olhar crítico
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O jovem JF

28.01.2010 por João Nunes da Silva

A vida não é fácil prá maioria das pessoas hoje, especialmente para o simples trabalhador, cuja principal fonte de renda é a sua força de trabalho. Mas JF, apesar dos contratempos, conseguiu fazer um curso superior e agora tenta arranjar a sua vida, de preferência trabalhando numa Instituição de ensino superior uma faculdade ou Universidade. Formado Ciências Sociais, acredita que as coisas agora poderão ser melhores, afinal, estamos num país livre, democrático e com grandes perspectivas de crescimento. Dessa forma, tudo o que JF aprendeu na Universidade, servirá para a sua vida profissional e também pessoal.

As aulas de Sociologia e de Antropologia, além das de história, política e geografia, ofereceram bases teóricas e conceituais para discutir qualquer problema da realidade atual. Assim pensou JF, enquanto percorria a cidade na esperança de, finalmente, poder mostrar o que aprendeu, suas habilidades e competências. Após várias tentativas frustradas, finalmente o jovem de 25 anos, já casado e com um filho prá criar, conseguiu arranjar uma escola prá ensinar. Trata-se de uma escola de ensino fundamental, mesmo assim, JF vai poder lecionar algo que aprendeu. A disciplina sob sua responsabilidade é Moral e Cívica, pois, não tem Sociologia na escola, afinal, estamos ainda na década de 80 e faz pouco tempo que o Brasil saiu de uma Ditadura Militar. Pois bem, JF tem que se contentar com Moral e Cívica mesmo.

As aulas iniciaram e JF tem pela frente uma turma de 40 meninos e meninas e todos não fazem idéia do mundo que vive, nem tampouco do que fizera a cruel Ditadura Militar. Pior, alguma coisa que sabem é que os comunistas queriam tomar o Brasil, mas, finalmente, isso não aconteceu. A dona da escola, uma coroa de 63 anos, todo dia não esquecia de agradecer a Deus pelo País livre dos comunistas. JF via e ouvia tudo e , aos poucos parecia se dar conta que estava em outro mundo e que não era isso que ele pensava, muito menos tinha aprendido nas aulas de Sociologia essa estória de comunistas que queriam tomar o Brasil; pelo contrario, aprendeu sobre Teologia da Libertação e sobre movimentos sociais. Sabia perfeitamente o que a ditadura havia feito, como torturas, assassinatos, desaparecimento de lideres sindicais e militantes de esquerda da igreja; lembrava inclusive da história da morte  de Frei Tito e da Guerrilha do Araguaia, onde  foram motos vários militantes. JF não tinha motivo para aceitar esse tipo de pensamento.

O primeiro dia de aula foi de uma euforia só, afinal, JF está trabalhando. Não importa o que pensam os alunos e até a diretoria da escola, pensava ele. Imaginava revolucionar o mundo pela educação. Não durou muito prá JF se dar conta da utopia que carregava, pois, a escola era tida como um ponto comercial e os alunos não estavam nem aí para aprender nada; somente queria era passar de ano. A diretora da escola, certo dia, chamou o professor JF e perguntou por que ele não tratava das datas comemorativas nas suas aulas, como o dia do soldado, dia da bandeira, dia dos pais e das mães, a proclamação da República, entre outras datas. JF ficou sem ação e queria dizer que isso não tinha muita importância, mas sim, era preciso que os alunos aprendam a pensar. Isso soou como uma bomba para a diretora, que logo exigiu a JF para tratar desses assuntos de datas comemorativas o mais breve possível com os alunos. JF parecia não entender nada e temia perder o emprego que havia conseguido há tempo.JF suspirou e voltou prá sala, mas não sabia o que fazer diante daquela situação. Era só o começo, muita coisa ainda viria pela frente.

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Corruptos e corruptores

06.12.2009 por João Nunes da Silva

Imagens de corruptos e de corruptores tem sido comum no Brasil, e  isso não é de hoje. Essa história vem desde a colonização, quando os portugueses se acharam no direito de se apropriarem das nossas terras, cujos moradores e verdadeiros donos, já viviam aqui a muito tempo. Me refiro aos índios, nome esse que também não corresponde, até prefiro chamar de nativos. Mas  iniciei esse texto porque me veio na memória as imagens do governador do Distrito Federal, pego enchendo os bolsos, a cueca e as meias de dinheiro. Que vexame! Esse não é o primeiro e nem vai ser o último pego no ato, pois a sociedade brasileira tem tido um comportamento conivente com tais atos.

