O(s) fim(ns) da História

Até porque a História já está em outro lugar…

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Mudamos!!!

O(s) Fim(ns) da História agora em casa própria, administrado por um sistema WordPress instalado localmente, tornando o site mais fácil de administrar e de personalizar.

A todos um grande abraço!

Enquanto isso

O(s) Fim(ns) da História não está parado… Estou preparando novas postagens. Mas o que está rolando?

Alimentar o blog nem sempre é fácil. Mas estou escrevendo algumas coisas. Deixei um post em meu blog mais pessoal, o Caderno de Notas, sobre o que está em preparação. Aguardem!

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Nova seção: WORK IN PROGRESS

Work in Progress tanto pode significar um trabalho que é feito continuamente por um indivíduo ou um conjunto; uma obra de arte que, a cada momento, sofre alguma alteração que a faz ganhar novos sentidos, mantendo-se sempre em constante alteração, inteligível mas sem presentanr uma forma definitiva - como uma peça de teatro que, a cada montagem, muda ganhando novas cenas ou suprimindo outras.

Chamo de work in progress esta seção do blog porque ela surgiu de forma não prevista. Não achava que meus colegas e amigos enviariam textos para publicação, como forma de contribuição a este espaço. Foi muito mais do que eu poderia supor. De forma que este blog transformou-se, muito mais  pela contribuição dos leitores do que pelas minhas postagens, em um verdadeiro trabalho de colaboração. Isso me anima, também, a mostrar um pouco daquilo que ficou guardado em minhas gavetas nos últimos anos…

A partir de agora passo a publicar textos e artigos de colegas e amigos ligados às ciências humanas que, voluntariamente, trouxeram sua contribuição a este O(s) Fim(ns) da História, na forma de textos opinativos, trabalhos finais ou cópias de artigos. Optei por abrir uma nova página para que os textos dos colaboradores não fiquem perdidos em meio às postagens, facilitando, assim, o acesso dos leitores aos artigos.

Iniciamos com publicação do artigo de Anna Maria Alves Linhares que, com sua contribuição, acabou sendo a responsável direta pela existência desta página. Obrigado, Anna, valeu!

Com certeza, teremos boas leituras daqui para frente. Abraços a todos.

Agradecimentos…

À Anna Maria Linhares e ao Márcio Couto Henrique, pela visita ao Blog, pelas palavras de incentivo e pelo trabalho que ambos vem desenvolvendo, contribuindo com a Antropologia e com a conservação dos patrimônios históricos na Amazônia.

Nem sempre é fácil ficar na frente do computador até de madrugada, escrevendo pela necessidade de escrever. Também é difícil escrever assim, tentando, mais do que pensar sobre a História, pensar com a História. Os riscos são enormes, a chance de falar tremendas bobagens também,  mas tenta-se não ter uma alma pequena…

Espero agora pelo novo Boletim do Museu - Arquivo Histórico da Santa Casa, bem como pelos seus novos trabalhos. Abraços a vocês e os meus mais sinceros agradecimentos!

Diogo Mainardi e um novo esporte: saltos antropológicos ornamentais

Atualizado em (03/09/2008)

Na última revista Veja (edição 2075, ano 41, nº 34, 27 de agosto de 2008) Diogo Mainardi traçou uma análise dos problemas sociais brasileiros estabelecendo uma analogia entre o fracasso de nossos atletas e o de nossa educação. Operação arriscada essa de associar a “poltronice dos brasileiros em geral” à “poltronice de nossos atletas”, de tentar entender a relação entre “o fracasso de nossos esportistas” com “o nosso fracasso como país”… E o próprio autor sabia dos riscos:

É o que analisarei a partir de agora, postado a frente do computador, com minha malha elástica dégradeé, dando uma rápida pirueta antropológica, seguida de dois parafusos sociológicos e meia dúzia de cambalhotas etnológicas, com grande probabilidade de repetir o feito de Diego Hypólito e aterrissar bisonhamente com o traseiro no tablado.

Ninguém pode deixar de dizer que Diogo Mainardi é previdente, mas sinto que ele errou ao escolher fazer suas acrobacias em um tablado… Antes de vestir uma malha elástica “dégradeé”, Mainardi deveria ter usado uma sunga, pois seus os saltos, suas piruetas e seus parafusos são antes mais próximos dos saltos ornamentais do que da ginástica de solo, pois é a isso que se resume seu texto: muito ornamento, piruetas para encantar o leitor incauto, e praticamente nada em termos de validade de análise.

