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Primeiras Estórias -

 O  autor

João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Minas Gerais. Enquanto trabalhava como médico no interior, registrava o que ouvia e via: expressões, anedotas, versos, tipos humanos. Essas anotações foram amplamente usadas em sua obra.  

A obra  -        Publicado em 1962, seis anos depois do romance Grande sertão: veredas, Primeiras estórias consta de 21 contos.  

Linguagem - Destaque da literatura de Rosa, a linguagem é marcada por forte originalidade. Alia a informalidade da linguagem coloquial à complexidade da linguagem poética. O tom é variado: ora sério (lírico ou dramático), ora cômico.  

Temas - Sentido oculto da existência, crescimento espiritual por meio de experiências amorosas, vida como aprendizado, sensibilidade extraordinária manifestando-se pela loucura e pela ingenuidade infantil, vida como predestinação, limites entre bem e mal.

Obra publicada em 1962, reúne 21 contos. Trata-se do primeiro conjunto de histórias compactas a seguir a linha do conto tradicional, daí o “Primeiras” do título. O escritos acrescenta, logo após, o termo estória, tomando-o emprestado do inglês, em oposição ao termo História, designando algo mais próximo da invenção, ficção.

No volume, aborda as diferentes faces do gênero: a psicológica, a fantástica, a autobiográfica, a anedótica, a satírica, vasadas em diferentes tons: o cômico, o trágico, o patético, o lírico, o sarcástico, o erudito, o popular. As estórias captam episódios aparentemente banais. As ocorrências farejadas através dos protagonistas transformam-se de uma espécie de milagre que surge do nada, do que não se vê, como diz o próprio Guimarães Rosa; “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. Este milagre pode ser então, responsável pela poesia extraída dos fatos mais corriqueiros, pela beleza de pensar no cotidiano e não apenas vivê-lo, pelo amor que se pode ter pelas coisas da terra, pelo homem simples, pelo mistério da vida. Dos “causos” narrados brotam encanto e magia frutos da sensibilidade de um poeta deslumbrado com a paisagem natural e/ou recriada de Minas Gerais.Em Primeiras Estórias, parece haver “leis” desconhecidas que regem as vidas das personagens, pressupõe-se um “mundo paralelo”, metafísico, que influencia a conduta humana. O contato com essas “forças invisíveis” depende de uma sensibilidade aguçada. Por isso muitas das personagens dos contos de Guimarães Rosa são estranhas. “Loucos” (como Darandina ou Tarantão), crianças extremamente sensíveis (como o Menino, de “As Margens da Alegria”, ou Brejeirinha, de “A Partida do Audaz Navegante”), apaixonados (como Sionésio, de “Substância”), todos representam seres especiais, que parecem viver em outra dimensão, demonstrando uma sabedoria inata, intuitiva. São, enfim, seres iluminados.Essa iluminação relaciona-se à teoria platônica da reminiscência. A alma, sendo imortal, teria vivido em contato com o mundo Ideal, o plano da Perfeição. Ao encarnar, a alma guardaria lembranças difusas, inconscientes, desse mundo “bom, belo e verdadeiro”, para o qual deseja profundamente retornar. Algumas experiências no plano terreno teriam o poder de despertar na alma o gosto da Perfeição, possibilitando uma “redescoberta” de uma alegria até então adormecida.
Esses momentos de epifania, reveladores de uma Verdade oculta, transformam a vida das personagens. Nesse sentido, o encontro com o belo, o desejo de livrar-se do peso da matéria, o sentimento amoroso são situações de aprendizado: libertam a alma das impurezas da vida e levam o ser humano a uma condição “superior”, mesmo que não tenha plena consciência disso. Como se diz em “Nenhum, Nenhuma”, “a gente cresce sempre, sem saber para onde”.
Primeiras estórias - João Guimarães Rosa

´Causos’ que trazem o encanto e a magia           

De acordo com o próprio autor, em Primeiras Estórias (1962) há a intenção de apresentar fábulas para as crianças do futuro. Seus 21 contos, portanto, são narrativas preocupadas em tematizar, simbolicamente, os segredos da existência humana. Para tanto, utilizará sempre personagens que estão à margem da sociedade, as mais preparadas para transcender a realidade (fato proibido em Vidas Secas, como se pode perceber no capítulo “O Menino Mais Velho”). Todas se encaminharão para um momento de epifania (grande revelação), na maioria das vezes intuído, em que excederão sua própria condição. São, portanto, histórias de excessos.

 AS MARGENS DA ALEGRIA

            Esse primeiro conto é considerado, como o último, a moldura do livro, já que apresenta as mesmas personagens no mesmo ambiente. O protagonista, o menino, faz uma viagem de avião até a casa do Tio (a maiúscula alegorizante – Mãe, Pai, Tio, Tia – sempre é usada para se referir às personagens, o que contribui para atribuir-lhes um caráter genérico, até mítico) numa cidade em construção, provavelmente Brasília. Esse passeio, como informa o narrador, é na máxima felicidade. Os adultos estão sempre o afagando. Tudo é belo e novo. E antes mesmo que tenha consciência das necessidades, já é satisfeito. Tais descrições conferem com a idéia que se faz do Paraíso. É onde a criança parece estar.O clímax de tanta felicidade vai-se dar quando o Menino encontra um peru majestoso. Mas dura pouco tempo, pois, depois de um passeio, o garoto fica sabendo que a ave havia sido morta para o aniversário do Tio. Sua tristeza é aumentada quando depois presencia a derrubada de uma árvore. É o contato com as imperfeições da vida: a morte e, conseqüentemente, a passagem do tempo. Cai do Paraíso.Tem um momento ilusório: é quando pensa ter visto de novo o tão amado peru. Na realidade, era outro, menor, menos pomposo. Há quem enxergue aqui o platonismo, na medida em que esse segundo pássaro seria sombra do primeiro, perfeito, já que pertencente ao mundo das idéias. O segundo bicho, que bica a cabeça decepada da antiga ave, proporcionará ao menino mais experiências difíceis ligadas ao campo da inveja e da malignidade. É o instante em que começa a escurecer, tanto denotativamente (fim do dia, chegada da noite), quanto conotativamente (contato com o lado escuro da existência).A angústia é aliviada quando surge, em meio à escuridão da floresta à sua frente, um vaga-lume. Sua luz em meio ao breu simboliza a esperança que se deve ter após a queda do Paraíso, após o mergulho nas imperfeições da condição humana. Por isso alguns associam esse brilho aos ideais religiosos, como o próprio Espírito Santo, a nos trazer de volta a felicidade do princípio de tudo. É um ponto bastante diferente, portanto, do final de Macunaíma, em que o final não traz a felicidade primitiva.

FAMIGERADO

  Talvez esse conto seja conseqüência do anterior, que nos introduziu as imperfeições da vida, como a morte (e o medo dela) e a malignidade. O narrador, um homem culto (médico ou farmacêutico provavelmente) depara-se com uma situação de tensão: um bandido feroz, Damásio Siqueiras, visita-o com a intenção de saber o significado da   palavra “famigerado”. O interessante é notar que há uma constante preocupação em descobrir o que existe por trás das palavras. Damásio quer ter posse desse conhecimento, pois suas ações dependem disso. O narrador quer saber por que essa curiosidade, com medo de que tenham feito intriga contra ele. Já foi feita a associação desse aspecto a uma explicação que Cristo havia dado sobre o fato de passar seus ensinamentos por meio de parábolas, justo narrativas que têm a mesma função das estórias de Guimarães Rosa. Deixa claro, o que se aplica aqui, que, para quem não está preparado, o que conta são apenas narrativas. Mas para quem já está, há mais do que estórias.            O conto encaminha-se para um anticlímax. O médico fica sabendo que um sujeito havia chamado o bandido de famigerado. O facínora queria saber, portanto, se aquela palavra seria motivo para a desgraça ou para a paz. O narrador, ineficientemente (ou por insegurança), informa que o termo significa “inóxio”, “douto”. A verdade não fica clara. Damásio pede para que seja usada “fala de pobre”, de “em dia de semana”. Foi um pedido humilde. O narrador, pois, já detém poder da situação. Expõe-lhe toda a verdade. Informa que não é nome de ofensa.            Uma leitura desatenta indicaria que o narrador censurou a verdade. De fato, “famigerado” quer dizer “famoso, importante, que merece respeito”. Mas boa parte das pessoas usa esse termo com o sentido de “maldito, desgraçado”. Há uma forte possibilidade de que essa tinha sido a intenção do moço do governo. E a fala final do narrador deixou nas entrelinhas, como uma parábola, uma estória, este último significado. Quando Damásio lhe pede para confirmar se não se constituiu ofensa, o interlocutor diz: “Olhe: eu, com o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado – bem famigerado, o mais que pudesse!…” De fato, mesmo proprietário, estabelecido, culto, formado, naquela hora em que se sentia encurralado pelo medo de perder a vida, o que mais queria era ser tão desgraçado, tão maldito quanto Damásio.             Mas o bandido não estava preparado para essa verdade. Estava diante dele, mas não a enxergou. Estava ainda mergulhado nas trevas. Não pôde perceber o brilho do vaga-lume. É por isso que sai desmanchando-se de felicidade e alívio.            

 SORÔCO, SUA MÃE, SUA FILHA       

Neste conto verifica-se, de chofre, duas características típicas de Guimarães Rosa. A primeira é a ortografia própria, que chega a se desviar muitas vezes do padrão gramatical. Nada justifica o acento na palavra “Sorôco”. Além disso, como em muitas personagens, o nome do protagonista carrega um significado oculto. A sonoridade da palavra lembra “ser oco”, ou seja, alguém que busca o desapego. É a condição para realizar o salto, a transcendência comum nos contos de Primeiras Estórias. Sorôco é comparado a Jó, personagem da Bíblia, por causa de seu sofrimento. Tem uma mãe e uma filha loucas. Passado e futuro. Ele, no meio. Ele, a terceira margem. A eternidade. E as proporções gigantescas dele lembram as personagens grotescas que são castigadas, eliminadas em outros contos. O padecimento a que foi submetido ao cuidar das duas, no entanto, redimiu-o. O conto inicia-se com o protagonista levando suas parentas para a estação de trem, em que pegarão um trem que as levará a um hospício em Barbacena. A cidade inteira está na estação, como numa espécie de apoio num momento difícil. É o que os segura de rirem das duas figuras tão despropositadas.  Sem mais nem menos, a moça começa a cantar algo desatinado, sem sentido. Pelo menos, para as pessoas racionais, normais. A loucura pode ser entendida como algo divino, uma facilidade de contato com verdades superiores. O mais interessante é que repentinamente é a mãe de Sorôco que passa a cantar o mesmo da neta, acompanhando-a. É uma situação vexatória para Sorôco. Mas há algo de mistério também. As duas partem, embaladas pela cantiga. Deixam Sorôco. Este, pouco depois, inesperadamente começa a mesma cantiga, que passa a ser acompanhada por todos na estação, inclusive o narrador, que levam o protagonista para a sua verdadeira casa.  Há aqui a idéia de que a solidariedade, a união ajuda a superar momentos difíceis. Ajuda também na redenção de Sorôco. Mas há também a idéia de que o canto desatinado – para a nossa lógica – seria uma mensagem divina com facilidade de espalhar-se, propagar-se, levando à redenção. Como as estórias de Guimarães Rosa. Como as parábolas.           

  A MENINA DE LÁ           

 Este conto é marcado por religiosidade desde o seu começo, o que se percebe em seus topônimos (nomes de lugar). A história se passa num local chamado Temor de Deus, por trás da Serra do Mim. A mãe da protagonista não tira o terço da mão, mesmo quando dá bronca nos empregados.   Interessante é lembrar que tudo se dá perto de um brejo de águas limpas. É o símbolo do inconsciente, reforçado se se associar ao fato de que se está por trás da Serra do Mim. Esse aspecto faz lembrar um outro conto, “O Espelho”. Esse objeto tem sua superfície igual à água limpa; ademais, o protagonista esforça-se por encontrar o “eu por trás de mim”, o seu verdadeiro ser. O inconsciente tão aflorado faz-nos entender que a personagem principal deste conto, Nhinhinha (seu nome, o sufixo diminutivo triplicado, reforça sua fragilidade), louca (provavelmente tem hidrocefalia), é sensitiva, dotada de contatos místicos. Por isso, é incompreendida em seus silêncios (o que representa a sabedoria) e principalmente em seu discurso.  Nhinhinha começa a fazer previsões, que passam para a família como milagres. Em meio à seca, deseja ver um sapo, que aparece. Quer pamonha de goiaba e uma mulher surge vendendo-a. Quando sua mãe fica doente, pedem que a faça melhorar, mas a menina simplesmente diz que não pode. No entanto, abraça-a e, coincidência ou não, a cura chega. Outra vez, pedem que traga chuva e de novo diz que não pode. Porém, pouco tempo depois deseja ver o arco-íris. A chuva chega e, junto, o arco. A visão dele no céu proporciona uma alegria que ela nunca tinha expressado em sua vida. Mas, fica quieta quando recebe uma bronca de sua tia. Após alguns dias a menina morre e revela-se o motivo da bronca: em meio à alegria, a menina havia dito que queria um caixãozinho cor-de-rosa; a tia tinha achado ruim aquela idéia, pois imaginou ser mau agouro.  O que de fato acontecera: o arco-íris era o aviso de Deus de que Nhinhinha voltaria ao seio d’Ele. E isso já vinha sendo anunciado nas entrelinhas desde o início do conto: o dedinho dela quase alcançava o céu, quando se falava de parentes mortos, ela dizia que ia visitá-los, sem mencionar o próprio título do texto, entre outros elementos. Esses aspectos místicos acabam transforma-a em mais uma milagreira, como tantas crianças que povoam o imaginário popular.       

