olhar crítico
Esse é um espaço para criticas, discussões e reflexões sobre temas variados.Participe você também.

O menino Jota

23.04.2009 por João Nunes da Silva

O dia começava logo cedo para Jota, pois, todas as manhãs, mais ou menos às 3: 30, ele acordava, levantava-se de sua rede e se preparava para sair. Tomava cuidado para não incomodar seus irmãos, que dormiam ao lado, e seus pais. Ao todo eram oito irmãos, dos quais apenas Jota, Nito e Nina, trabalhava. Seu pai era encostado pelo INPS, hoje INSS. As madrugadas eram frias, o que dava uma vontade imensa de continuar na rede, encolhidinho e sob a proteção de uma colcha de retalhos de tecidos que sobravam das encomendas de sua mãe; a colcha fora  obra de sua mãe, que era costureira e, com esse oficio, criava sozinha os seus filhos, uma vez que o marido não era de muita serventia prá essas coisas de ajudar em casa.

Jota não esquecia de desarmar a rede e de dobrar  a colcha de retalhos. Após essa tarefa, procurava algo prá comer: um pão ou alguma bolacha e o café que sua mãe deixava na garrafa térmica. Quando saia de casa era em torno das quatro horas, mas ele fazia de tudo para não se atrasar muito, uma vez que não podia chegar muito tarde para pegar o jornal ao lado da antiga Rodoviária. Fazia todo o percurso até a distribuidora de Jornal a pé mesmo, pois não tinha ônibus a essa hora da madrugada. Era de admirar ver o menino de apenas 9 anos fazer tudo isso. Trabalhava como gente grande, embora recebesse quase nada pelo que fazia. Os outros meninos da sua idade não precisavam de nada disso; estavam, a essa hora, dormindo, no melhor dos sonos, enquanto esperavam a hora de ir prá escola. Mas Jota estudava também. Toda tarde esse era o seu compromisso, coisa que ele nunca deixou de fazer.

O trabalho de Jota era vender jornais no centro da cidade de Campina Grande, na Paraíba, o que ele fazia diariamente e, muitas vezes, não reclamava nem um pouco, muito embora ficasse triste em alguns momentos, especialmente quando não conseguia vender todo jornal que tinha; era cerca de 20 jornais, os quais ficavam debaixo do seu braço direito. Nessa época não tinha essa história de assinatura de jornal, por isso o menino Jota era um dos que vendiam jornais nas ruas da cidade.

 A rodoviária velha, a Rua Maciel Pinheiro, ou mesmo na frente do Hotel Ouro Branco, entre outros pontos eram os principais locais onde ele costumava ficar. Somente às onze horas é que ele podia prestar conta do que vendeu e, quando não conseguia vender todos, ficava triste, muito mais pelo fato de ter que suportar reclamações de Seu Pedro, o dono da distribuidora.  Aliás, tinha dia que não se vendia um sequer. Isso para Jota era o que mais o incomodava, além dos olhares de “pena” que faziam as pessoas com as quais encontrava na rua. Isso era triste, muito triste para o pequeno Jota, essa história das pessoas o terem como uma coisinha, um pobrezinho que nem tamanho tinha para segurar um Jornal, quisera para ser gente.

Certa manhã, quando voltava prá casa de ônibus, ele ficou preso na porta. Era daquelas portas que abria em duas e no meio tinha umas borrachas pretas, que abafavam o impacto da pancada quando fechava. Pois é, Jota ficou preso entre as duas partes e somente a sua cabeça ficou livre da pancada. Aquilo doeu tanto nele que se percebia lágrima descendo no canto de seus olhos. Doeu muito, principalmente na barriga e nas pernas, até que uma senhora que estava sentada perto gritou – motorista, o menino tá preso na porta, abra por favor. Enfim, o motorista, logo que percebeu, acionou o botão que ficava a sua esquerda e, finalmente, abriu a porta rapidamente. Nesse dia foi um sufoco para o menino, foi muito triste, mas triste mesmo era saber que as pessoas o olhavam com muita “pena”, com preconceito, como se fossem melhor do que aquele garoto, cuja preocupação era ajudar a mãe em casa. Felizmente que ele adorava estudar, o que nunca deixou.

Em Crônicas, Geral

Comente!

 
112620 pages viewed, 278 today
58572 visits, 158 today
hamilelik