Em primeiro lugar essa analogia entre o fracasso de Diego Hypólito e o fracasso brasileiro é uma falácia. O tombo de Diego Hypólito nada mais é do que um tombo, uma queda, um despiste, um salto mal-calculado. Nada mais. Não há nenhuma “razão profunda”, nenhum “caráter nacional”, nenhum elemento étnico, nada, nada, nada. Há apenas um tombo – e uma ridícula “forçada de barra” de Diogo Mainardi. Se isso fosse verdade, como interpretar a queda da ginasta Fei Cheng, franca favorita à medalha de ouro? Uma alegoria da fragilidade do crescimento chinês? E o que diríamos do corredor Liu Xiang – grande herói esportivo do país – que sequer consegui largar para os 110 metros com barreiras? Deveríamos ver esse fracasso como uma expressão da politica chinesa, criadora de um grande desenvolvimento econômico, mas comprometido pela falta de liberdade, inclusive de imprensa? A derrota do time feminino de voleibol dos EUA é o sintoma da decadência do império americano? E a vitória do time masculino dos EUA no volei, é sinal da renovação política representada por Barack Obama? Francamente há que se ter muita imaginação e um péssimo conhecimento de esporte para se fazer analogias como as perpetradas por Diogo Mainardi.

No máximo, poder-se-ia criticar o COB e os atletas e seus técnicos pelo pouco preparo psicológico. Mas isto é questão de preparação, não de “temperamento de rebanho”, como nosso jornalista procura inferir.

Sobra, então, o argumento segundo o qual seria esse “temperamento de rebanho” dos brasileiros, educados por uma escola lamentável a viver em uma sociedade autoritária, baseada na “repulsa por idéias discordandes”, pelo conchavo e pelo “parasitismo estatal”. Mainardi cita a reportagem da revista Veja, de 20/08/2008, que indica que, apesar dos índices horríveis de nossos estudantes em testes internacionais de aproveitamento escolar, tanto os pais, os alunos quanto os professores aprovam o modelo escolar existente.

Vejamos, mais uma vez, o que diz Diogo Mainardi:

O Brasil fracassa no esporte pelo mesmo motivo porque fracassa como país: temos uma sociedade acovardada, fujona, avessa à luta. Tudo aqui é feito para desestimular a disputa, para reprimir o desafio pessoal, para amolecer o caráter. (…) Esse nosso espírito de rebanho inibe qualquer forma de atrito, qualquer tipo de inconformismo, qualquer espécie de enfrentamento. Quando temos de competir, afinamos. (…)

Legal! Tantas piruetas antropológicas, tantos malabarismos verbais, para chegarmos a um sociologismo a lá Paulo Prado (aliás citado por Mainardi em outros artigos seus)? Tudo isso para reduzir o problema ao “caráter nacional” submisso, autoritário, anti-liberal brasileiro? O fracasso do atleta é o fracasso de nossa educação, que não produz pessoas de fibra, capazes de concorrer no mundo contemporâneo? Por que tantos saltos de pensamento, porque tantas firulas se a resposta da “antropologia” e da “sociologia” de Diogo Mainardi já têm as respostas – a causa do fracasso do país somos nós mesmos?

Diogo Mainardi é interessante quando faz um trabalho de “detetive”, buscando conexões entre figuras do governo e negócios escusos. Também é um excelente tradutor, e devemos à ele a tradução de As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino. No entanto, sua “ciência social” não passa de uma atualização de autores como Paulo Prado - ele próprio muito ruim como analista da sociedade brasileiro, já que a reduzia a uma mistura muito de raças muito mal caldeada, o que redundaria, em sua opinião, em uma sociedade de cidadãos preguiçosos, francamente anti-liberal e incapaz de um progresso decente – ou, no máximo, um Euclides da Cunha com o mesmo pessimismo, com a mesma crença em uma sociedade atavicamente atrasada, anti-liberal e anti-progressista, mas sem o racismo desses autores aqui aludidos. Diogo Mainardi não diz a razão de nosso temperamento de rebanho. Não precisa: como todo temperamento, ele é inato. Não temos defesa nem alternativa quando, historicamente, somos dotados de uma essência tão ruim. Nossa condenação já está dada de antemão.