OS IRMÃOS DAGOBÉ      

Este conto confirma a idéia popular de que Deus escreve certo por linhas tortas. Ou então a de que do nada é que as coisas acontecem, conforme havia dito Joaquim Norberto, em “Luas-de-Mel”. Damastor Dagobé, bandido extremamente feroz (parece uma referência ao Gigante Adamastor, de Os Lusíadas), foi surpreendentemente assassinado por um sujeito aparentemente fraco, Liojorge, pressionado porgítima defesa. É em meio ao velório que o narrador se coloca, para captar mais vivamente a reação das pessoas presentes, todos com inúmeras conjecturas sobre como será a vingança dos irmãos Dagobé.            O mais surpreendente é que chega o recado de Liojorge, querendo deixar claro que havia matado com respeito e que queria estar na presença dos irmãos, para mostrar sua boa vontade. Se isso já deixou todos sobressaltados, muito mais quando se fica sabendo que o bom moço queria ajudar a carregar o caixão de Damastor. Parecia que o medo havia feito do rapaz um maluco. Surpreendentemente os irmãos Dagobé concordam, mas impõem uma condição: só depois do caixão ser fechado. Os presentes imaginam algum plano malévolo e traiçoeiro dos bandidos. No entanto, a narrativa apresenta frustração após frustração. Liojorge chega e não é assassinado. Conduz o caixão. No caminho, tropeça e quase derruba o féretro. Para os espectadores é um prenúncio de desgraça. E comentam que os irmãos Dagobé estão na realidade realizando o pior dos planos: usar o homem como carregador e no cemitério dar cabo dele.  No entanto, este é outro conto a lidar com anticlímax. Enterrado Damastor, seus irmãos agradecem a atenção dos acompanhantes, mostram compreensão em relação a Liojorge e reconhecem que o falecido, em vida, era mesmo muito ruim. Comunicam que estão de mudança para a cidade, o que indica evolução.    Interessante é notar que a personagem que aplica a penalidade sobre o Mal neste conto, como em “Fatalidade” e “A Benfazeja”, não o faz por vontade, o que indicaria um caráter maligno. É muito mais um instrumento de algo superior, preocupado com a ordem e o equilíbrio.            

 A TERCEIRA MARGEM DO RIO      

 Este é o mais famoso e o mais aberto conto de Guimarães Rosa. Trata-se da história do pai do narrador, chamado de nosso pai (como a incluir também o leitor) que tem um aparente desatino: constrói uma canoa para passar o resto de sua vida nela, numa viagem em direção à terceira margem do rio. Fica claro, pois, que seu alvo é metafísico, já que um rio só tem duas margens. É uma viagem em que nosso pai vai-se exceder, sair de sua condição primitiva em direção a uma verdade superior. Assim, a imagem da água concentra algumas simbologias. Pode estar ligada ao batismo, em que se morre para uma vida e se nasce para outra. Assim, há uma forte ligação com “O Espelho”, que fica confirmada com a idéia de que ambos os contos possuem a tese de que se deve buscar o verdadeiro eu (o eu por trás de mim, idéia já presente em “A Menina de Lá”). Essa busca está no mergulho em si mesmo, ou na busca de uma verdade religiosa ou até na própria morte, denotativa ou conotativamente.  Um aspecto interessante a ser notado é que o narrador, quando criança, queria embarcar com o pai. Este o impediu. Adulto, intui o porquê da busca do pai e, chegando-se à margem do rio, diz que quer substituí-lo. É o único momento em que o velho se manifesta, indo em direção à margem. No entanto, o narrador fica com medo da imagem do pai, que parecia vir do outro mundo. Foge. Por isso, torna-se a única personagem fracassada, pois não foi capaz de transcender, de realizar seu salto.            

 PIRLIMPSIQUICE        

O nome desse conto parece uma união de duas idéias, Pirlimpimpim, o pó de faz de conta do Sítio do Picapau Amarelo (“Faz de conta” é a frase que o protagonista de “Nada e a Nossa Condição” mais fala) e psique, que tanto pode significar “alma”, “espírito”, “mente”. É a história de onze ou doze crianças que estão ensaiando uma peça, “Os Filhos do Dr. Famoso”, para ser encenada diante da escola. É notável como crianças, símbolo da liberdade, agem no rigor dos ensaios constantes. Chama a atenção também como os adultos têm uma linguagem tão empolada, próxima do vazio. O pior é que um grupo de crianças, liderado pelo Gamboa, ficou de fora de todo esse processo e começa a espalhar que tem conhecimento da obra que os meninos ensaiam tão em segredo. Então, como disfarce, os atores criam uma terceira história.  Tudo perfeitamente programado, mas em cima da hora o Ataualpa, quem iria abrir a peça, tem um parente que está para morrer e, por isso, precisa ir embora. Quem assume o seu lugar é o narrador, que sabia todas as falas de cor, pois era o ponto. No entanto, na estréia é que se tocaram de que a peça devia ser aberta por um poema conhecido só pelo Ataualpa. O narrador fica parado, sem saber o que fazer. A gafe é paga com vaias monstruosas.  A situação é salva por Zé Boné, garoto limítrofe que teve sua participação limitada a um papel sem fala. Inesperadamente começa a encenar a própria peça do Gamboa, no que é seguido pelos demais garotos, como se estivessem num transe, que se transfere para a platéia, paralisando-a. Esse transe coletivo pode ser entendido como o poder da Arte. Há, no entanto, quem o compare à primeira manifestação do Espírito Santo diante dos apóstolos, que os fez falarem línguas de que nem tinham conhecimento.  Perdem a noção do tempo – contato com o divino? – o que os faz não conseguirem terminar a peça. Até que o narrador realiza um salto mortal do palco - a queda do Paraíso, como em “As Margens da Alegria”? O quase salto de “Darandina”? A idéia aristotélica de que o teatro é um salto para a vida? Ou a idéia de sublimação tão comum nos contos da obra?).      

   NENHUM, NENHUMA 

Este é o conto mais hermético da obra. Sabe-se que o narrador faz um enorme esforço de memória, que tanto pode ser entendido com a recuperação de um sonho, ou uma regressão psicanalítica ou até terapia de vidas passadas. E não está descartada a hipótese de um resgate da reminiscência do mundo das idéias, bem mais perfeito, de acordo com o platonismo. Tudo o que o narrador consegue relatar, de forma nebulosa, imprecisa e fragmentada, é que está de visita em uma casa, em que havia um Moço e uma Moça que se amavam. Havia também uma velha de idade tão avançada que nem havia mais noção de como chegara ali. Essa idéia é o motivo de os dois jovens não poderem ficar juntos, pois a Moça precisa cuidar dela. Desfeito o relacionamento, o menino é levado para sua casa pelo Moço. O garoto vê o sofrimento do jovem. É um amor forte. Chegando a sua casa, o pai fala do muro novo que está sendo construído. A mãe está preocupada em ver se a roupa do filho estava em ordem. O garoto, indignado, berra com os pais, dizendo que eles não sabiam nada do amor, preocupados que estavam com questões tão insignificantes e chãs.  Há aqui três possíveis interpretações para essa reação. A primeira é a de que o menino, conhecendo um amor tão forte como o do Moço e da Moça, fica decepcionado quando vê os pais se perderem no prosaico. A segunda é a de que o Moço e a Moça foram o pai e a mãe do menino no passado e no tempo presente deixaram o amor morrer, o que frustrou o jovem. Ou então o Moço e a Moça eram a idéia perfeita do amor, de acordo com o platonismo, enquanto  o pai e a mãe seriam a cópia, a sombra terrena desse ideal e, portanto, imperfeitos.            

NADA E A NOSSA CONDIÇÃO 

Este conto é considerado uma paródia dos contos de fada. No mínimo, possui elementos desse gênero, pois seu protagonista, Tio Man’Antônio, é tão rico e bom como os reis dessas histórias tradicionais.            A narrativa inicia-se com o enterro da esposa da personagem principal, que, a partir desse instante, começa a realizar um movimento de desapego em que se esvazia das posses e abastece seus próximos. Desfaz o jardim predileto de sua falecida, o que dá a impressão de estar-se desfazendo das lembranças dela. No aniversário de um ano de luto, dá uma festa em que consegue fazer com que suas três filhas conheçam seus noivos. Casadas, partem. Man’Antônio vende suas propriedades e transfere o lucro para suas filhas. Divide sua enorme fazenda entre seus empregados, o que pode ser enxergado como um tipo de reforma agrária. E ainda tem de se intrometer nos afazeres deles, pois sozinhos não conseguem se virar. O senhor virou capataz – outro desapego, dessa vez de posição. Estes, ingratamente, tratam-no de maneira silenciosamente agressiva. Acham que ainda estava se fazendo de senhor. Talvez não perdesse sua majestade. Engrandecido estava, mas espiritualmente, graças ao seu desapego. Já está pronto para a sua grande viagem, a espiritual. Espera, realizado e tranqüilo, a morte, que de fato chega. Conforme seu pedido, sua casa é incendiada, ele dentro. É a cremação. As cinzas parecem subir, como se buscassem o Céu.            

 O CAVALO QUE BEBIA CERVEJA     

O narrador deste conto é Reivalino, erroneamente chamado pelo protagonista, Giovânio, de Irivalini. A personagem principal é um italiano, refugiado da guerra, que mora numa chácara escurecida, ocultada por árvores. Tem uma dor a ocultar, mas escondê-la é só um erro, tanto que ninguém entende o que fala. E nem consegue a estima do narrador, que xenofobamente o acha nojento. Talvez a explicação seja Reivalino achar que o estrangeiro esteja de gozação quando chega à sua venda e pede cerveja para o cavalo. Há aqui o cruzamento de valores. Giovânio come alface em um balde de água. Animalizou-se. O cavalo bebe cerveja. Humanizou-se. A birra começa a diminuir quando a mãe de Reivalino fica doente e Giovânio, talvez tocado com a idéia dolorosa de perda (mais tarde se verá que também é vivida por ele), paga as despesas com remédio. Com a morte dela, passa a trabalhar para o italiano, mas com ressalvas, o que justifica ter colaborado com a polícia na entrega de algumas informações sobre Giovânio. Por causa delas, a polícia visita a casa do italiano, não descobrindo nada de errado. Em outra oportunidade, Reivalino acaba conhecendo os cômodos mais internos da casa, em um deles até havia um cavalo empalhado. Empalhar é tentar absurdamente deter o inevitável: o curso do tempo e a morte. A intimidade entre os dois vai-se fortalecendo, até o momento em que Giovânio mostra o seu segredo: Josepe, seu irmão morto, com o rosto mutilado pela guerra. Aceitar e verbalizar essa dor serviu, como numa terapia, para Giovânio viver melhor, pois sofre menos, seu italiano misturado com português passa a ser entendido e é aceito pelo narrador. Eis a idéia aqui é que se deve aceitar nossa imperfeição marcada pelo tempo, já vislumbrada pelo Menino de “As Margens da Alegria”. Aceitar a morte e conseqüentemente o fluir do tempo é viver melhor. Marcante é uma das últimas falas do italiano, pouco antes de tornar Reivalino seu herdeiro: “A vida é bruta e os homens são cativos”. Pode-se entender uma relação entre a idéia do homem ser cativo, prisioneiro, ou seja, cheio de apegos, até mesmo à própria vida, como um dos motivos para os problemas da vida, até a traumatizante guerra pela qual havia passado Giovânio. Por outro lado, assim como numa parábola, corremos o risco de cometer o mesmo erro de Damásio em “Famigerado”. A verdade ser-nos exposta, mas não a enxergamos. As palavras “bruta” e “cativos” existem no língua italiana, mas com outro significado: “feia” e “maus”, respectivamente. Assim, pode-se entender também que a vida é feia, cheia de problemas, porque os homens são maus, ou por serem imperfeitos, ou por terem uma queda para a malignidade, ou por causa dos dois motivos.            