Na verdade, em geral podemos dizer que se há uma coisa da qual não temos o direito de reclamar, digo o povo brasileiro, é da maioria dos nossos políticos. Isto porque temos os políticos que merecemos, pois eles não surgiram por obra e graça do Espírito Santo, mas também da incapacidade e da conivência de seus eleitores. Digo isso pelo simples fato de saber que vivemos num país onde tudo é possível, onde se plantando tudo dá, inclusive, se existe algo que se planta muito bem pelo Brasil a fora é a semente da corrupção. É isso mesmo, tenho visto durante todos esses anos que muita gente se beneficia de favores políticos, muitas vezes até por um simples pá de sandália ou de um comprimido, um abraço ou um aperto de mão, dando em troca o seu voto. As pessoas preferem confiar em padrinhos políticos, em favores pessoais do que na coletividade.

Quando alguém vende o voto não tem o direito de reclamar das conseqüências depois. O mau uso do dinheiro público, os atos de corrupção, os desmandos políticos, responsáveis pelo solapamento dos problemas sociais, como a pobreza e a criminalidade, são frutos da cultura perniciosa do maldito jeitinho brasileiro. Quando se vende um voto, se vende a dignidade e o direito de cobrar pelo bom uso da coisa pública.

O problema é que o responsável por vender o voto provoca danos mais aos outros do que a si próprio. O que pensar de um indivíduo que vive de favores políticos e de uma empresa, cujos empregados são reféns dos mandatários políticos, de uma sociedade onde a honestidade em vez de ser obrigação se tornou luxo? Não podemos esperar muito de uma sociedade onde a leitura é cada vez mais rara, onde se estuda para ser ter nota, diploma e aumento de salários, em vez de se buscar criar uma cultura de discussão e de reflexão a partir de leituras sérias e não de auto-ajuda ou do engodo de palestras motivacionais, verdadeiros espetáculos para encher os olhos dos incautos e os bolsos dos charlatões.

Além disso, em meio às tragédias, temos como resultados o aumento do número de igrejas, livrarias repletas de obras de auto-ajuda e de livros que se tornaram best selers não por serem bons, mas em função do marketing e da propaganda maciça nas grandes emissoras deTV. E o que isso tem a ver com corrupção? Tudo, pois quando se tem a corrupção como cultura, tem-se a ignorância de quem a cultua. E assim a vida continua.

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Tributo a Mercedes Sosa

04.10.2009 por João Nunes da Silva

Desde cedo, quando já iniciava minhas primeiras reflexões sobre a vida, o sentido da vida, do ser humano e de suas angustias, aflições e lutas, me dei conta que não há nada mais importante do que pessoas e coisas, sem as quais, teríamos um mundo muito mais difícil, e, por que não dizer, impossível de viver. Refiro- me a coisas como um bom livro, a poesia, os romances que nos transportam para a realidade da difícil trajetória humana no planeta e, principalmente, a música, digo as mais belas e puras canções que acalentam o espírito e nos proporcionam momentos de prazer, de paz e de felicidades, além de reflexões diversas.

Falo da música como a produção do espírito, que nos aproxima dos deuses, nos eterniza e proporciona paz. Essas linhas que escrevo surgiram por impulso, movidas de emoções e ternura, além de gratificação pela beleza que as vozes dos cantores, da esteira de Mercedes Sosa, nos proporcionam. Sim, escrevo para homenagear essa grande cantora, interprete dos sofrimentos e sonhos dos povos da terra, especialmente os latino-americanos.  É que nesta manhã de domingo acordei com a notícia de que falecera Mercedes Sosa, La negra, como era apelidada, devido à forte cor dos seus cabelos longos e lisos. Tal noticia me entristeceu, embora já se preparasse para esse dia. Fiquei triste por saber que não poderemos ter mais novas interpretações dessa belíssima artista. Mas sei que o seu legado não foi em vão e suas músicas, mais do que nunca, serão ouvidas nos quatro cantos do mundo, especialmente pelos corações aflitos e injustiçados em razão da hipocrisia dos “poderosos”, os pretensos “donos do mundo” da esteira dos loucos totalitaristas, ditadores e medíocres.