E já que está tudo decidido, já que eu, como brasileiro, já estou explicado, posso me dar ao luxo de parar de ler as interpretações antropológicas de Diogo Mainardi…

Dois museus paraenses e suas experiências com pesquisa e educação

A sala de aula pode muito bem ser encarada como um laboratório no qual é possível trabalhar conceitos básicos sobre História, bem como ensinar, orientar e discutir esses conceitos com os alunos. Mas o alcance de um curso de História e da própria educação em História é muito maior, e abrange todo um universo situado fora das salas de aula. ,

A sala de aula deve ser valorizada sim, mas as escolas possuem suas extensões, e os museus são uma delas.

Há muito os museus vêm deixando de ser apenas espaços de “depósito de relíquias” para se tornarem locais de discussão da guarda e da construção da memória social, com seus amplos significados. Além de constituírem seus próprios setores de educação, os museus constituem um campo riquíssimo para o estudo da história, em níveis regionais, nacionais e internacionais, e é importantíssimo que conheçamos a produção científica existente atualmente sobre a importância dos museus.

Dois queridos amigos escreveram artigos refletindo sobre suas experiências de trabalho nos museus da cidade de Belém, aqui no Pará. São dois textos muito bons, publicados na Revista Museu, que merecem circular e ganhar uma alcance maior. Esse E este blog dá aqui uma pequena contribuição para que esses textos circulem, bem como para que o os Museus paraenses e seus acervos sejam melhor conhecidos. Uma primeira experiência muito interessante realiza-se no Museu do Marajó, localizado na cidade de Cachoeira do Arari, no arquipélago do Marajó. O museu conta com um importante acervo arqueológico sobre a cerâmica marajoara, além de sua forte ligação com a comunidade. Sobre este museu, o artigo de Anna Maria Alves Linhares, O museu de curiosidades interativas da região Amazônica, apresenta a história do Museu, realizado a partir do esforço de seu criador, o padre Giovanni Gallo. O artigo destaca a interatividade entre o museu e seus visitantes e toda a importância cultural que este lugar assumiu na cultura paraense.

Já meu caro Márcio Couto Henrique vem fazendo um belo trabalho desde que assumiu o cargo de historiador do Museu da Santa Casa de Misericórdia de Belém - infelizmente lembrada, com razão, pelas recentes mortes dos bebês em seu berçário… De qualquer forma, em seu ainda curto período de trabalho, o Márcio já reativou o Boletim do Museu e Arquivo Histórico da Santa Casa (que estava fora de circulação desde 1995) e escreveu um belo artigo sobre o Museu da Santa Casa. Trata-se de uma etnografia do Museu da Santa Casa, na qual destaca as relações que existem entre os visitantes e o lugar, bem como todo um imaginário existente em torno do museu e sua importância enquanto espaço de educação patrimonial.

Clique aqui para realizar o downloada do Boletim do Museu Arquivoa Histórico da Santa Casa de Belém do Pará

Pensar e ensinar a História sem apelar para o “fim da História”… Alguém se habilita?

Não é tão difícil argumentar contra a idéia de um fim da História. Pode-se argumentar contra esta idéia de várias formas: apelar para os “fatos”, e transformar situações horripilantes como os atentados de 11 de setembro em uma “prova” da continuidade da História, na medida em que os ataques terroristas seriam (?) um indício de existência de antagonismos políticos, culturais e culturais ainda em choque, poderosos o suficiente para mostrar que nada sobre o futuro do mundo está decidido. Pode-se, também, recorrer a argumentos ideológicos; por exemplo: argumentar que a idéia de um fim da história é uma visão claramente de direita e pró-americana, criada por um professor da Universidade John Hopkins (ou será um agente da CIA, ou ainda do Pentágono?) e totalmente interessado em defender o “imperialismo” americano e a ideologia neo-liberal. É uma argumentação frágil e cheia de clichês, mas suficiente para convencer qualquer um que esteja filiado ao PSTU, ao PC do B ou que orbite nessa galáxia ideológica. Por fim, pode-se invocar a própria história: Cromwell, a fase do Terror revolucionário francês; Lenin, Stálin, os Nazis, Pol-Pot, Mao Tsé-Tung… A galeria de personagens que tentaram conformar seus países e povos a um mundo ideal, a uma “realidade perfeita” resultou em desastres mais do que reconhecidos.

As formas de contestação da idéia de um “fim da história”, sejam elas mais sofisticadas ou ideologicamente toscas, já são bem conhecidas e circulam bastante, até no senso comum. No entanto penso que isto não significa que tenhamos abandonado completamente uma concepção teleológica de história? Não me parece que nós tenhamos conseguido isso. Eu ficaria MUITO feliz se isso tivesse acontecido, mas não creio que o pretenso fim da história tenha banido tudo o que uma teleologia histórica trás consigo.