UM MOÇO MUITO BRANCO 

Talvez por apresentar um fato que pode ser entendido como dos mais mirabolantes, ou mesmo absurdos, este conto é introduzido por uma precisão espaço-temporal atípica em Guimarães Rosa. A história iniciou-se em 11 de novembro de 1872, em Serro Frio, no Arraial do Oratório. Na noite desse dia havia ocorrido uma tempestade fortíssima. No dia seguinte surgia na cidade um moço muito branco, luminoso, aéreo, desligado, “sonhoso”, como se não fosse deste mundo. Todos o imaginaram vítima de uma amnésia provocada pelo cataclisma. É logo cuidado por Hilário Cordeiro.  Este texto é permeado de inúmeras referências católicas, não só quanto ao nome Hilário Cordeiro, como também a datas no decorrer da história, sempre dias de santos. Além disso, a descrição do moço, além de puxar elementos ufológicos que o qualificariam como um extra-terrestre, traz à baila aspectos que o qualificariam como um anjo. Isso se na realidade não possa ser encampada a tese de que ambas as qualificações referem-se à mesma entidade. O fato é que esse moço, que quando entrava na igreja tinha jeito de cão que tinha encontrado o dono, possuía o dom de distribuir a felicidade, a graça às pessoas com quem convivia. A um cego havia dado uma semente, que dera origem a uma árvore maravilhosa, nunca vista. À filha melancólica de um fazendeiro trouxera alegria quando, inocente ou abençoadamente, havia tocado no seu seio. O pai dela, Duarte Dias, que já havia levantado confusão enorme porque queria tirar a guarda do moço das mãos de Hilário Cordeiro, sob a desculpa de que era um parente distante e desaparecido, arranja maior ainda, alegando que a menina tinha sido desonrada. A cidade é que protege o moço da sanha do irado homem. Por fim, o mesmo Duarte Dias é quem pede humilde e desesperadamente a companhia do moço. Parecia um pedido sem sucesso, se não fosse o próprio jovem que se oferecesse a ficar com o fazendeiro. Leva-o para suas terras e indica um local a ser enterrado. Duarte Dias obedece e descobre uma jazida de diamantes. Essa dádiva muda o comportamento do homem – torna-se bom.  Então, o sonhoso resolve partir. Com a ajuda de José Kakende, um indigente que o havia visto chegar – acendem-se 9 fogueiras. Este é um número místico, pois é o de níveis angelicais. Desce estrondosamente um objeto do céu de onde saem outros moços, que o conduzem de volta ao veículo. A descrição feita aqui é muito parecida com a que aparece em Ezequiel I, 4-28, no instante em que se vê a manifestação da glória de Deus. Misturam-se esoterismo, misticismo e ufologia.             

FATALIDADE    

 Este conto tematiza idéias como Destino e Karma e sua inevitabilidade. É o que indica seu título.  Trata-se da história de Zé Centeralfe, que vive acochado, pois sua esposa desonrosamente está sendo cortejada por um facínora, Herculinão. O casal, para evitar problemas, mudou-se do Pai-do-Padre para Amparo. Mas o bandido segue-os. Mudam-se então para a cidade, onde deveria haver lei, ordem, segurança, mas continuam sendo seguidos. É por isso que o pobre homem vai pedir ajuda ao delegado, chamado pelo narrador de Meu Amigo, figura que cita intensamente os filósofos gregos. A intenção é obter o apoio da justiça dos homens. No entanto, Zé Centeralfe é induzido a outro tipo de moral. Aparentemente, é a justiça pelas próprias mãos, pois o delegado convence Centeralfe, apenas com o olhar, a pegar as armas. Assim que saem, encontram Herculinão, que é assassinado com um tiro no peito (coração) e outro na cabeça (mente). Uma leitura mais atenta revela outro aspecto, bastando analisar o nome dos dois opositores. Herculinão vem de Hércules, personagem que faz lembrar o ato de exceder, pela força (algo um tanto grotesco), a condição humana. Seu pecado, portanto, é transgredir a ordem natural, que precisa ser reestabelecida. Esta é a função de Zé Centeralfe. Seu sobrenome vem do inglês, “centerhalf”, ou seja, meio de campo, o jogador que, no futebol, tem a função de distribuir a jogada. Sua tarefa assemelha-se à de Liojorge em “Os Irmãos Dagobé”: ser apenas um instrumento para o reequilíbrio das forças. Fez cumprir o karma, o destino. A Fatalidade.    

SEQÜÊNCIA

 Esse conto narra a fuga de uma vaca em direção à sua querência, ou seja, o lugar de seu nascimento. É a temática da viagem de volta, presente em “As Margens da Alegria”, “Os Cimos” e “Nada e a Nossa Condição”, entre outros. Essa aproximação também se faz no campo do misticismo, pois a vaca, que ia pelo meio do caminho, é chamada de criatura cristã. Além disso, seguia por amor e não por acaso. Outro elemento religioso é visto no fato de estar fugindo de uma fazenda chamada Pedra em direção à outra, Pãodolhão. Há a idéia de evolução da pedra para o pão. É a sublimação, tão comum em Primeiras Estórias. No entanto, o filho mais moço de seu Rogério, dono da fazenda da Pedra, resolve ir atrás da vaca, por intuição sabendo seu caminho. Até que atravessa um rio – idéia do batismo, presente em “O Espelho” e em “A Terceira Margem do Rio”. Sai da água outro, mais determinado. Já enxerga exatamente o rumo do animal.  Alcança a vaca já dentro da Pãodolhão. É quando vê quatro moças, apaixonando-se por uma delas, para quem acaba entregando o animal. A busca da vaca transformou-se na busca do amor, cristão, atingida na viagem de volta ao nascimento, ao princípio, à querência, ao Paraíso.      

 O ESPELHO 

Este conto apresenta um aspecto que o destaca em relação aos demais de Primeiras Estórias: sua linguagem é carregada de termos científicos e filosóficos, numa formalidade que se afasta do caráter oral dos outros 20 textos.  Seu narrador, que parece conversar com o leitor (o que torna o conto um espelho) diz que realizou um enorme esforço, por meio de seu reflexo num espelho, de busca do seu verdadeiro eu, o “eu por trás de mim”. Aqui se estabelece uma forte ligação com outros contos, que ajudam a interpretá-lo. O primeiro é “A Menina de Lá”, que morava por trás da Serra do Mim, num lugar chamado Temor de Deus, perto de um brejo de águas limpas – um espelho. Essa busca de águas/espelho é semelhante à de nosso pai, em “A Terceira Margem do Rio”.  Esse verdadeiro eu precisa ser encontrado por meio de seu reflexo. Estuda-se, pois, sua imagem e semelhança. Assim, a busca do verdadeiro eu está na busca de Deus. Para tanto, o narrador vê-se na necessidade de realizar exercícios que têm a proposta de eliminar as superfícies enganadoras de sua imagem (bem diferente de Jacobina, de “O Espelho”, de Machado de Assis, que se apega à superfície do seu eu). Com esforço, elimina sucessivamente a imagem do seu sósia animal, dos seus pais, de suas paixões, das idéias que os outros lhe atribuem, dos interesses efêmeros. O resultado de todos esses esforços causa-lhe muito sofrimento, principalmente uma terrível dor de cabeça. Resolve, pois, abandonar a tarefa. Tempos depois, voltou a se olhar no espelho e não viu nada. É como Damásio, em “Famigerado”: tem diante de si a verdade, mas não a enxerga, pois não está preparado. Aos poucos, uma imagem vai-se formando, de forma luminosa. É o brilho que cerca as personagens divinas de “Um Moço Muito Branco” e “Substância”. No final, surge a imagem de algo que é menos que um menino. A associação com a criança de “As Margens da Alegria” e “Os Cimos” não é absurda. Também se deve lembrar que há uma referência a I Coríntios, XIII, 11-2: “Quando eu era criança eu via e pensava como criança. Agora que cresci já não ajo como criança. Agora vejo em parte, mas quando vier o que é perfeito, verei face a face”. Eis a idéia de que a criança enxerga melhor a verdade (eis um dos motivos para a predileção para esse tipo de personagem na obra). Tornando-se adulto, a visão é embaçada. No entanto, existe a promessa de que se voltará ao estágio da perfeição. Vai-se estar face a face com Deus, como se diante de um espelho.            

 LUAS-DE-ME

 Do nada é que as coisas acontecem. Essa frase pode ser entendida como uma defesa do desapego, presente em “Sorôco, sua mãe, sua filha”, “Os Cimos”, “A Terceira Margem do Rio”, “O Espelho” ou “Nada e a Nossa Condição”. Pode também ser entendida como uma explicação para as ações de Liojorge e Zé Centeralfe, de “Os Irmãos Dagobé” e “Fatalidade”, respectivamente. Mas é uma frase proferida por Joaquim Norberto, protagonista do presente conto, que tem a mesmice de sua vida quebrada pelo pedido do Coronel Seotaziano de proteção a um casal que quer casar-se, contrariando a decisão da família da moça. Deve-se notar que, além de a filiação de Joaquim a Seotaziano lembrar o feudalismo, a chegada do casal provoca duas conseqüências: cria, em forte crescendo, uma expectativa tensa de um combate, o que faz todos ficarem armados, até o padre, que viera celebrar o matrimônio. Gera, também, o renascer do amor em Joaquim Norberto e sua esposa Sa-Maria Andreza.

No final, outra vez se manifesta no obra o recurso ao anticlímax. O irmão da noiva surge, mas não traz a guarda, apenas o convite de um almoço para comemorar a união. Todos vão ao festejo, menos Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza. Os dois ficam para aproveitar o sentimento renovado. Amor traz amor.           

 PARTIDA DO AUDAZ NAVEGANTE  

Este conto apresenta uma personagem considerada o Guimarães de saia: Brejeirinha. Tal aproximação justifica-se por causa da compulsão de ambos por contar histórias usando elementos poéticos e alógicos, dando novos sentidos a palavras conhecidas. 

 A narrativa inicia-se com a protagonista presa em casa, por causa da chuva, em companhia de sua mãe, dos irmãos Pele e Ciganinha, e do primo Zito, namoradinho desta última. O ambiente em que estão, com o calor do lar, sugere o conforto do útero, imagem que parece um reflexo da figura da mãe.

Com o fim da chuva, partem para o ambiente externo. Brejeirinha começa a contar uma história, baseada num sonho de Zito. Ao usar o real para fazer seus vôos imaginativos, age como Guimarães Rosa. Sua narração é sobre um navegante que sai em busca de sua amada quase uma referência a Ciganinha e Zito. É uma estória que curiosamente vai ter o seu final várias vezes alterado, atendendo à compulsão de Brejeirinha para efabulação. Quando chegam à margem do rio, encontram um esterco de vaca em que havia crescido um cogumelo. Enfeitam-no com flores, palitos, chiclete e demais adereços miúdos, transformando-o no Audaz Navegante. É uma atitude alquimista, pois tira ouro, beleza da matéria mais pobre. Mas pode ser também entendida como surrealista, graças à associação inusitada de elementos. 

Com a chegada da mãe, as crianças esquecem momentaneamente o brinquedo, que parte, conduzido pelas águas da chuva e do rio. Assim como o Audaz Navegante, que conseguira unir-se a seu amor. Curiosamente Brejeirinha diz que ele havia-se transformado em vaga-lume. É um ponto de contato com “As Margens da Alegria” e “Tarantão, meu Patrão”.          

A BENFAZEJA 

Mais uma vez a idéia de que quem não está preparado para a verdade não a pode enxergar. Mas neste conto esse defeito é visto em uma cidade inteira, o que deixa o narrador, que conversa com esses moradores, irritado com tal cegueira. Lembra o Velho do Restelo, de Os Lusíadas.      

O narrador está determinado a convencer – o que não consegue – a todos que Mula Marmela, mulher estéril, sem nome cristão, dotada de linguagem antiga (sua descrição a afasta deste mundo), não é uma personagem maldita como sempre fora apregoado. Sua função fora benfazeja, pois eliminara dois personagens sedentos por sangue: seu companheiro Mumbungu e o filho deste, Retrupé, que chegou até a ser cegado pela madrasta para deter seu espírito maligno. Essas acusações não são explicitamente encampadas pelo narrador, que apenas relata, cômoda e seguramente, os comentários que circulam pela cidade.           

A imagem que simboliza Mula Marmela é a do carvão, que é preto, mas, aproximado à luz, torna-se brilhante. As ações de Mula Marmela, para quem tem visão tapada – como o narrador de “O Espelho”, em certo momento, ou Damásio Siqueiras, em “Famigerado” – são malignas. No entanto, a ação dela salvou, por meio da morte, seu companheiro  e de seu enteado. Tanto que os dois, por mais bandidos que fossem, sempre a respeitaram e a temiam, como se intuíssem que o destino deles estava nas mãos dela.          

  Como argumento em favor da personagem, é lembrado o momento em que Retrupé fora assassinado. Quando havia descoberto o inevitável fato (envenenamento), tem uma explosão de raiva e tenta atingir Mula Marmela com seu facão, mas não a alcança, mesmo ela estando inflexível. Arrefecida a explosão, começa, entre lágrimas, a chamar a algoz de mãe. Ela o chama de filho. 

Realizada sua missão, parte da cidade, sob o silêncio ingrato dos habitantes. O narrador faz ainda questão de lembrar que na saída ela havia carregado nas costas um cachorro morto – ou para limpar a cidade, ou para enterrar o coitado, ou para garantir companhia em sua viagem. Qualquer uma dessas hipóteses reforça o caráter positivo da protagonista.             

DARANDINA 

Este é um dos poucos contos urbanos da obra. Claramente, sua temática é a loucura. Um sujeito rouba uma caneta e sobe numa palmeira, numa explosão de loucura que quebra o cotidiano de pasmaceira da cidade. Mais uma vez, do nada é que as coisas aconteciam, assim como em “Luas de Mel”.           

 Sua maluca subida, além de fazer lembrar “Ismália”, do simbolista Alphonsus de Guimarães, mostra uma confusão que a personagem faz entre plano denotativo (sair do chão, ao pé da letra) e plano conotativo (sair do chão no sentido de buscar a transcendência).           

 Outro aspecto interessante é o que acontece no chão. Além do absurdo que é os especialistas discutirem a rotulação da insanidade do sujeito, sem solucionarem o problema, chama também a atenção a cidade inteira acompanhar o espetáculo do rapaz. Tudo isso autoriza o seguinte questionamento: quem é louco? É uma pergunta espinhosa que faz lembrar o conto “O Alienista”, de Machado de Assis.            O incrível é que o louco consegue um equilíbrio espantoso no alto da palmeira (outra diferença entre os planos denotativo e conotativo), tornando-se, portanto, um excesso humano. Isso é que explica a profundidade de sentido de suas frases, como “Viver é impossível!”. Infelizmente, recobra de súbito a sanidade e passa a ter medo da queda. De fato, chegar tão longe do comum do chão assusta – é o mesmo medo que sentiu o narrador de “A Terceira Margem do Rio” e Sionésio, de “Substância”. É conduzido para baixo pelos bombeiros. A população fica irritada com o fim do espetáculo. O ex-louco, talvez por segurança, tem (ou simula) outro surto, devolvendo alegria à cidade, que volta, alimentada, para o seu cotidiano.       