A música de Mercedes Sosa, se constituiu, antes de tudo, na voz dos sofridos e injustiçados. Sem dúvida, uma das importantes vozes da América latina, não somente pelo seu timbre, pela sua potencia, mas sim, pela mensagem deixada por cada palavra cantada, pela emoção da interpretação pela defesa dos menos favorecidos.

Foram muitas as canções interpretadas por essa artista argentina, as quais emocionaram o mundo e emocionam até hoje os corações mais ternos, simples e puros. Dentre as suas várias canções, destaco: Gracias a La vida, Todo cambia, So le piedo a Dios. Mercedes Sosa também gravou e dividiu palco com cantores brasileiros, como Beth Carvalho (com a canção So Le piedo a Dios), Milton Nascimento, Fagner, Silvio Rodrigues, entre outros.

Além de emprestar sua voz para interpretar a vida e os sonhos dos povos latino-americanos, ela foi uma ativista política de esquerda e fez da sua voz, nos discos e nos palcos, a voz da luta pela defesa dos povos. Em razão de suas canções, foi alvo de repressão, especialmente nos anos 70, quando da Ditadura Militar instalada na Argentina.Mercedes Sosa nasceu em 9 de julho de 1935, em Tucumán, na Argentina, tendo nos deixado, portanto, com 74 anos. Mas, com  certeza, trata-se de uma artista que se eternizará pelo legado deixado através de suas canções e da sua belíssima voz. 

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Lembrança dos loucos

27.07.2009 por João Nunes da Silva

Cada cidade ou lugar tem muitas historias e estórias a contar. Mas, o que vou reportar aqui é a mais pura verdade, como se diz por aí. Quando criança muitas coisas aconteceram que ficaram na minha memória, são historias alegres, tristes e, porque não dizer, divertidas, as quais merecem ser compartilhadas. Nos idos dos anos 70 e 80 uma das coisas que me marcaram foi a dos loucos da minha cidade; e, diga-se de passagem, qual cidade não tem uma história de louco? Se alguém disser que não, digo que essa cidade não existe. Pois bem, lembro-me de algumas figuras tais como: “ Pinta Cega”, Figueiredo, Roberto Carlos, Maria Tranca Rua, Zé Doido, Coceira, dentre os diversos que tive o privilegio de conhecer e de conviver com alguns desses.

Pinta Cega era uma velha que andava nos ônibus da cidade, toda vez que ia às ruas, ela era motivo de piada, especialmente pelo fato de andar com um pedaço de pau, instrumento esse que era utilizado freqüentemente, sempre que alguém a incomodava com alguma pilhéria.

Certa vez, numa dessas fúrias que a velha Pinta Cega tinha, tive a minha perna acertada em cheio, numa manhã de sábado, num dos calçadões da cidade; é que de tanto a incomodarem com pilhéria e insultos, a velha não teve dúvida, girou a sua bengala numa velocidade que veio parar nas minhas pernas. Com o ato, gritei de dor ao ser alcançado pela fúria da velha senhora. Na época eu vendia jornal e, no calçadão da Rua Venâncio Neiva, em Campina Grande, era o ponto favorito para as pessoas se encontrarem, tomar um cafezinho quentinho e, de quebra, rir, insultar e incomodar os menos afortunados, especialmente de juízo.

Quanto a Roberto Carlos, o próprio nome já diz tudo; é que ele vivia cantando músicas do rei, sempre com algum pedaço de pau na mão, o qual lhe servia de microfone. A forma como cantava fazia todo mundo rir. Às vezes, em pleno sol da tarde, ele ficava de pé, em cima de um banco de praça, cantava, sorria e era aplaudido. O curioso é que não tinha afinação nenhuma e não sabia nenhuma das letras, mas cantava como podia, inventava, de modo que não deixava de ser engraçado.

