Que ensina

E conduz

Que de seu conhecimento

Traz a nós

Grande ensinamento

Aquele

Que exorta

E edifica

 

Nem mesmo

O maior dos seres

É tão grande como você

Não existe ninguém no mundo

Que se compara a você

 

Ensinar

Exortar

Edificar

Conduzir

 

No ato de ensinar

Somente

Você

Possui a maior

Das honras

Que por apenas

Prazer

Mostra a nós

Um caminho

 

Ao meu professor

Que tudo me ensina

Desejo sempre

As maiores

Alegrias

   Nemeses

Efeito de alienação

Capítulo 1 

            Acordei com o toque do meu celular. Desliguei-o e nem quis saber quem era. Fiquei na cama por mais alguns minutos. Além de ser um domingo, ainda eram sete horas da manhã e queria dormir até meio-dia. Já estava pegando no sono de novo, quando o aparelho toca novamente. Irritado, resolvi atendê-lo. Era Ricardo, o baixista da minha ex-banda, quem ligava. Há anos não nos falávamos, pois eu estava morando na capital e depois de me mudar de Mauá, não voltei mais lá.

            - Olá, Jonas! Há quanto tempo, hein!

            - Pois é, digo o mesmo, velho amigo.

            Conversamos um pouco sobre nossas vidas, ele continuava morando na mesma casa e levava a mesma vidinha pacata na oficina mecânica de seu pai. Depois que terminou o ensino médio não estudou mais. Namorava a Adriana, uma menina horrorosa, que estudou com a gente no ginásio. Quase não acreditei nisso. Falei-lhe sobre minha vida na faculdade de contabilidade e meu emprego no escritório, mesmo sabendo que ele não entendia muito dessas coisas. Mas estranhando aquela ligação após anos longe daquela cidade, perguntei em tom de gracejo:

            - O que o faz ligar após tanto tempo? Alguma notícia especial?

             - Nem sei como te dizer, cara. – e com sua voz calma como a de um padre – Elder morreu.

            Não acreditei. Fiquei uns segundos mudo, até que do outro lado ouvi a voz de Ricardo me chamando:

            - Jonas!

            - Quando foi? – perguntei incrédulo.

            - Há três dias. Desculpe ter te informado só agora, mas é que você sumiu. Deu trabalho conseguir seu número de telefone. Quando puder passe aqui, assim podemos conversar melhor. 

            Conversamos mais um pouco, porém ele teve que desligar o telefone, pois tinha que buscar a namorada na casa dela porque a prometera levá-la ao cinema naquele dia, e já estava atrasado. Pelo tom de sua voz, percebi que ela o dominava.

            Elder foi meu amigo na infância e na adolescência. Gostava demais dele, nos divertíamos muito juntos. Nascera com uma voz maravilhosa, por isso era o vocalista da banda. Há tempos não o via e nem pensava nele. Fiquei aturdido com a notícia de sua morte. Pensei em ligar para sua casa, falar com sua mãe e saber se ela precisava de algo, afinal, ela sempre me tratou bem. Revirei minhas coisas à procura da minha agenda telefônica, mas não a achei, e meu celular era novo, não tinha o número dela. Sem pensar duas vezes, peguei um trem rumo a Mauá. No caminho, através da janela, reparei na paisagem das cidades que há entre Mauá e São Paulo e lembrei-me das andanças que fazia com meus amigos por essas regiões, quando éramos adolescentes.

            Em uma hora cheguei a Mauá. Era verdade. Encontrei a mãe dele chorando no sofá. Abracei-a, dei os pêsames e me contive para não chorar na frente dela. Conversamos um pouco e ela me chamou para subir ao quarto onde o encontraram morto. Disse-me que se tivesse sido mais atenta, teria previsto aquilo.

            O local estava intocado desde o ocorrido, ninguém havia mexido em nada. Era o mesmo lugar que nós usávamos para ensaiar as músicas de nossa banda. Os pôsteres de Elvis Presley, John Lennon e Jimmy Hendrix já estavam há quase duas décadas na parede. A guitarra em cima da cama, que ele batizou de Rock Piece, era a mesma que ele usava na banda. A única que ele usou sua vida toda, pois aquela lhe era especial. Chorei. Dona Estela passou a mão em minha cabeça e chorou também. 

            O telefone toca, ela vai atendê-lo. Ando desconsolado pelo quarto, revistando tudo. Vejo uma câmera de vídeo em cima da cômoda. Quando a pego na mão percebo que ela está ligada. Sempre fui curioso e naquela hora, aquilo havia despertado minha curiosidade. Pensei: “Por que a câmera está ligada?”.

            Vasculhei-a. Tinha algo gravado. Apertei o play e quase tombei de susto. Vi Elder sentado na cama com uma garrafa de conhaque numa mão e um baseado enorme na outra. Ele deu um trago forte, duas goladas exageradas e disse:

            - Olá! Se você está assistindo a essa gravação, então estou morto.

            De repente ouvi os passos de Dona Estela na escada. Desliguei a câmera e meti-a embaixo da jaqueta, depois fiz o possível para disfarçar minha cara de espanto. Quando ela entrou no quarto, disse-lhe:

            - Dona Estela, estou profundamente triste. Elder era meu amigo de infância e, também, o melhor que tive. Nunca mais haverá uma amizade como a nossa. – dramático, mas sincero – Vou-me embora, pois as lembranças que este quarto me traz, embora alegres, também são doloridas nesta hora.

            - Tudo bem, Jonas, compreendo. Vá e viva de maneira a não acabar como meu filho, mas volte de vez em quando para me visitar. Elder era filho único, por isso via em você o irmão que nunca teve. E eu sempre o tive como um segundo filho. - Se ela soubesse que fui eu quem ofereceu a Elder o primeiro baseado, talvez não tivesse dito isso.      

            Despedi-me dela e saí com os olhos carregados de lágrimas. Estava a falar sozinho no caminho de volta pra casa, me perguntando por que aquilo acontecera. Daí senti um peso na jaqueta, me lembrei da câmera. Apressei-me, mas antes que chegasse em casa, passei num bar para tomar um conhaque e refletir sobre a vida.

                                                                           Flantuares

«   

Calendário

Novembro 2008
S T Q Q S S D
« Out    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930