 Embora nesse conjunto não haja propriamente uma linha temática, um fio condutor, é bom lembrar que neles predomina a poesia saborosa na organização das palavras e cada conjunto, oração ou período depende de nós, da nossa capacidade de observação, de nossa paciência para que se instaure o significado esplêndido que tem.            

  O narrador é um médico-residente num hospício ( o Instituto).            

 Como se dá a história, que é tragicômica e é narrada por um mordaz médico que em tudo põe os olhos e nada deixa escapar?           

  Assim: um homem muito bem posto, acusado de roubar uma caneta e, perseguido por outros, sobe com rapidez numa palmeira-real. Os funcionários do hospício ficam observando aquilo e decidem que ele é meio louco. Um médico plantonista, que não é o narrador, diz que o homem é secretário das Finanças Públicas, o que é contado à multidão que, achando coerente o que ele faz, devido ao seu trabalho, aceita o fato como normal. O verdadeiro secretário recebe pedido de desculpas. E uma outra multidão, agora, formada pela polícia, corpo de bombeiros, capelão, enfermeiros, padioleiros, chega.           

  Um professor, Dartanhã, aproveita a darandina ( confusão) e contesta a autoridade do diretor do hospital. Enquanto tudo acontecia lá embaixo, o homem , lá em cima, dizia:               “- O feio está ficando coisa…” (…) Querem comer-me ainda verde?!”            Tira os sapatos, a roupa, os bombeiros tentam resgatá-lo, os cinegrafistas o filmam, jornalistas e fotógrafos também estão lá. E o doido, lá em cima, resolveu, então, balançar-se na palmeira, recebendo, agora, os aplausos do público.            

 Mas, num momento, o doido recuperou o equilíbrio mental. Só que nem o público, nem os diretores, nem os médicos aceitavam isso, assim, de repente. Pretendiam linchá-lo. Foi ai que o louco deu gritos contra a ordem estabelecida e gritando “Viva a luta! Viva a liberdade!”despencou de lá de cima nu como viera ao mundo. , mas foi amparado pela multidão.             De igual, depois daquilo, só mesmo a palmeira.            

SUBSTÂNCIA 

O título desse texto, um verdadeiro conto de fadas, tem um título que estaria relacionado a três fatos. “Substância” pode significar “o essencial”. Seria um conselho para que nos atenhamos apenas ao que é importante. É a lição aprendida por Sionésio. A palavra pode também estar ligada à idéia de alguns textos místicos medievais, que diziam que os anjos eram todos iguais – assim como o moço muito branco, de “Um Moço Muito Branco”, que é indefinido por ser feito de uma substância divina. Pode ainda estar ligada ao polvilho, material extremamente branco que Maria Exita, empregada de Sionésio, manipula.            O nome dessa personagem também suscita considerações interessantes. Maria é o nome mais sagrado e tipicamente feminino. Exita pode estar ligado a “êxito”, alcançado pela moça e por seu companheiro. Pode também fazer referência a Sionésio, que hesita em se unir a ela, com medo do salto que realizará – o mesmo medo de “Darandina” e de “A Terceira Margem do Rio”. pode também estar ligado ao termo “exit”, que em latim significa “saída”, indicando o afastamento das condições terrenas. É quase um sinônimo de “salto”, tão comum na obra na obra. A palavra pode ainda ser um hibridismo constituído do latim “ex” e do tupi “ita”, que significa pedra. É uma referência à capacidade  de sair da pedra (como a vaquinha de “Seqüência”), do mais baixo e tornar-se divino.           

 Maria Exita é o exemplo de que do nada é que as coisas acontecem, defendida em “Luas-de-Mel”. Havia chegado à fazenda de Sionésio ainda menina feia e desengonçada. Surpreendentemente, tornara-se aos seus olhos, deslumbrante, dona de uma beleza radiante digna das musas de Petrarca e Camões. Essa luminosidade é reforçada pela matéria com a qual lida, o polvilho, e para a qual é a única que está acostumada, mesmo sob o forte sol do sertão, que torna essa substância dotada de um brilho cegante. Essa familiaridade a torna divina.          

  No entanto, Sionésio tem medo. A mãe de Maria Exita era leviana, tendo abandonado o lar. O pai estava num lazareto (lugar para leprosos). Seus irmãos eram bandidos, um preso e outro foragido. O fazendeiro tem, portanto, teme que em sua amada exista a marca de algumas dessas malignidades.            Mas Sionésio vence todos esses receios. Atingir a realização, a felicidade plena exige a coragem de suplantar obstáculos. Caminha para a eternidade, para a luz, para o “não tempo” e o “não fato”.            

TARANTÃO, MEU PATRÃ

Este é outro conto com anticlímax. É a história de um velho que já fora mandão e que tinha sido afastado da família, por causa de sua caduquice – que já pode ser vislumbrada de início pelo costume da personagem de usar botas desiguais. O narrador, Ligeiro ou Vaga-Lume – eis aqui um ponto de contato com “As Margens da Alegria” e “A Partida do Audaz Navegante” – tem a função de cuidar do idoso, mas se vê em apuros, já que o ancião tem um surto e, armado de uma velha faca de cozinha enferrujada, parte numa busca maluca para se vingar de um médico que o havia feito sofrer com aplicação de remédio e lavagem intestinal.           

 Achando que a viagem, dominada pelo instinto de vingança, era guiada pelo diabo, o narrador segue Tarantão, na tentativa de evitar algum infortúnio. E o velho parece disposto a criar um grande estrago, pois vai arregimentando toda espécie de marginalizados, loucos, bandidos, desvalidos. Constrói, portanto, uma tropa, tornando-se uma paródia do rei Arthur.           

Chegando à cidade, Tarantão pede bênção ao padre, o que tranqüiliza o narrador. A viagem não está sendo guiada de todo pelo maldito. E então, o anticlímax. Entra na casa do doutor. Era festa de batizado do filho do médico. Tarantão retribui a forma afetiva com que foi recebido com um discurso, que não se entende, mas que comove a todos. Sentou-se, depois, em uma mesa à parte, junto dos seus cavaleiros.          

  Poucos dias após isso, morreu. Deve-se entender sua viagem, pois, como uma última explosão de vida, como se tivesse recebido a missão de poder experimentar uma explosão de existência.          

  OS CIMOS     

O último conto apresenta forte semelhança com o primeiro. O ambiente é o mesmo, assim como praticamente as personagens. Além disso, o ponto final de “As Margens da Alegria” é o início de “Os Cimos”: a morte. Porém, o menino faz, aqui, sua viagem não mais no feliz, mas na agonia, pois sua Mãe corre um sério risco de morrer.           

 Para se viver melhor, deve-se evitar o apego à vida e aceitar a morte. É o que fez Tio Man’Antônio em “Nada e a Nossa Condição” ou Giovânio em “O Cavalo que Bebia Cerveja”. Essa necessidade de desapego é vista neste conto no chapeuzinho de um macaquinho de brinquedo que o Menino acaba perdendo durante essa viagem. Ainda assim, talvez por não entender essa mensagem, guarda o boneco, que várias vezes parece querer sair do bolso.          

  Ainda assim, o menino parece inconscientemente sentir que se ligar fortemente às coisas é ruim, tanto que sua agonia é crescente. Parece não querer mais querer. Querer é apegar-se. Apegar-se é sofrer.         

   Eis que, durante o nascer do sol, o menino intui a necessidade de estar na frente da casa do Tio. É quando presencia o início de um ritual que vai durar 1 mês: o vôo de um tucano, que pousa num galho diante da criança, sempre às 6h20, alimenta-se e alça novamente vôo às 6h30, em direção do sol, da luz, agora mais forte que a do vaga-lume em “As Margens da Alegria”.           

 Essa precisão faz com o que aprenda a esperar, a ter esperança, a deixar partir. Tanto que propõem caçar a ave, mas ele rejeita. Aprendeu a desapegar-se. Aprendeu a viver.           

Resultado: contrariando expectativas, sua mãe melhora e escapa da morte. O Menino retorna para seu lar. No avião, durante a volta, o piloto devolve-lhe o chapéu do boneco. Mas o macaquinho já estava perdido. Ou deixado partir.                                                 

05 15

A CIDADE E AS SERRAS – Eça de Queirós  Por: Rebeca Cabral 

Jacinto vivia numa maravilhosa mansão, nos Campos Elíseos nº. 202, que pertencera a seu pai e seu avô. Tinha como grande amigo José Fernandes e o negro Grilo. Ele acredidava que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”, sendo assim, abominava a vida no campo, amava e glorificava a cidade e seu ritmo. José Fernandes resolveu partir para Guiães, a casa de seus tios nas serras. Jacinto lamentou pelo amigo e assim ficaram separados por sete anos. Quando ele voltou a Paris, voltou a viver na mansão com Jacinto. Encontrou lá um amigo abatido e tomado pelo tédio na mansão farta de “civilização”: elevador, milhares de volumes de livros, abotoadores de ceroulas, um relógio com o horário de todas as capitais do mundo e a órbita dos planetas.
A vida seguia em meio a todas essas modernidades. Em certo momento Jacinto recebeu uma carta noticiando que o local onde estavam enterrados os avós e o resto da família havia desmoronado. Jacinto ordenou a construção de um novo local para colocar os mortos. Em meio a tais acontecimentos dia a após dia ele se fadigava mais da vida. Os bailes, como o feito para o Grão duque, não o satisfazia e as visitas aos bosques também não.
Foi então que ele anunciou sua partida para Tormes, com a intenção de presenciar a cerimônia em homenagem à construção feita para seus antepassados. Assim vários artefatos foram enviados às serras onde Tormes se localizava e por lá a casa era preparada para receber Jacinto com toda a sua necessidade por civilização.
Partiu em abril e junto com ele José Fernandes e Grilo. Por fim, depois de uma longa viagem, chegaram a Tormes, no entanto nada estava pronto nem mesmo a chegada deles era esperada. Ainda por cima suas malas haviam sido perdidas. Instalaram-se precariamente em Tormes. No dia seguinte José Fernandes foi pra Guiães, que era a fazenda vizinha e assim mandaria para Jacinto algumas roupas para que pudesse embarcar de volta.

Assim fez, e escrevendo a Jacinto e sem obter resposta foi a Tormes para saber o que havia acontecido, ao chegar lá encontrou seu amigo. Ao decorrer do tempo Jacinto se instalou em Tormes e passou a reformá-la, agora não vivia mais infadado de toda a existência e se instalara definitivamente. Chegou à cerimônia para o reenterro dos mortos e na verdade nenhum deles pertencia a qualquer parente de Jacinto.
Ele passou a viver no campo com mordomia, mas sem as modernidades que tinha em Paris. Instalara-se de tal forma que planejou a criação de rebanho destinada à queijaria que queria construir, no entanto desistiu dela e o que fez mesmo foi uma reforma caridosa.

Para todos os trabalhadores de sua terra construiu novas casinhas e aumentou os salários. Planejou então a construção de uma farmácia, uma biblioteca e uma creche, com isso tornou-se popular entre a população dali. No aniversário de José Fernandes, Jacinto foi para Guiães onde haveria um pequeno baile em comemoração à data. A festa foi meio tensa por que muitos achavam que Jacinto participava do miguelismo, um partido político absolutista e de extrema direita.
No dia seguinte à festa José Fernandes levou Jacinto até a fazenda do pai de sua prima Joana, a quem ele queria apresentar na festa, mas não pode, pois a moça não havia comparecido, seu pai estava com um furúnculo e precisava dela. Conheceram-se e depois de cinco meses se casaram.

Daí nasceram dois filhos Terezinha e Jacinto. Firmado ele estava na vida em Tormes, por muitas vezes quis levar a família para conhecer Paris, no entanto a viagem era sempre adiada, e assim o tempo passava, na casa notava-se uma presença maior de modernidades, mas nada estrondoso. José Fernando então voltou a Paris, mas não por muito tempo, logo ao chegar lá viu como era horrorosa desagradável.
Chegou a encontra amigos, o que só mostrou como lá nada mudara. Voltou às serras e por lá ficou junto a Jacinto e sua família.    