Outra figura interessante era o “Coceira”; esse era, na verdade, um catador de lixo que vivia pelas ruas da cidade sempre feliz com sua carrocinha prá juntar papel. Certo dia ele apareceu com as pernas toda pintada, pois, tinha achado uma lata de tinta verde e resolveu pintar-se e sair pelas ruas. Vivia se coçando o tempo inteiro, mas nada o deixava triste.

Figueiredo era um velho senhor que vivia sempre munido de um cassetete de madeira, cuja principal utilidade desse instrumento era ser apontado para o alto, enquanto ele gritava o nome do Presidente Figueiredo. O seu grito parecia mais um eco, pois repetia constantemente, às vezes aos berros – Figueireeeeeeeeeeeeeeeeeeeedo. Isso mesmo, era assim que ele gritava, de forma que o “E” era quase infinito, até que o velho ficava quase afônito.

Quanto a Maria tranca Rua, não tenho muitas lembranças, apenas histórias que me contavam, mas só me lembro que tive que ir à sua casa com minha mãe para pedir de volta a bolsa com os documentos que ela havia encontrado na feira. Essa não era louca mesmo, mas muito brava, pois brigava com todo mundo na rua.

Desses loucos, sei que já não existem mais, apenas recordações, umas tristes e outras alegres. Quando morava ainda em Campina Grande, fiquei sabendo que Roberto Carlos e o Coceira foram encontrados mortos, assassinados pelos marginais. Ah, e tem ainda Zé Doido, que, assim como os outros, não fazia mal a ninguém, apenas vivia passeando de ônibus pela cidade. Sua principal característica era segurar o rosto com as duas mãos, além de uma risada hilária e inconfundível.

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Educação a distancia é coisa séria

27.07.2009 por João Nunes da Silva

Educação a distância é coisa séria, muito séria, assim como todas as coisas que devem ser sérias. É incrível como ainda há pessoas que não têm a mínima noção do que seja de fato educação, e, muito menos, o que chamamos de educação a distância ou EAD. Refiro-me a estudantes e profissionais, incluindo gestores e educadores em geral que imaginam ser tão simples a realização de um curso superior a distância.Para que se tenha uma educação de qualidade é preciso considerar os aspectos diversos que favorecem o conhecimento e a capacidade crítica; isto se dá não só por meio de estudos, mas também com o apoio de profissionais e gestores comprometidos com a formação do cidadão de forma integral. Ou seja, não se trata apenas de um computador e de um conjunto de disciplinas para serem cumpridas.

A EAD precisa ser vista com o devido respeito por parte de alguns estudantes, professores, gestores, políticos e pela sociedade em geral. Sem isto, jamais teremos algum avanço no campo da educação. É claro que não estou esquecendo aqueles que sabem perfeitamente do que falo, pois há sim pessoas sérias, tanto estudantes, quanto professores e gestores; e é nesses que acredito; é preciso sim separar bem o joio do trigo.

A possibilidade de estudar a distância não é de hoje; se reparamos bem, uma simples leitura de um livro não deixa de ser uma forma de EAD; quando um livro é aberto, depois lido e estudado, tem-se ai uma conexão entre o pensamento do autor e o receptor e, por sua vez, uma ampliação do conhecimento, especialmente quando alguém lê e discute ou mesmo fala sobre o que leu para os seus colegas.

Agora, imagine com a facilidade com que as tecnologias nos permitem hoje, quando podemos combinar TV, internet, rádio, CDs, DVDs, além dos telefones celulares, entre outras mídias? É claro que podemos proporcionar um modelo de educação a contento para o crescimento dos indivíduos e das sociedades.

Tudo o que está ao nosso alcance para a realização da EAD poderia muito bem ser utilizado com o devido respeito e comprometimento com uma educação de qualidade. Não é muito difícil quando se tem uma percepção de uma educação para a emancipação intelectual e material das pessoas. Também não é tão complicado a ponto de se ignorar as exigências da sociedade quanto a uma formação profissional, mas, também, no que se refere às exigências legais para serem atendidos no sentido de espaço, material,acompanhamento, tecnologias e profissionais qualificados.