Estamos preparados para pensar a História sem uma teleologia, ou seja: estamos prontos para pensar um processo histórico sem que ele esteja atrelado necessariamente a um ponto final, a uma chegada, a uma meta a ser atingida, a um sentido a ser seguido?

Logo de início podemos perceber um grande paradoxo: a propaganda neo-liberal decretou, nos anos 1990 e 2000, o “fim das ideologias”, o “fim da história”, “o fim do comunismo”, o “fim das utopias”… No entanto, os próprios neo-liberais, historicamente, estão metido até o pescoço no buraco que aparentemente renegam: para decretar o fim da história, se colocaram eles próprios como o ponto final - ou seja, insidiosamente repuseram aquele aspecto que tanto criticaram nos comunistas: a existência de um sentido único para a história, de uma meta final para todo o processo histórico; para decretarem o fim das ideologias, precisam identificar a lógica de mercado completamente com o Real (o que é impossível!!!), o que, pela redução que isto implica, por si só se constitui em um artifício totalmente ideológico; decretaram o fim das utopias, mas a própria idéia de um futuro governado perenemente pelo livre mercado, pela livre concorrência, pela técnica como solução para todos os problemas que venham a aparecer, pela ilimitado crescimento econômico, tudo isso só pode ser concebido e sustentado se se crê, firmemente, que se chegou a um lugar nunca antes ocupado pelo Homem, a uma situação ideal, a um melhor dos mundos possíveis… Ou que se ainda não chegou lá, mas estamos em via de consegui-lo, desde que se façam reformas culturais em populações inteiras, modificações ambientais de alcance gigantesco, e mais alguns ajustes pelas armas, se necessário. Mas tudo isto não é,ainda, perseguir uma utopia?

Um dos nossos principais desafios com historiadores-professores consiste em pensar a pesquisa e o ensino de história sem cair nas armadilhas das filosofias da história. As conseqüências disto são sérias, uma vez que isto implica na renúncia tanto da arrogância dos neo-liberais e de seu autoproclamado fim da história, que concebem o ensino como um território puramente técnico e estratégico do ponto de vista da produção, submetendo os questionamentos quanto à currículos escolares, posturas dos professores, reprovações e insucessos escolares e debates sobre qualidade escolar à uma pura lógica de prestação de serviço (concorrência = cliente satisfeito com maiores opções de consumo de bens e serviços educacionais); mas implica, igualmente, no abandono completo do marxismo e de seus subprodutos: a tentativa de produção de uma sociedade absolutamente disciplinar, como forma de concretização de uma utopia de sociedade ideal, realizada, quase sempre, por meio da violência física e simbólica; o messianismo implícito em um fim da História através da via revolucionária; a incapacidade de convivência com a democracia; a incapacidade de lidar com a pluralidade.

Mas estamos prontos para isso? Senão vejamos: abandonar a idéia de um “fim da história” significa, de imediato, a descrença em qualquer concepção de progresso histórico como guia imanente de toda a humanidade. Da mesma forma, isto implica no mais profundo ceticismo em relação à idéia de que existem “estágios” a serem cumpridos pelas diferentes populações do planeta, rumo a algum fim - capitalismo liberal democrático, socialismo, comunismo etc., etc. Ou seja: por esta perspectiva, devemos aceitar o fato de que não há um sentido para a evolução humana, mas múltiplas formas de culturas humanas que existem no tempo, e que por uma série de fatores históricos, deixam de existir de uma determinada forma, em dado momento, se transformando em outra. Não falamos mais em um processo único e inelutável, válido para toda a humanidade, mas em vários povos, com vários processos históricos e várias memórias sociais coexistindo, se interpenetrando, se influenciando, constituindo suas próprias temporalidades e seus próprios, devires.

O abandono de uma teleologia histórica significa também o reconhecimento da necessidade imediata de se conceber a história como um saber experimental, capaz de propor questões e elaborar respostas possíveis para elas, bem como estabelecer diretrizes para ações que sejam conseqüentes e radicalmente compromissadas com a democracia.