 CAPITÃES DA AREIA – Jorge Amado  Por: Rebeca Cabral  

Nesse livro conhecemos os chamados “Capitães da areia” que se trata de um grupo de crianças abandonadas que vivem do furto.
O chefe desse grupo era o chamado Pedro Bala, ingressara na vida na rua com cinco anos e com um pouco mais de idade se mostrava mais corajoso e capacitado líder para as crianças, era loiro e filho de um grevista morto no cais. Nesse grupo viviam mais de cinqüenta crianças, entre eles o chamado Professor, Gato, Sem Perna, Volta Seca, Pirulito, Boa Vida, João Grande e outros. Todos viviam em um trapiche abandonado na praia.
Professor sabia ler e assim passava as noites à luz da vela lendo livros que de algum modo foram adquiridos, e também muitas vezes lia as histórias para os capitães ou então inventava a partir do que já lera. Possuía um grande talento para desenhar, muitas vezes ganhava alguns réis desenhando casais e jovens nas ruas da Bahia.
Gato era um dos mais belos do grupo, quando chegou um dos meninos tentou se relacionar com ele, o que acontecia costumeiramente no trapiche, mas ele não se dispôs. Era vaidoso, elegante e tinha ginga de malandro. Andava arrumado dentro do que era possível, de acordo com sua realidade de menino de rua, o cabelo sempre melado de brilhantina barata. Com sua pouca idade, na adolescência se apaixonou por uma mulher da vida, Dalva. No início ela tinha um amante, mas foi até que ele se cansou dela e a partir de então ela e Gato iniciaram um caso.
Sem Pernas, era coxo e odiava tudo. Uma vez fora pego pela polícia e isso despertara nele uma grande amargura, os policiais o colocaram em uma sala e riam enquanto forçavam o menino a correr pela sala. Ele implicava com os meninos mais novos e novatos. Muitas vezes ele era usado nos planos de assalto a casas, batia a porta pedindo ajuda, declarando ser um órfão aleijado. Despertava a compaixão e assim ficava na casa até descobrir onde os bens preciosos eram guardados, indicando-os depois aos capitães da areia. Foi assim que certa vez ganhou uma nova mãe que via nele o filho perdido. Era bem tratado, mas a fidelidade aos capitães impedia que ficasse lá para sempre, e foi assim também que se envolvera com uma mulher de meia idade que lhe oferecia um amor carnal e incompleto.

Volta Seca era afilhado de Lampião, pedia sempre ao professor que lesse para ele as notícias de seu padrinho, era também um fiel ajudante nos assaltos.
Pirulito tinha o chamado de Deus em sua vida. Padre José Pedro, um pobre sacerdote era amigo dos capitães, ensinava-os e foi ele que contribuiu para o fim das relações homossexuais no trapiche. Foi ele também o responsável pela religião de Pirulito, que através dos ensinamentos dos padres buscava uma vida mais correta chegando até a abandonar o roubo.

Boa Vida era um dos moleques do trapiche, era esperto e também participava dos roubos. Por fim João Grande, esse era um negro burro, porém era bom, como diziam os próprios companheiros.
A polícia perseguia os capitães e a maioria da cidade não gostava deles. Mais eles tinham o padre, Dona Aninha, uma negra praticante de candomblé; e João de Adão um grevista do cais.

Chegou à praia então a varíola, todos temia a doença, pois quem a adquirisse devia ser entregue ao governo que os mandava para o lazarento, e tinham como fim a morte. Foi assim que um dos meninos do grupo foi para lá. Tentaram encobrir a doença, mas o médico acabou falando aos governantes e o menino foi para o lazarento e o padre José Pedro castigado.
Foi assim também que a mãe de Dora e Zé Fuinha morreu, eles sozinhos no mundo desceram do morro, ela procurou emprego, mas a doença da mãe lhe destruía as vagas. Assim eles ingressaram no grupo dos capitães, inicialmente os meninos quiseram se relacionar com ela, mas a defesa de Professor, João Grande e Pedro Bala impediram. Logo Dora era a mãezinha e a mana dos meninos. Mas para Pedro Bala ela era a noiva, para Professor também, porém Dora retribuía apenas a Pedro. Ela também ajudava nos roubos, era uma companheira.

Um dia em um assalto alguns dos capitães foram presos, dentre eles Pedro Bala e Dora, mas a ação rápida do líder dos capitães fez com que apenas ele e Dora fossem presos. A menina foi mandada a um orfanato, já Pedro foi torturado pela polícia, mantido em uma solitária por oito dias e depois lançado no reformatório. Porém, os meninos agiam do lado de fora e assim Pedro se fez livre.
Quando foram libertar Dora, ela se encontrava doente. E poucos dias ainda viveu entre os capitães. Mais na noite antes de partir ela e Pedro Bala consumaram o amor dos dois tornando-se esposos.  Depois disso, os capitães seguiram a vida. A juventude já chegava para alguns. Padre José Pedro acabou ganhando sua capela e Pirulito foi embora com ele para trabalhar na Igreja de Cristo. Sem Pernas fugindo da polícia acabou morrendo, mas não deu o prazer aos policiais de o pegarem. Gato foi para Ilhéus junto com Dalva onde vivia da malandragem, depois chegou a voltar a Salvador, mas só de passagem, pois já ia embora com uma negrinha.

Boa Vida parou aos poucos de voltar ao trapiche e vivia em farras, amando a Bahia e tocando modas no seu violão. Professor entrara em contato com um homem que um dia lhe oferecera ajuda depois de ver os seus desenhos, foi para o Rio de Janeiro e se tornou um pintor, retratava as crianças da Bahia. Volta seca foi atrás de seu padrinho Lampião e se tornara um cangaceiro, na sua arma marcava a morte de mais de sessenta homens, no entanto a polícia o prendera e o condenara pela morte comprovada de 35 homens.

Os demais capitães da areia se envolveram com as greves e lutavam a favor do povo. Alberto, um estudante, sempre os visitava e juntos lutavam pelo ideal grevista. Foi assim que Pedro Bala foi embora, a pedido de Alberto partiu pra organizar os Índios Maloqueiros de Aracaju, o posto de líder dos capitães de areia foi entregue a Barandão.
Anos depois Pedro Bala era o ícone da luta do povo e todos pediam por ele.      

 O AUTO DA BARCA DO INFERNO – Gil Vicente  - Por Rebeca Cabral 

 Depois da morte todos são encaminhados a um rio onde duas embarcações esperam. Um onde um anjo espera levaria os mortos ao paraíso, outra onde uma Arrais infernal e um companheiro levariam os que ali embarcassem para o inferno. Primeiro vem um Fidalgo que chega à embarcação do inferno. Pergunta aonde ela leva e, ao ouvir que era para o inferno, justifica que é uma terra desagradável e que em vida tinha quem rezasse por ele; assim se encaminha para a barca do paraíso. Chega anunciando sua embarcação, mas o anjo lhe proíbe a entrada, afirmando que a tirania não entrava ali. O fidalgo então volta ao Arrais e embarca para o inferno.Vem então um onzeneiro (um tipo de agiota) que, sabendo do destino, se encaminha para a barca seguinte. O anjo lhe pergunta para onde ele quer ir. Ao ouvir que quer ir ao paraíso, justifica-lhe o porquê de não poder fazê-lo e, assim, ele volta para a barca que leva ao inferno. Chega o Parvo. Feitas as apresentações descobre que a tal barca leva ao inferno e se encaminha para a barca seguinte onde o anjo com ele conversa. Ele aceita levar o parvo, mas pede-lhe que espere para ver se não há mais ninguém que possa ir com eles.

Chega um sapateiro que pergunta para onde a barca vai. Depois da resposta pergunta para onde os confessados se encaminham, mas o sapateiro era também excomungado. Ele vai até o anjo que não lhe permite a entrada devido aos roubos que fazia. Vem em seguida um frade com uma moça que chegou dançando. Conhecido o destino e sendo um padre mundano não teve chance na barca do paraíso e junto com a moça embarcou para o inferno.

Veio Brígida Vaz, uma alcoviteira, que o Arrais quis embarcar, porém ela se dirigiu à barca celestial. O anjo perguntou quem era ela, e ela lhe afirmou que merecia o paraíso, pois muitas vidas tinham salvado; no entanto o anjo sabia que ela não pertencia àquela barca, e assim ela voltou e embarcou na barca do inferno. Chegou um judeu dizendo ir à barca do paraíso e, enquanto ele conversa com o Arrais, o parvo apareceu dizendo como o judeu era mal. Assim, ele também embarcou para o inferno.

Vieram também um corregedor e um procurador, conversaram com o Arrais e acabaram embarcando na barca dele. O corregedor ficou conversando com Brígida Vaz, pois a conhecia. Por fim, veio o enforcado que dizia estar livre da barca do inferno pela morte que levara. Mas ele foi desenganado e embarcou para o inferno junto com todos os outros.

Vieram então quatro cavaleiros cantando, cada um com a Cruz de Cristo. Cantavam dizendo que a barca segura era o seu destino. O Arrais questionou-os por passarem sem pergunta, mas eles sabiam que mereciam a barca do paraíso, morreram por Jesus Cristo e não mereciam o castigo. O anjo estava à espera deles e quando chegaram puderam embarcar para o paraíso.

  DOM CASMURRO – Machado de Assis  - Por Rebeca Cabral

O narrador inicia o livro justificando o título e por que resolveu escrevê-lo. Chama-se Dom Casmurro, pois foi um apelido dado ao personagem principal Bento Santiago, e diz que escreve por falta do que fazer. Bento era filho de Dona Glória, uma mulher bondosa. Vivia em sua casa em Matacavalos junto com seu tio Cosme que havia enviuvado, sua prima Justina também viúva e um agregado, José Dias. Seu pai já havia morrido.
Dona Glória que havia perdido o primeiro filho fez uma promessa a Deus, que se lhe abençoasse com um filho vivo este iria para o seminário quando fosse o tempo e tornaria padre. Nasceu-lhe Bento. Quando ele tinha seus quinze anos foi lembrada a sua mãe a promessa que fizera e que já era tempo de cumpri-la.
Bento sabendo da sua partida próxima para o seminário foi ter com sua amiga, Capitu. Os dois eram amigos de infância e dessa amizade nasceu um amor. Ele lhe contou sobre a promessa e os dois desde já começaram a lutar buscando formas de evitar a separação que viria. Decidiram então pedir que José Dias lutasse por eles.
Certo dia ao visitar Capitu, Bento lhe penteou os cabelos, ao terminar acabaram se beijando. O romance deles ia crescendo e tomando forças, e a ida ao seminário trazia o medo da separação, em uma tarde então juraram um ao outro que se casariam.

O novo ano chegou e Bento foi para o seminário. Lá fez um amigo, Escobar, foi o único com quem cogitou contar a jura feita à Capitu, mas essa não lhe permitiu. Sempre aos sábados ele retornava a sua casa onde revia seus familiares e Capitu.
Dona Glória e Capitu se aproximavam e isso alegrava Bento que via a aprovação de sua mãe. Escobar logo passou a freqüentar a casa dele e toda a família aprovou. Era agora amigo de Capitu também. Sendo assim, estando os dois no seminário trocaram segredos, Bento lhe contou sobre o seu juramento e Escobar lhe contou que também não seria padre, amava o comércio.

Em uma das visitas, Bentinho teve por Capitu um acesso de ciúme acreditando que ela lhe traia apenas por olhar com um rapaz que passava na rua. Capitu lhe disse que por mais uma lhe rompia o juramento.
A essa altura Dona Glória queria que Bento voltasse. Muitos planos para o abandono da promessa vieram, por fim ela tomou um órfão e esse foi encaminhado ao seminário, Bentinho aos vinte e dois anos era bacharel em Direito. Como tinha a aprovação da mãe casou-se com Capitu e foram pra Tijuca.

Escobar havia casado com Sancha, uma grande amiga de Capitu, sendo assim se alternavam entre jantares na Tijuca e no Flamengo. Escobar logo foi pai de uma menina, mas a Bento não vinha essa benção. Até que esse foi pai de um filho único, Ezequiel. O tempo passava o menino crescia e tinha mania de imitar os outros, mania que tentavam lhe tirar, mas sem sucesso.
Escobar morreu, durante seu velório Bentinho notou em Capitu um sentimento diferente embora ela não tenha chorado, a viúva de Escobar partiu para o Paraná com a filha.
Ezequiel ia crescendo e nele se via Escobar rapaz. Bento via no filho o jeito de andar, rir, conversar, comer do amigo morto. O ciúme e a dúvida acerca de uma traição que se comprovava na igualdade de Ezequiel com Escobar puseram fim na família Santiago. Bento se mantinha longe e recluso, Ezequiel acabou indo para um colégio de onde só voltava aos sábados. E era nos dias de sua volta que Bento fugia de casa, ver o filho era comprovar a traição que sofrera.

Bento já atordoado resolve suicidar, tentou, mas abandonou o plano. Por fim foram para Europa de onde apenas ele regressou, vivia então só, e às vezes viajava até a Europa apenas como disfarce ao povo que lhe perguntava sobre a mulher e o filho, quando ia lá não os procurava. As correspondências que trocava com Capitu eram breves e secas, já as dela não.
Sua mãe, tio Cosme, José Dias todos se foram. Este último antes de ver o regresso de Ezequiel. Ele voltou, Capitu havia morrido e estava enterrada nas terras da Suíça. Ver Ezequiel era ver Escobar, no jeito de rir, comer, falar, andar, em tudo.
Mesmo assim Bento fez o papel de pai, financiou lhe uma viagem à Grécia, Egito e Palestina, pois Ezequiel amava a arqueologia.
Ao fim, Ezequiel morreu de febre tifóide, foi enterrado em Jerusalém com as palavras “tu eras perfeito nos teus caminhos”. Dom Casmurro apenas conclui que sua maior amiga e seu melhor amigo foram unidos pelo destino e enganaram-no.     