Em termos simples, me refiro à capacidade para atender um determinado contingente carente de formação especifica e geral, adequação as exigências do Ministério da Educação para a oferta de cursos a distância, capacidade tecnológica, recursos humanos e financeiros suficientes, e, principalmente, diálogo com os professores e alunos quanto aos percursos e entraves de forma transparente. Como diz um importante juiz de futebol, “a regra é clara”. Se no futebol é assim, na educação o cumprimento as regras também não é menos importante, muito pelo contrário.

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E o mundo não acabou

14.06.2009 por João Nunes da Silva

Quando menino acreditava em coisas do tipo estórias de Trancoso, personagens folclóricos, como a mula sem cabeça, o Saci Pererê, entre outros. Nesses últimos, incluo algumas coisas do tipo o fim do mundo, inclusive com data marcada e tudo. Isso me incomodava tanto que até chegava a não dormir, tamanha era a minha preocupação. Pois bem, veja que historia tenho para contar; é que lá em Campina grande, tinha uma seita conhecida como os “Borboletas Azuis”, nome esse que surgiu porque os seus fiéis se vestiam de azul e branco; usavam uma roupa, que nada mais era do que dois lençóis que cobriam o corpo, e se assemelhavam aquelas vestimentas do tempo de Jesus.

O fato mais interessante que sucedeu com esse grupo é que o líder desses religiosos afirmou ter recebido uma mensagem, diretamente de Nossa Senhora , isso mesmo, a mãe de Jesus, dizendo que o mundo ia se acabar, e que já tinha até mesmo o dia marcado para grande acontecimento, alem do que, seria com água; o dia seria 13 de maio de 1980.

Quando eu soube dessa história fiquei atônito, com mil perguntas que me surgiam e uma grande preocupação; é que era muito novo ainda e apesar de tudo, já sabia até o dia em que o mundo chegaria ao fim. Lembro que não tinha gozado praticamente nada na vida, até mesmo porque vivia trabalhando numa serigrafia; isso para ajudar a minha família.

A minha preocupação maior, é que não tinha televisão lá em casa; isso era uma coisa que me deixava inquieto, pois vivia na porta da casa de Dona Marlene ou na de Dona Dinda, somente para assistir os desenhos animados e os filmes de bang bang. Mas, saber que o mundo ia se acabar e não ter tido o prazer de ver uma TV em minha casa, era, sem dúvida, uma grande preocupação. Com essa história do fim do mundo, lembro ainda que algumas pessoas, embora não quisessem admitir, também ficaram com medo de morrer nesse dia, conforme profetizado por Roldão Mangueira, o líder do qual falei.

Outra história engraçada foi quando Roldão Mangueira, juntamente com alguns seguidores, dias antes do Juizo final profetizado, resolveu que iriam atravessar o Açude Velho, o maior açude da cidade; sim, mas era sem nada, somente por cima da água, conforme fez Jesus no dia da Tempestade que viveu com seus discípulos. Isso foi outra loucura que resultou em risadagem pela cidade. E, quanto ao Juízo final, sabe em que seu deu mesmo? Choveu um dia antes e outro depois do dia anunciado e nada do mundo se acabar. Finalmente pude ter uma TV em casa. Que maravilha!

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J. L. do Rego: Leitura indispensável

29.04.2009 por João Nunes da Silva

Ultimamente tenho me voltado, dentre outras coisas, para a leitura da obra de José Lins do Rego, escritor paraibano, de escrita primorosa e de grande fôlego. Deu-me uma vontade imensa, até mesmo inexplicável, de voltar a ler Menino de engenho, Fogo Morto, Água-mãe, entre outras obras desse escritor. Além dos meus compromissos, como preparar aula, produzir artigo científico, elaborar provas, não deixo, de forma alguma, de reservar um tempo para uma boa leitura, dessas que tiram a gente desse mundo, e que nos transporta para outros mundos, aqueles que não existem mais, mas que ficaram na memória e, por sua vez, nos torna mais humano. Melhor dizer que nos coloca rente ao chão, e nos faz perceber, ao mesmo tempo, a grandeza e a estupidez humana.