Tomemos, por exemplo, um problema bastante polêmico: ensinar sobre a história dos índios no Brasil e sobre todos os conflitos políticos e culturais que envolvem os povos indígenas. Como contar essa história em sala de aula? Vamos manter o discurso da vitimização dos povos indígenas - o índio massacrado, o índio aculturado, o índio que sempre foi vítima passiva dos colonizadores? (aliás: existe “o” índio? Ou os índios?) Ou vamos nos preparar para contarmos outra história, mais difícil de ser explicada: que a história da destruição das populações indígenas é também a história da apropriação das terras no Brasil? Ques as populações indígenas não foram apenas sujeitos passivos e vitimizados, mas que souberam, em vários momentos da história do Brasil, guerrear, formar alianças, desenvolver estratégias de resistência (por vezes violenta) aos colonizadores, mas também de negociação para com estes? Aliás, que tipo de história os próprios povos indígenas construíram? E como uma cultura “branca”, ela mesma miscigenada (aliás como qualquer cultura!) transacionou com as diversas culturas indígenas? Por fim, o que os povos indígenas estão fazendo de seu próprio destino? Quais as experiências sociais, econômicas, culturais que eles estão gestando? Como o estado brasileiro se relaciona com elas? E que novos conflitos ainda não foram resolvidos, ou mesmo estão sendo gestados?

Propor essas perguntas e pensar em respostas para elas pressupõe não responder com ideologia, mas com leitura, estudo, pesquisa, abandono de idéias feitas. No entanto, tentar entendê-las, buscar respostas e mesmo não se satisfazer com elas é infinitamente mais importante e conseqüente, para nós e para os nossos alunos, do que simplesmente tagarelar sobre a crença segundo a qual o desaparecimento dos povos indígenas é conseqüência “lógica” de um “progresso” histórico - crença que nada mais é do que uma receita para um genocídio, - ou manter um discurso militante sobre a vitimização indígena, o que revela, na verdade, ignorância, falta de capacidade de pensar e principalmente autoritarismo, na medida em que relegar um indivíduo ou grupo ao eterno papel de vítima equivale a reconhecer que estes não são capazes de agir, pensar e propor alternativas para a sua condição, por conta própria.

No exemplo dado, claro, não temos nenhuma resposta pronta para oferecer. Óbvio que os professores precisam pensar a melhora abordagem, do ponto de vista dos materiais didáticos e da forma de abordar o tema, considerando as devidas séries e faixar etárias dos alunos. Logo, impõe-se a necessidade de se buscar textos, leituras, informações sobre experiências realizadas com outros povos e países. Envolve trabalho, escrita, leitura. E aí está, creio, o aspecto mais importante do abandono da idéia de “fim da história”: na medida em que não temos mais a certeza e a obrigação de dirigir o futuro a um fim abstrato, utópico, somos obrigados a pensar - algo difícil, lento, doloroso por vezes, e que pressupõe disciplina, ciência, rigor, liberdade. Algo que nossas agendas, à esquerda ou à direita, não nos têm propiciado.

Por fim, creio que o abandono da idéia de “fim da história” nos possibilita rever a relação entre a construção do conhecimento histórico e a produção da democracia no Brasil. Isto porque a diversidade de conflitos existentes na sociedade brasileira, suas desigualdades econômicas, políticas, culturais, educacionais (sem contar a profunda ignorância que, em geral, constata-se em cada uma das regiões brasileiras, em relação às outras, o que é dramático para áreas como a Amazônia), mas também suas potencialidades, singularidades exige o reconhecimento da diversidade de composição populacional, variações culturais e processos econômicos diferenciados existentes no país. A própria história brasileira ainda não ganhou seus devidos estudos comparativos, e ainda estamos criando um grande inventário histórico de nossos conflitos, de nossos problemas não resolvidos.

Diante desse quadro de problemas, rigorosamente nenhum deles, da questão indígena à complexidade política dos problemas agrários, da irresolução de projetos econômicos na Amazônia à violência das grandes cidades, podem ser resolvidos com fórmulas pré-concebidas fundamentadas na pretensa necessidade de se atingir “níveis de civilidade” ainda não conquistados, ou na quimérica “redenção” de todos os explorados pela via revolucionária - até porque nada irá redimir os escravos negros ou indígenas que aqui morreram, as vítimas da violência no campo ou nas cidades; não vamos trazê-los de volta, e para seus descendentes, será muito melhor pensar em termos de justiça do que de redenção.

Estamos prontos para pararmos de ensinar nossos alunos sobre o que a história deveria ser e para onde ela deveria ir? Estamos prontos para pararmos de renunciar ao nosso próprio tempo?

Em construção

O(s) Fim(ns) da História está em organização. Diferente de outros projetos anteriores, optou-se neste por fazer algo de maior consistência, logo demandando maior cuidado na organização do blog. Então, aguarde(m) mais um pouco, para que as postagens e o espaço possam crescer não só em quantidade, mas em qualidade.

Abraços,

Renato