IRACEMA – José de Alencar  - Por Rebeca Cabral

Iracema era a filha do pajé Araquém da tribo dos tabajaras. Em um dia quando banhava em um rio chegou até ela um estrangeiro, Martim. Assim que o viu a observá-la o atacou com uma flecha, mas a expressão de Martim foi tal que Iracema viu a mágoa que causara e assim se perdoaram. Seguiram então para a tribo da jovem índia, onde ele foi hospedado. Rapidamente os dois se apaixonaram, mas Iracema era a virgem de Tupã o que tornava o amor deles proibido. Em uma noite ela levou Martim ao bosque da Jurema onde lhe ofereceu uma bebida que o adormeceu e lhe proporcionou rever em sonhos seus melhores momentos e suas esperanças. Nos seus sonhos chamou por Iracema que se reclinou sobre o estrangeiro, novamente ele a chamou, mas assustada ela o deixou adormecido e foi embora, quando retornava do bosque encontrou-se com Urapuã, o chefe dos guerreiros.Esse tinha visto o estrangeiro sair com a virgem e agora queria matá-lo acreditando que Iracema havia se entregado ao estrangeiro, ela se opôs dizendo que não permitiria e assim Urapuã jurou matar Martim, e foi embora. Iracema ficou a velar Martim. Ele ao acordar pela manhã encontrou Iracema na entrada do bosque. Ela estava triste, a situação não permitia que eles ficassem juntos, Martim resolveu que o melhor era que ele partisse.
Mas sua vida corria perigo, e por isso Iracema foi à tribo dos pitaguaras, rivais dos tabajaras, ter com o amigo de Martim, Poti o maior guerreiro. Logo ele veio ao encontro de seu amigo para lhe ajudar na fuga. Ouviram Iracema que aconselhou a partida durante a festa da lua das flores, pois ninguém estaria prestando atenção.
Na espera para o dia da festa, Iracema e Martim ficaram juntos e Tupã perdeu sua virgem. Chegado o dia da fuga, Iracema os acompanhou, mas quando já estavam fora das terras dos tabajaras a índia declarou que não podia se separar do estrangeiro e seguir com ele. Estavam adiantados, mas quando os guerreiros tabajaras acordaram seguiram o rastro deles e depois de um tempo os alcançaram, iniciaram uma batalha e Iracema lutou contra os da sua tribo. O cão de Poti guiou os guerreiros da pitaguara que socorreram Martim e Poti e esses saíram vencedores.

Por um tempo a tristeza perturbou Iracema que traíra sua tribo, mas Martim fazia sua alegria. Os três foram caminhando pelas terras dos potiguaras até que chegaram ao mar onde se instalaram. Lá viviam também outros índios, tribos de pescadores mais à margem dos braços do rio e tribos caçadoras mais pra dentro da mata.
Depois de um tempo Martim e Poti foram ter com o grande chefe dos pitiguaras e ali o vira morrer. A alegria agora morava na alma de Iracema, banhava-se com alegria no rio e foi nesse tempo que deu alegria a Martim anunciando a espera de um filho. Martim então se fez grande guerreiro na tribo dos pitiguaras e assim tornou-se um deles recebendo o nome de Coatiabo e festejaram até a manhã.

A alegria morou ainda por muito tempo na cabana, mas em certo tempo a saudade de seus irmãos e da pátria apertou o coração. Martim saía para as batalhas contra os taputingas que, em aliança com Irapuã, vinham combater a nação dos pitiguaras.
Nessas partidas Iracema se entristecia, agora ainda mais por que via nos olhos de seu esposo a saudade que tinha de sua terra natal. Partiu Martim pra nova batalha. Essa contra os guaraciabas. Novamente os pitiguaras venceram e enquanto comemoravam a vitória Iracema deu a luz ao filho Moacir, o filho da dor. Iracema mergulhada numa tristeza profunda passou a esperar por seu esposo com o filho nos braços, por causa da tamanha tristeza ela perdeu o apetite e as forças.
Martim regressou e teve com seu filho, a graça de ser pai lhe reacendeu o amor, mas Iracema se enfraqueceu e acabou morrendo. Não tendo mais motivos para se prender àquelas terras o estrangeiro partiu com o filho para sua terra natal, prometeu voltar e assim o fez depois de alguns anos. Aquela terra guardava uma amarga saudade, que lhe rendeu abundantes lágrimas que só se findaram quando ele tocou a terra onde repousava sua amada.

Martim veio acompanhado de homens de “sua espécie” e um sacerdote de sua religião, fundaram ali a mairi dos cristãos, o fiel amigo Poti que sempre o esperara foi o primeiro a adotar a religião. O Deus verdadeiro chegou àqueles povos, Martim lutou novamente a favor dos pitiguaras e com emoção lembrava os momentos que tivera com Iracema naquelas terras.    

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS – Manuel Antônio de Almeida - Por: Rebeca Cabral

 Leonardo e Maria viajavam de Lisboa rumo ao Rio de Janeiro, no navio se apaixonaram, logo após casaram e tiveram um filho chamado Leonardo, que desde pequeno era manhoso e arteiro. Com o passar do tempo Maria começou a trair seu marido e quando este descobriu deu uma surra na mulher, que acabou fugindo com seu amante, o capitão de um navio, partindo para Lisboa, Leonardo simplesmente foi embora abandonando o filho. Leonardo (filho) ficou então aos cuidados de seu padrinho, um barbeiro “bem arranjado”, este passou a estimar muito o menino. Planejou fazê-lo padre, iniciou a escrita e a leitura, bem precariamente, ao menino e depois o encaminhou à escola. Por estes tempos a madrinha de Leonardo também apareceu e lhe visitava sempre. O menino na escola não passava um dia sem apanhar com a palmatória do mestre. Quando passou a ir sozinho faltava a muitas aulas e ia para igreja se juntar a Tomás para fazer bagunça.Imaginando a facilidade que teria em aprontar se viesse a ser coroinha como o amigo, pediu ao padrinho que lhe fizesse tal, o padrinho aceitou alegremente o interesse pela igreja. Mas logo o menino foi expulso por tanto aprontar. Já rapaz levava uma vida de vadio. Ele e seu padrinho passaram a frequentar a casa de D. Maria, essa tinha uma sobrinha, Luisinha, que Leonardo apaixonou-se por ela.
Em meio às suas intenções apareceu um rival, José Manuel, sua madrinha tomou parte e inventou uma mentira para que o rival de seu afilhado perdesse a estima que tinha. Nesses tempos o padrinho morreu e Leonardo foi viver com seu pai que depois de muito lutar por uma cigana acabou casado com a filha da comadre. Ele não se dava muito bem com a madrasta, então, em um dia após visitar D. Maria e não ver Luisinha se envolveu de novo em uma briga com a madrasta, seu pai tomou parte dela e o ameaçou com uma espada. Leonardo fugiu pela rua.

Depois de muito andar encontrou-se com Tomas e mais uns amigos, dentre eles Vidinha, que lhe despertou uma nova paixão. Foi viver na casa deles, lá viviam duas senhoras irmãs, uma mãe de três moças e outra mãe de três rapazes. Uma das moças era namorada de Tomás e Vidinha era a paixão de dois dos rapazes. Como esta se mostrava mais interessada em Leonardo os dois primos armaram contra ele.
A armação levou-o preso pelo major Vidigal, homem muito temido. Mas antes que chegasse à cadeia o rapaz fugiu. Com o objetivo de evitar motivos para uma nova prisão a madrinha de Leonardo lhe arrumou um emprego na casa-real, mas o rapaz logo foi despedido por ter se aproximado da mulher de um dos homens do poder da casa.

Ao saber de tal acontecimento, Vidinha foi tomar satisfações. Leonardo saiu atrás dela para impedir, quando chegaram à porta da casa, na indecisão de entrar ou não, ele acabou sendo levado por Vidigal que o esperava por lá. Nesses tempos a mentira da madrinha tinha vindo à tona e José Manuel foi redimido e ganhou a mão de Luisinha em casamento e depois desse, logo mostrou o mau caráter que tinha.
Leonardo foi feito granadeiro do major Vidigal, Vidinha e sua família haviam buscado muito por ele e sem encontrar passaram a odiá-lo por cometer a desfeita de abandonar sem explicação quem o acolhera. Vidigal em uma noite armando a prisão de Teotônio mandou Leonardo até a casa do pai dele, lá estava dando a festa de batizado da filha de tal e Teotônio animava a festa. Leonardo ficaria no batizado para facilitar a captura, Vidigal junto com seus homens esperavam na porta.

No entanto, Leonardo se sentiu um traidor e armou com Teotônio sua fuga sem que se comprometesse. O plano deu certo, mas de tão alegre que ficou acabou por se denunciar. Vidigal então o prendeu. Ao saber de tal coisa sua madrinha foi rogar por ele ao major, sem resultado; após uma forte reconciliação com D. Maria foram as duas pedir a libertação do rapaz, o que não conseguiram.
As duas senhoras foram atrás da ajuda de Maria-Regalada, esta tinha sido a primeira paixão de Vidigal, ela concedeu a ajuda e às três foram implorar pela libertação de Leonardo. Depois de muito tentar e nada conseguir Maria-Regalada falou em particular com Vidigal, disse que se libertasse o rapaz iria viver com ele, como ele já lhe pedira muitas vezes. Com tal proposta o major cedeu e ainda prometeu uma surpresa.

Durante tais acontecimentos Luisinha ficou viúva, foi no dia do enterro de José Manuel que Leonardo apareceu, tinha sido feito sargento. Passou a frequentar novamente a casa de D. Maria, seus interesses por Luisinha renasceram e os dela também. A madrinha e a D. Maria estavam mais do que de acordo com o casamento deles, o que impedia era o posto de sargento que não permitia o casamento. Pediram então novamente a ajuda de Vidigal, que nesses tempos já vivia com Maria-Regalada. O homem cedeu com gosto e fez de Leonardo sargento de milícias, oficio que permitia o casamento.

Dado a essas circunstâncias casou-se com Luisinha. Depois de tais acontecimentos, Leonardo pai e D. Maria vieram a falecer.   