Reler José Lins do Rego é passar a limpo a nossa vida, é perceber que a vida é feita , acima de tudo, de gente, de homens, mulheres e crianças; de gente arrogante e de gente humilde, no sentido mais próprio da palavra, que não significa simplesmente falar bonito para encantar e esconder nosso orgulho e preconceito. A obra de Lins do Rego é dividida em três momentos, são eles: a) o ciclo da cana-de-açúcar, cujas obras que compõem essa fase são: Menino de engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), Usina (1936) e Fogo morto (1943); b) o ciclo do cangaço, cujas obras tratam do cangaço, do misticismo e da seca, são elas: Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953) e c) as obras independentes, que são: O moleque Ricardo (1934), Pureza (1937) , Riacho doce (1939). 

Qualquer pessoa, que queira saber sobre o Nordeste, especialmente sobre aspectos centrais destacados nas obras relacionadas ao ciclo da cana e ao cangaço, não pode deixar de ler os livros de Zé Lins do Rego. Esse autor deixou sua marca registrada pela grandeza de suas obras, sua sensibilidade em retratar os momentos centrais da vida rural, com ênfase para o apogeu e a decadência dos engenhos. Fogo morto é considerada sua obra prima, cujo tema central é o fim do engenho, que dá lugar a modernidade, instalada com as usinas.

Sem dúvida, José Lins do Rego, paraibano, nascido em Pilar, em 1901, e falecido em 1957, nos deixou o legado de compreender como se faz a vida, principalmente em meio às turbulências. Não é por acaso que o autor nos proporciona uma viagem à ludicidade do campo, aos conflitos de classe, a luta diária dos trabalhadores e as contradições entre riqueza e pobreza que caminham juntas o tempo todo.

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O menino Jota

23.04.2009 por João Nunes da Silva

O dia começava logo cedo para Jota, pois, todas as manhãs, mais ou menos às 3: 30, ele acordava, levantava-se de sua rede e se preparava para sair. Tomava cuidado para não incomodar seus irmãos, que dormiam ao lado, e seus pais. Ao todo eram oito irmãos, dos quais apenas Jota, Nito e Nina, trabalhava. Seu pai era encostado pelo INPS, hoje INSS. As madrugadas eram frias, o que dava uma vontade imensa de continuar na rede, encolhidinho e sob a proteção de uma colcha de retalhos de tecidos que sobravam das encomendas de sua mãe; a colcha fora  obra de sua mãe, que era costureira e, com esse oficio, criava sozinha os seus filhos, uma vez que o marido não era de muita serventia prá essas coisas de ajudar em casa.

Jota não esquecia de desarmar a rede e de dobrar  a colcha de retalhos. Após essa tarefa, procurava algo prá comer: um pão ou alguma bolacha e o café que sua mãe deixava na garrafa térmica. Quando saia de casa era em torno das quatro horas, mas ele fazia de tudo para não se atrasar muito, uma vez que não podia chegar muito tarde para pegar o jornal ao lado da antiga Rodoviária. Fazia todo o percurso até a distribuidora de Jornal a pé mesmo, pois não tinha ônibus a essa hora da madrugada. Era de admirar ver o menino de apenas 9 anos fazer tudo isso. Trabalhava como gente grande, embora recebesse quase nada pelo que fazia. Os outros meninos da sua idade não precisavam de nada disso; estavam, a essa hora, dormindo, no melhor dos sonos, enquanto esperavam a hora de ir prá escola. Mas Jota estudava também. Toda tarde esse era o seu compromisso, coisa que ele nunca deixou de fazer.

O trabalho de Jota era vender jornais no centro da cidade de Campina Grande, na Paraíba, o que ele fazia diariamente e, muitas vezes, não reclamava nem um pouco, muito embora ficasse triste em alguns momentos, especialmente quando não conseguia vender todo jornal que tinha; era cerca de 20 jornais, os quais ficavam debaixo do seu braço direito. Nessa época não tinha essa história de assinatura de jornal, por isso o menino Jota era um dos que vendiam jornais nas ruas da cidade.

 A rodoviária velha, a Rua Maciel Pinheiro, ou mesmo na frente do Hotel Ouro Branco, entre outros pontos eram os principais locais onde ele costumava ficar. Somente às onze horas é que ele podia prestar conta do que vendeu e, quando não conseguia vender todos, ficava triste, muito mais pelo fato de ter que suportar reclamações de Seu Pedro, o dono da distribuidora.  Aliás, tinha dia que não se vendia um sequer. Isso para Jota era o que mais o incomodava, além dos olhares de “pena” que faziam as pessoas com as quais encontrava na rua. Isso era triste, muito triste para o pequeno Jota, essa história das pessoas o terem como uma coisinha, um pobrezinho que nem tamanho tinha para segurar um Jornal, quisera para ser gente.

Certa manhã, quando voltava prá casa de ônibus, ele ficou preso na porta. Era daquelas portas que abria em duas e no meio tinha umas borrachas pretas, que abafavam o impacto da pancada quando fechava. Pois é, Jota ficou preso entre as duas partes e somente a sua cabeça ficou livre da pancada. Aquilo doeu tanto nele que se percebia lágrima descendo no canto de seus olhos. Doeu muito, principalmente na barriga e nas pernas, até que uma senhora que estava sentada perto gritou – motorista, o menino tá preso na porta, abra por favor. Enfim, o motorista, logo que percebeu, acionou o botão que ficava a sua esquerda e, finalmente, abriu a porta rapidamente. Nesse dia foi um sufoco para o menino, foi muito triste, mas triste mesmo era saber que as pessoas o olhavam com muita “pena”, com preconceito, como se fossem melhor do que aquele garoto, cuja preocupação era ajudar a mãe em casa. Felizmente que ele adorava estudar, o que nunca deixou.

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O problema na pesquisa

13.04.2009 por João Nunes da Silva

Em artigo anterior falei da necessidade de se fazer um projeto de pesquisa, caso o pesquisador pretenda alcançar seus objetivos científicos . Nesse caso, destaquei os itens centrais do projeto de pesquisa cientifica: problema, objetivos, justificativa, fundamentação teórica, metodologia, cronograma, orçamento e bibliografia. Pois bem, afirmei que sem problema não há pesquisa, uma vez que não se sabe o que de fato se quer pesquisar. Mas o que significa o problema, ou a problematização?  Por que é tão importante o problema? Como sabemos qual o problema da pesquisa.Em linguagem simples e direta, podemos considerar que o problema significa a pergunta central; isto é, aquela questão que orienta todo o processo da pesquisa, desde a elaboração do projeto até a coleta de dados, a análise e interpretação. Pensar num problema não significa necessariamente que você tem que encontrar um problema na comunidade ou grupo que pretende estudar. Trata-se de pensar no problema da pesquisa, ou seja, no fato gerador da pesquisa, pois, sem a pergunta central, não há a menor possibilidade de realização de uma pesquisa científica.

Considere o seguinte exemplo: digamos que você quer estudar sobre o trânsito em Palmas e define como questão central saber quais as causas de tanto acidente de trânsito na mais nova capital. A pergunta que vai orientar toda a pesquisa será, portanto: quais as causas de tanto acidente de trânsito em Palmas? Veja que é uma pergunta geradora, ou seja, o pesquisador parte da necessidade de saber o que leva a tantos acidentes de trânsito na mais nova capital. Quando digo que trata-se de uma pergunta geradora, é porque se parte de um fato, como acidentes de trânsito, para, em seguida, traçar os objetivos, as considerações sobre o problema: contextualização, índices de acidentes, principais discussões em torno do assunto.

Veja, portanto, que não me referi ao problema dos acidentes de transito, pois, evidentemente que isso é um dos grandes problemas da nossa cidade, mas sim, me referi ao problema-questão, ou seja, a pesquisa parte do problema destacado em forma de questão. Se você quisesse saber o que dizem os estudiosos sobre o problema do trânsito em Palmas, por exemplo, observe que o problema cientifico é a pergunta geradora, todavia, não significa que seja um problema se ter estudiosos sobre o trânsito; percebeu então  a diferença entre problema científico e problema real?  Por isso que afirmei anteriormente que um problema de pesquisa não significa necessariamente um problema numa comunidade ou num grupo a ser estudado. O importante é elaborar uma pergunta central, a qual pode partir de um fato concreto, como no caso de acidentes de trânsito, ou pode ser uma questão teórica, a partir de algum dado ou elemento que permita uma problematização. Por exemplo, pode-se partir de estudos sobre algum assunto, das idéias ou teorias, de forma que se tenha claro o que se pretende estudar.