 O CORTIÇO – Aluísio de Azevedo 

 Um homem qualquer, trabalhador e muito econômico adquire fortuna, amiga-se a uma negra de um cego e sente cada vez mais sede de riqueza. Arranja confusões com um novo vizinho (Miranda) ao disputar palmos de terra. Chega a roubar para construir o que tanto almejava: um cortiço com casinhas e tinas para lavadeiras. Prosperou em seu projeto. João invejava seu vizinho. Veio morar na casa de Miranda, Henrique, acadêmico de medicina, a fim de terminar os estudos. Nessa casa, além de escravos e sua família morava um senhor parasita (Botelho, ex-empregado). D. Estela (esposa de Miranda) andava se  “escovando” com o Henrique, porém acabaram sendo flagrados pelo velho bote cotidiano da vida no cortiço ia de acordo com a rotina e a realidade de seus moradores, onde lavadeiras eram o tipo mais comum. Jerônimo (português, alto, 35 a 40 anos), foi conversar com João oferecendo-lhe serviços para a sua pedreira. Com custo, depois de prosearem bastante, João aceitou a proposta, com a condição dele morar no cortiço e comprar em sua venda. A mudança de Jerônimo e Piedade se sucedeu sob comentários e cochichos das lavadeiras. Após alguns meses eles foram conquistando a total confiança de todos, por serem sinceros, sérios e respeitáveis. Tinham vida simples e sua filhinha estudava num internato. No domingo todos vestem a melhor roupa e se reúnem para jantar, dançar, festejar, tudo muito à vontade. Depois de três meses Rita Baiana volta.
  Nessas reuniões sobressaia o “Choro”, muito bem representado pela Baiana e seu amante Firmo. Toda aquela agilidade na dança deixara Jerônimo admirado a ponto de perder a noite em claro pensando na mulata. Pombinha tirava esses dias para escrever cartas. Henrique entretia-se a olhar Leocádia, que em troca de um coelho satisfez sua vontade física(transa), quando foram pegos por Bruno(seu marido), que bateu na mesma e despejou-a de sua casa depois de fazer um baita escândalo. Jerônimo mudou seus costumes, brigava com sua e a cada dia mais se afeiçoava pela mulata Rita. Firmo sentia-se enciumado. Florinda engravidou de Domingos (caixeiro da venda de João Romão), o mesmo foi obrigado a casar-se ou fornecer dotes. Foi aquele rebuliço em todo cortiço, nada mais falavam, além disso, Florinda viu-se obrigada a fugir de casa. Léonie(prostituta alto nível) aparece emperiquitada com sua afilhada Juju, todos admiravam quanta riqueza, mas nem por isso deixaram sua amizade de lado. Léonie  era muito amiga de Pombinha. Na casa de Miranda era uma festa só! Ele havia sido agraciado com o título de Barão do Freixal pelo governo português. João indagava-se, por não ter desfrutado os prazeres da vida, ficando só a economizar. Diante de tal injúria, com muito mau humor implicava com tudo e todos do cortiço. Fez despejar na rua todos os pertences de Marciana. Acusou-a de vagabunda, acabando ela na cadeia. A festa do Miranda esquentava e João recebeu convite para ir lá, o que o deixou ainda mais injuriado. O forró no cortiço começou, porém briga feia se travou entre Jerônimo e Firmo. Barricada impedia a polícia entrar, o incêndio no 12 fez subir grande desespero, era um corre-corre, polícia, acidentados (Jerônimo levou uma navalhada) e para finalizar caiu uma baita chuva.João foi chamado a depor, muitos do cortiço o seguiram até a delegacia, como em mutirão. Rita incansavelmente cuidava do enfermo Jerônimo dia e noite. No cortiço nada se dizia a respeito dos culpados e vítimas. Piedade não se agüentava chorando muito descontente e desesperada por seu marido acidentado. Firmo não mais entrava por lá, ameaçado por João Romão de ser entregue a polícia. Pombinha amanheceu indisposta decorrente da visita feita no dia anterior à Léonie. Esta, como era de seu costume, atracou Pombinha em beijos e afagos, pois era além de prostituta, lésbica. Isso deixara a menina traumatizada, que por força e insistência de sua mãe, saiu a dar voltas atrás do cortiço, onde cochilou, sonhou e ao acordar virou mulher. A festa se fez por D. Isabel, ao saber de tão esperada notícia. Estava Pombinha a preparar seu enxoval quando Bruno chegou e lhe pediu que escrevesse uma carta a Leocádia. Ele chorava… Ela, ao ver a reação de submissão dele desfrutava sua nova sensação de posse do domínio feminino. Imaginava furtivamente a vida de todos, pois sua escrivaninha servia de confessionário. Via em seu viver que tudo aquilo continuaria, pois não havia homens dignos que merecessem seu amor e respeito. Pombinha, mesmo incerta, casa-se com o Costa foi grande a comoção no cortiço. Surgiu um novo cortiço ali perto, o “Cabeça de Gato”. A rivalidade com o cortiço de João Romão foi criada. Firmo hospedou-se lá, tendo ainda mais motivos contra Jerônimo. João, satisfeito com sua segurança sobre os hóspedes, investia agora em seu visual e cultura, com roupas, danças, leituras e uma amizade com Miranda e o velho Botelho. Ele e o velho estavam tramando coisa com a filha do Barão. Fez-se um jantar no qual João foi todo emperiquitado. João naquele momento de auge em sua vida, via-se numa situação em que necessitava livrar-se da negra, chegou a pensar em sua morte. Sem nem mesmo repousar após sua alta do hospital, Jerônimo foi conversar com Zé  Carlos e Pataca a respeito do extermínio do Firmo. O dia corria, João proseava com Zulmira na janela da casa de Miranda, sentindo-se familiarizado. Jerônimo foi realizar seu plano encontrando-se com os outros dois no Garnisé (bar em frente ao cemitério). Pataca entrou no bar, encontrou por acaso com Florinda, que se ajeitara na vida e dera-lhe notícia que sua mãe parara num hospício. Firmo aparece e Pataca o faz sair até a praia com pretexto de Rita estar lá. Muito chapado seguiu-o. Lá os três treteiros espancaram-lhe e lançaram-lhe ao mar. Chovia muito e ao ir para casa, Jerônimo desiste e se dirige à casa da Rita. O encontro foi efervescente por ambas as partes. Tudo estava resolvido, fugiriam no dia seguinte. Piedade, ao passar das horas, mais desesperada ficava. Ao amanhecer do dia chorava aos prantos e no cortiço nada mais se ouvia senão comentários sobre o sumiço do Jerônimo. A morte de Firmo já rolava solta no cortiço. Rita encontrava-se com Jerônimo. Ele, sonhando começar vida nova, escreve logo ao vendeiro despedindo-se do emprego, e à mulher constando-lhe do acontecido e prometendo-lhe somente pagar o colégio da garota. Piedade e Rita se atracaram no momento em que a mulata saía de mudança, o cortiço todo e mais pessoas que surgiram, entraram na briga. Foi um tremendo alvoroço, acabara sendo uma disputa nacional (Portugueses x Brasileiros). Nem a polícia teve coragem de entrar sem reforço. Os Cabeças de Gato também entraram na briga. Travou-se a guerra, a luta dos capoeiristas rivais aumentava progressivamente quando o incêndio no 88 desatou, ensangüentando o ar. A causa foi à mesma anterior, por um desejo maquiavélico, a velha considerada bruxa incendiou sua casa, onde morreu queimada e soterrada, rindo ébria de satisfação. Com todo alvoroço, surgia água de todos os lados e só se pôs fim na situação quando os bombeiros, vistos como heróis, chegaram. O velho Libório (mendigo hospedado num canto do cortiço) ia fugindo em meio à confusão, mas João o seguiu. Estava o velho com oito garrafas cheias de notas de vários valores, essas que João roubou e fugiu, deixando-o arder em brasas. Morrera naquele incêndio a Bruxa, o Libório e a filhinha da Augusta além de muitos feridos. Para João o incêndio era visto como lucro, pois o cortiço estava no seguro, fazendo ele planos de expansão baseado no dinheiro do velho mendigo. Por conseqüências do incêndio Bruno foi parar no hospital, onde Leocádia foi  visitá-lo ocorrendo assim à reconciliação de ambos. As reformas expandiram-se até o armazém e as mudanças no estilo de João também alcançavam um nível social cada vez mais alto. Com amizade fortificada junto ao Miranda e sua família, pediu a mão de Zulmira em casamento. Bertoleza, arrasada e acabada daquela vida, esperava dele somente abrigo em sua velhice, nada mais.Jerônimo abrasileirou-se de vez. Com todos costumes baianos deleitava-se a viver feliz com a mulata Rita. Piedade desolada de tristeza habituara-se a beber e começou a receber visitas aos domingos de sua filhinha (nove anos), que logo cativou todo o cortiço, crismada por todos como “Senhorinha”. Acabados por desgraças da vida, Jerônimo e Piedade não mais guardavam rancor um  do outro, ambos se estimavam e em comum possuíam somente a filha a cuidar. Jerônimo arrependia-se, mas não voltaria atrás. Deu-se a beber também. O cortiço não parecia mais o mesmo, agora calçado, iluminado e arrumado todo por igual. O sobrado do vendeiro também não ficara para trás nas reformas. Quem se destacou foi Albino (lavadeiro homossexual) com a arrumação de sua casa. A vida transcorria, novos moradores chegavam. Já não se lia sob a luz vermelha na porta do cortiço “Estalagem de São Romão”, mas sim “Avenida São Romão”. Já não se fazia o “Choradinho” e a “Cana-verde”, a moda agora era o forrobodó em casa, e justo num desses em casa de das Dores, Piedade enchera a cara e Pataca é que lhe fizera companhia querendo agarrá-la depois de ouvir seus lamentos, mas a caninha surtiu efeito (vômito) e nada se sucedeu. João Romão não pregara os olhos a pensar no que fazer para dar um fim na crioula  Bertoleza. Agostinho (filho da Augusta) sofrera acidente na pedreira, ficara totalmente estraçalhado. Foi aquele desespero no cortiço. Botelho foi falar a João logo cedo. Bertoleza ao ouvir, pôs-se respeito diante da situação e exigiu seus direitos, discutiram o assunto e nada resolveram. João se irritara e tivera a idéia de mandá-la de volta ao dono propondo esse serviço ao velho Botelho, que, aliás, recebia dele remuneração por tudo que lhe prestava. Em volta do desassossego e mal estar de João e Bertoleza o armazém prosperava de vento em poupa aumentando o nível dos clientes e das mercadorias. Sua Avenida agora era freqüentada por gente de porte mais fino como alfaiates, operários,   artistas, etc. Florinda ainda de luto por sua mãe Marciana, estava envolvida agora com um despachante. A Machona (Augusta) quebrara o gênio depois da morte de Agostinho. Neném arrumara pretendente. Alexandre fora promovido a sargento. Pombinha juntara-se a Léonie e atirara-se ao mundo. De tanto desgosto, D. Isabel (mãe de Pombinha) morrera em uma casa de saúde. Piedade recebia ajuda da Pombinha para sobreviver, pois estimava Senhorinha, apesar de saber que o fim da pobre garotinha seria como o seu. Mesmo assim  Piedade foi despejada indo refugiar-se no Cabeça de Gato, que se tornara  claramente um verdadeiro cortiço fluminense. Ocorreu um encontro em uma confeitaria na Rua do Ouvidor, entre a família do Miranda, o Botelho e o João Romão que se puseram a prosear. Na volta, seguindo em direção ao Largo São Francisco, João e Botelho optaram em ficar na cidade a conversar sobre o fim que se daria a crioula. Estava tudo certo, seu dono iria buscá-la junto á polícia. Quando isso se sucedeu, ao ver-se sem saída, impetuosa a fugir, com a mesma faca que descamava e limpava peixes para o João, Bertoleza rasgou seu ventre fora a fora. Naquele mesmo instante João Romão recebera um diploma de sócio benemérito da comissão abolicionista.

  

05 08

CONCEITO: Dissertar é expor idéias, é apresentar juízos, é argumentar, assumindo ou não uma posição em relação a um assunto. ·      

  PODEMOS TER DOIS TIPOS DE DISSERTAÇÃO

1. DISSERTAÇÃO ARGUMENTATIVA - É aquela que apresenta uma abordagem crítica sobre determinado assunto. É a defesa do ponto de vista de quem escreve.

2. DISSERTAÇÃO EXPOSITIVA - É aquela que aborda uma verdade indiscutível. É a exposição de idéias sem tomar uma posição sobre elas. Tem apenas a intenção de informar.

ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO

INTRODUÇÃO: É a apresentação do assunto a ser desenvolvido; É a tese, a idéia inicial, sem muitas explicações.

DESENVOLVIMENTO: É a elaboração discursiva da INTRODUÇÃO. É a justificativa da idéia inicial, com a apresentação de mais detalhes, exemplos, citações, etc.

CONCLUSÃO: É a síntese do DESENVOLVIMENTO. Retomada da idéia inicial, com a apresentação de um resumo do que foi exposto ou argumentado no DESENVOLVIMENTO.

 CUIDADOS PRELIMINARES

1. Ler atentamente o tema, procurando entender perfeitamente o que é pedido, e se o valor das palavras que compõem o tema é conotativo ou denotativo;

2. Conhecer o tema a ser desenvolvido. Nesse sentido, a leitura permanente de bons livros, jornais e revistas é fundamental;

3. Delimitar o assunto. Partindo de um tema aberto, amplo, procurar restringi-lo a um de seus aspectos, tornando-o assim um tema fechado, restrito.  Exemplo: ASSUNTO = “EDUCAÇÃO” = tema aberto, amplo, abrangente; “A educação no século XXI” = tema fechado, específico, delimitado.

4. Refletir sobre o tema. Procurando analisar o ponto de vista assumido, sua forma e suas variantes;

5. Planejar a elaboração de cada etapa da estrutura dissertativa (INTRODUÇÃO, DESENVOLVIMENTO E CONCLUSÃO);

6. Fazer um rascunho inicial, onde geralmente são feitas diversas alterações antes de se redigir o texto final;

7. Procurar redigir sempre na 3ª pessoa do singular ou do plural, ou ainda, na 1ª do plural para tornar o texto mais impessoal, evitando, dessa forma, expressões do tipo “na minha opinião…”, “eu penso que…”, “eu acho que…”, etc.;

8. Procurar desenvolver uma habilidade e um estilo de expressão próprios;

9. Manter sempre objetividade e clareza na abordagem do tema;

10. Escolher, logo de início, um título bem adequado que servirá de guia, de orientação para o perfeito desenvolvimento do assunto a ser abordado. O título, na realidade, deve ser a síntese do assunto proposto pelo tema.
 

NOÇÕES DE DISSERTAÇÃO OBJETIVA E SUBJETIVA

  • DISSERTAÇÃO OBJETIVA - É a apresentação do assunto de maneira impessoal, caracterizada pela linguagem denotativa. Texto onde prepondera à razão. 
  • DISSERTAÇÃO SUBJETIVA - É a apresentação do assunto de maneira introspectiva, provocando a emoção do leitor e caracterizada pela linguagem conotativa. 
     

 OBSERVAÇÕES QUE DEVEM SER FEITAS AO TÉRMINO DA DISSERTAÇÃO

ADEQUAÇÃO: Verificar se o texto está adequado ao tema e à modalidade propostos;

COERÊNCIA: Observar se houve um começo, meio e fim coerentes e sequenciais, de acordo com a tese defendida;

CLAREZA: Entendimento perfeito das idéias expostas, sem a presença de ambiguidades. Para isso, tomar cuidado com a parte gramatical; COESÃO: Organização lógica das frases, dos parágrafos e do texto como um todo, fazendo uso correto dos conectivos.


MODELO SIMPLIFICADO DE UMA REDAÇÃO DISSERTATIVA

ASSUNTO: Opinião. TEMA (DELIMITAÇÃO DO ASSUNTO): Direito de expor sua opinião. Existe ou não este direito?

TÍTULO: UMA NECESSIDADE HUMANA.

INTRODUÇÃO: Apresentação da tese com seus argumentos.

ARGUMENTOS PARA SER DESENVOLVIDO: - Necessidade de expor suas idéias, ou seja, é inerente ao ser humano a condição de dizer o que pensa; -

Superação do interlocutor, ou seja, numa discussão, é a tentativa de convencer a pessoa com quem se dialoga de que você está certo;

Exemplo de Introdução: “Como todo ser humano emitimos nossas opiniões, sendo ou não solicitados, uma vez que a necessidade de expor nossas idéias é uma constante, além de nos sentirmos com a sensação de que sobrepujamos eventuais interlocutores.”

Exemplo de Desenvolvimento: “Percebermo-nos capazes de abordar qualquer assunto, independente da convicção que tenhamos sobre ele, alimenta-nos o ego, resgatando a própria imperfeição humana. Reconhecermo-nos aptos para toda discussão, confere-nos o poder, visto que o homem precisa dele para se sentir forte. Não menos verdade é a satisfação de superarmos aquele de quem discordamos, não nos importando para isso quais recursos utilizemos, pois nos oferece a vitória e o poder, dominando o oponente pela nossa capacidade de persuasão. Entregamo-nos, então, uma medalha de autoconhecimento, o que nos alimenta substancialmente.”