Num projeto de iniciação científica geralmente se pede, no problema, que aponte apenas a pergunta central. Mas, em projetos para estudos mais aprofundados, como para mestrados e doutorados, há a necessidade de se estabelecer uma discussão ou contextualização do que se pretende estudar. Dessa forma, a pergunta, muitas vezes, está implícita na discussão, de forma que se percebe claramente o que se pretende pesquisar; o que não significa ser prolixo ou “enrolação”. Falarei ainda sobre os demais itens do projeto de pesquisa.  

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Pesquisa científica: desafios e responsabilidades

20.03.2009 por João Nunes da Silva

A pesquisa é uma condição indispensável para o crescimento intelectual do ser humano e para as universidades, ou mesmo para as escolas. Pensar em pesquisa é, primeiramente ter em conta a necessidade de descobrir o que pode explicar as causas de determinados fenômenos. É também ter coragem de se debruçar sobre uma infinidade de obras, as quais possam auxiliar no estudo do objeto escolhido para alcançar os objetivos definidos para a realização da pesquisa.

A pesquisa deve começar desde a escola e não parar enquanto se tem algo para descobrir. Na Universidade, por exemplo, a pesquisa é a condição para o seu desenvolvimento e para a sua contribuição na resolução dos problemas vivenciados pelos indivíduos, grupos e instituições sociais. Não se pode pensar numa Universidade sem pesquisa; é como se negasse a necessidade de água e de oxigênio para a vida.Isso parece estranho, mas é a pura realidade, tendo em vista que é por meio das pesquisas que a humanidade aos poucos segue o seu processo evolutivo, pelo menos do ponto de vista material e tecnológico. Digo isto pelo fato de que a ciência, por natureza é positivista, tende a tornar o ser humano em mero objeto para estudos e para a manipulação em prol de interesses vinculados a racionalidade industrial e aos interesses dos grandes grupos econômicos em detrimento das necessidades humanas na sua forma mais ampla.

Investir em pesquisa significa, também, que demanda recursos humanos, materiais e financeiros, além, evidentemente, de questões ideológicas, políticas e culturais, as quais, muitas vezes, impõem determinadas condições para a realização das pesquisas cientificas de interesse das populações. É nesse ponto que as pesquisas, que necessárias e urgentes para a sociedade e para as pessoas em geral, que é preciso pensar seriamente quando se pretende realizá-las  de forma científica. Dessa forma, é fundamental que o estudante e o professor, no caso, os pesquisadores, tenham a clareza da responsabilidade que assumem perante a sociedade e perante os diversos segmentos sociais, políticos e econômicos.Não se deve pensar em pesquisa como uma simples tarefa, como se não demandasse nenhuma necessidade de conhecimentos básicos e teóricos, além da necessidade de coleta de dados e da análise e interpretação do que conseguiu coletar. É por tais necessidades que surgiu o projeto de pesquisa científica, o qual consiste no detalhamento de todos os passos a serem dados desde a definição do objeto de estudo, a disposição em fazer o levantamento bibliográfico e a contextualização e fundamentação teórica do objeto, a problematização, justificativa, metodologia, cronograma, orçamento e as referencias bibliográficas.

 O projeto de pesquisa cientifica se refere ao planejamento de todas as ações a serem desenvolvidas para a execução da pesquisa. É por meio desse instrumento que o pesquisador pode ter uma maior garantia do que precisa fazer e dos desafios e perspectivas que vai encontrar em todo o percurso da pesquisa. Cada item do projeto deve estar perfeitamente sintonizado com o objeto, objetivos e o problema da pesquisa. O problema, significa a questão fundamental que vai orientar toda a pesquisa; sem problema não há projeto e, conseqüentemente, não há pesquisa. Em suma, pesquisar é buscar, de forma sistemática, respostas para um problema. Em outra oportunidade trataremos mais desse assunto.

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