Exemplo de Conclusão: “Dessa forma, é sempre muito importante termos uma opinião, pois através dela, não só suprimos uma grande necessidade que sentimos, como também vemos prostrado àquele que nos ousou desafiar.”   

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QUINCAS BORBA, Machado de Assis (Prof. Teotônio Marques Filho )      Ao estudar a obra de Machado de Assis, a crítica divide-a em duas fases bem distintas cujo marco é o romance Memórias Póstumas de Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881. Até essa data, a obra machadiana é marcante romântica, e nela sobressai poesia, conto e romances como: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Pertencem à primeira fase todas essas obras.

      A partir de 1881, com a publicação de Memórias, Machado muda de tal forma que Lúcia Miguel Pereira chega a afirmar que “tal obra não podia Ter saído de tal homem”. A partir das Memórias, “Machado liberou o demônio interior e começa uma nova aventura”: a análise de caracteres, numa verdadeira dissecação da alma humana. É a segunda fase – fase marcadamente realista, sem a qual “não teríamos Machado de Assis”. Além de contos, poesia, teatro, crítica, integram essa fase os romances seguintes, entre os quais está o nosso QUINCAS BORBA: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1900), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), seu último romance. Toda essa obra é marcadamente realista, embora reconheçamos que um escritor da categoria de Machado de Assis não pode ficar preso às delimitações de um estilo de época: águias não se aprisionam – voam livremente pelas esferas celestes de onde, das estrelas, volvem os olhos aquilinos para a miséria decadente do planeta dos homens!

      Como já ficou situado, Quincas Borba se enquadra no estilo realista, o que procuraremos mostrar, a partir daqui, dando, é claro, os devidos descontos para o caso de Machado de Assis.

      ESTILO DE ÉPOCA

      Como você deve saber, a base cultural e histórica do Realismo é a ciência que dominou as atenções na Segunda metade do século XIX, chegando a adentrar o século . Varreu o mundo uma onda de materialismo, como o positivismo de Comte, o evolucionismo de Darwin, o psicologismo de Wundt, o determinismo de Taine, que alastra pelo espírito humano como uma verdadeira paixão. Nasce daí o gosto pela análise, objetividade, observação, fidelidade, impassibilidade, impessoalidade, etc. Em suma, a literatura preocupa-se em captar a realidade como ela é, formando-lhe um retrato fiel e preciso.

      Como é fácil perceber, Quincas Borba é um livro que se acha, cronologicamente, no estilo realista. Abaixo lembraremos algumas características que podem ser vistas no romance.

      FIDELIDADE NA DESCRIÇÃO DAS PERSONAGENS. Se o romântico, dando asa à sua fantasia e imaginação, impregna sua personagens de uma dimensão quase sobrenatural e idealista, o escritor realista faz exatamente o contrário: encara a realidade direta e objetivamente. Muitas vezes cientificamente, como é o caso das personagens naturalistas – verdadeiras cobaias dos experimentos científicos. Ao realista interessa o que é e não o que deve ser. Podemos afirmar , dando-se os devidos descontos, que as personagens realistas são autênticas criaturas de carne e osso que têm as virtudes e os defeitos do ser humano. O realista não idealiza a realidade, como faziam os românticos, mas pinta-a tal como ela se apresenta ante seus olhos: é um expectador que contempla de fora a realidade que o cerca. Assim são as personagens de Machado de Assis: Capitu, Sofia, Virgília, Quincas Borba, Brás Cubas, Rubião e tantas outras que povoam seus romances de contradições, misérias, desgraças, alegrias, virtudes, defeitos – enfim, de vida.

      ANÁLISE INTROSPECTIVA DAS PERSONAGENS. Incontestavelmente, o grande mestre da análise introspectiva, entre nós, numa verdadeira dissecação da alma humana, é Machado de Assis. A grande característica da sua obra de segunda fase – onde se enquadra Quincas Borba – é a análise de caracteres. Aí, para usar as palavras de Massaud Moisés, Machado de Assis revela “grande preocupação pela análise de caracteres e de situações de sondar o interior das personagens e das situações dramáticas, psicológicas, sociais, cômicas, etc.”- o que determina no caso de Machado de Assis, o processo “câmera lenta” usado pelo escritor na condução de sua obra. Daí Ter maior importância para o escritor a análise, ficando em segundo plano a intriga ou enredo do romance. É o que ocorre nas Memórias Póstumas de Brás Cubas. É o que ocorre também em Quincas Borba, onde, igualmente, o leitor “não achará o seu romance usual.” A grande preocupação de Machado no romance é em sondar a alma humana, em analisar-lhe os porquês das marchas e contramarchas. Observe-se que, no caso do Quincas Borba, a técnica machadiana é de sempre narrar um fato para depois analisá-lo.

      OBJETIVIDADE E IMPESSOALIDADE. De um modo geral, ao subjetivismo romântico opõe-se o objetivismo realista, pois aqui o escritor procura evitar sempre as emoções subjetivas, conduzindo a obra de maneira direta e objetiva. Assim, raramente o escritor realista interfere nos dramas vividos por suas personagens. São meros expectadores que, frios e impessoais, analisam esses dramas. É claro que, muitas vezes, alguma coisa fica do artista, pois a criatura sempre revela algum traço do seu criador. Embora dificilmente se retrate na sua obra, podemos afirmar com Viana Moog que, “ferido no seu orgulho pelo mal que o aflige (epilepsia), Machado de Assis vinga-se derramando sobre a humanidade a bílis do seu humour”. Daí a sua visão niilista e pessimista da vida onde só vê “insanidade e imperfeições imanentes.” É de ver-se também o que escreve Afrânio Coutinho, desenvolvendo a natureza objetiva e impessoal do movimento realista: “O Realismo encara a vida objetivamente. Não há intromissão do autor, que deixa as personagens e os circunstantes atuarem uns sobre os outros, na busca da solução. O autor não confunde seus sentimentos e pontos de vista com as emoções e motivos das personagens.” Embora não se aplique , cabalmente, esta característica na ficção de Machado de Assis, é possível entrever este espírito de precisão e de objetividade, de frieza e impessoalidade em Quincas Borba.

      NARRATIVA LENTA E PORMENORIZADA. Como já ressaltamos atrás, não interessa ao realista a ação, mas a análise das personagens, a sua sondagem psicológica. Deste modo, a narrativa realista é lenta e pormenorizada, cheia de paradas e vaivéns, ao contrário do romântico que se concentra mais na ação, na intriga que desenvolve. “Usam-se detalhes aparentemente insignificantes na pintura de personagens e ambientes. E esses detalhes devem ser reunidos e harmonizados, para dar a impressão da própria realidade”, ressalta Afrânio Coutinho.

      No caso de Quincas Borba, se comparado às Memórias Póstumas de Brás Cubas, podemos observar que os pormenores e reflexões que povoam este romance (as Memórias) são bem mais que naquele (Quincas Borba), pois, conforme Massaud Moisés, Machado de Assis “diligenciou por limpar o texto daquele excesso de reflexões morais e de interrupções no desenrolar das cenas, comuns no romance anterior (as Memórias). Parece que teve em mira de escrever um romance para ser lido e não ser analisado.” De qualquer modo, Quincas Borba não foge a essa norma do romance realista. Se não possui as interrupções e reflexões que caracterizam as Memórias, pelo menos não se pode dizer que Machado aqui ficou preso à história contada que “é trivial e comum, reduzindo-se a um adultério sonhado, desejado, preparado, que, afinal, não se consuma.” O romancista de Quincas Borba era bastante lúcido para não se perder em historinhas “água com açúcar” da farândola romântica.

      Assim, as reflexões, as paradas são constantes em Quincas Borba, como se podem ver no decorrer do romance.

      PREDOMINÂNCIA DO TEMPO PRESENTE. O Realismo retrata a vida contemporânea. Enquanto o romântico se volta ao passado ou se projeta no futuro, o realista se fixa no presente, porque o que lhe interessa é a vida que o rodeia. Deste modo, o escritor realista “encara o presente, nas minas, nos cortiços, nas cidades, nas fábricas, na política, nos negócios, nas relações conjugais, etc.” Muitas vezes descambando para os aspectos degradantes e deprimentes da sociedade, como é o caso do romance naturalista de Aluísio Azevedo, O Cortiço.

      Sem se prender às delimitações de tempo e espaço, pode-se afirmar que Quincas Borba é obra perene e imune à ação corrosiva do tempo: “é uma grande sátira da vida, de seus ingredientes e de suas verdades.

      O matiz irônico reside no ser Quincas Borba uma peça única da chacota à Humanidade desenfreadamente presa a certos dogmas de superfície única de olhar mais a fundo no íntimo dos problemas. A ironia atinge a todos e só se salvam (caso consigam), os loucos, os mansos e os animais irracionais. Como sempre, Machado de Assis vê a Humanidade a correr doidamente em busca de prazeres fáceis e duma vida que só é opróbrio e alienação, embora com toda a fisionomia de verdade, porque aceita como convenção ou imperativo moral da sociedade”, ressalta o crítico Massaud Moisés.

      ESTILO MACHADIANO

      PROCESSO LENTO E DETALHADO. Parece não haver melhor classificação do estilo de Machado de Assis do que traçado por ele mesmo nas memórias Póstumas de Brás Cubas, ao afirmar pela boca do defunto autor: “Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”

      Há muitas características que definem bem o estilo machadiano. Citaremos algumas no decorrer deste estudo serão apresentadas outras, também, muito importantes.

      Em Machado de Assis, o enredo não é o mais importante. A narrativa e o enredo estão subordinados aos estado de alma dos personagens.

      Os acontecimentos referidos não obedecem a uma ordem de causa e efeito. Você pode notar que não há uma preocupação em narrar uma estória, o importante é o tipo de reflexão, de pensamento que sugere o autor. Machado de Assis preocupa-se mais com o caráter dos personagens do que com a trama da narrativa ou a descrição de costumes.

      Como diz o próprio autor “o livro anda devagar” e “o meu estilo” é “como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param…” É mais ou menos assim que anda a narrativa de Quincas Borba.

      Às vezes, há antecipação, posposição ou intercorrência de acontecimentos, pela necessidade de desenvolvimento da narrativa, que ora se prende a um personagem, ora se liga a outro.

      HUMOR - IRONIA: O HUMANITISMO. O humor, como fenômeno literário, começou entre nós, a bem dizer, com as Memórias Póstumas de Brás Cubas. (Viana Moog).

      “Não se pode dizer que Machado de Assis tenha sido o maior dos humoristas do nosso tempo. Mas, se o calendário ainda tem algum sentido e significação, força é reconhecer que não há outro mais expressivo, por isso que foi o autor de Quincas Borba o primeiro a compreender toda a sua extensão, ainda sem meio dos deslumbramentos do século, o fracasso do homem no seu afã de domínio sobre a natureza e os enigmas tenebrosos da existência.”

      O tom que foi infundido à obra pareceu, a princípio, bastante exótico e estranho às nossas letras. Os críticos atribuíam às suas leituras inglesas o aparecimento deste humor. Mas, aos poucos os cultores do humor se multiplicaram em outras literaturas e desaparece a certeza da influência, exclusivamente, inglesa.

      Você pode notar que, em geral, o humorismo corta, na obra de Machado de Assis, uma digressão que parecia querer estender-se e, justamente quando o autor dá a impressão de querer desviar-se da profundidade da idéia, é que nos leva a considerá-la. Como exemplo, temos o capítulo CXVII:

      A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia e ache vulgar, vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia das Alagoas, Talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, - um triste molambo de mulher, - chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.

      — É minha, sim, seu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.

      — Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?

      O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom Padre Chagas! - Chamava-se Chagas. - Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa idéia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal aos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, - a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo idéias consoladoras. Bom Padre Chagas!”

      É genial o comentário que o autor faz sobre o casamento de Maria Benedita. Graças a epidemia das Alagoas, a prima Sofia se vê no caminho do matrimônio. É como o ébrio que diante do incêndio pede licença para acender o charuto.

      Machado de Assis usa o humor, também, como arma para lutar contra o pessimismo. Humor em que a gente ri da gente mesmo. Rir para não chorar. Riso com uma sobrecarga de amargura.

      Surge, então, o Humanitismo. Que é esta filosofia? É uma visão ir6onica das filosofias que pregam ser a humanidade feita de uma só essência. A teoria dos Humanitas nasce em oposição ao Humanismo. Nesta, o homem é o centro de tudo e há uma total valorização dele. No Humanitismo aparece o pensamento pessimista e absurdo. O homem não aprece como um ser maravilhoso e perfeito, mas cheio de falsidades, onde um cão pode ser mais amigo e fiel do que ele.

      — Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o princípio da vida e reside em toda parte, existe também no cão, e este pode ser assim receber um nome de gente, seja cristão ou muçulmano…”

      “O cão ouvindo, correu a cama. Quincas Borba, comovido, olhou para Quincas Borba:

      — Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu único amigo! (Cap. V)

      O homem é menos valorizado, no Humanitismo, não significa nada; é falso, instável e fraco. Podemos notar isto nos personagens machadianos. Tudo é igual. Na luta pela sobrevivência quem vence é o mais forte. “Ao vencedor as batatas.”

      — Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ira à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.(Cap. VI)

      Sim. “Ao vencedor as batatas”. Depois da morte de Quincas Borba, Rubião sente-se dono das batatas. É um vencedor. As batatas, para ele, representavam riqueza, posição social. Não sabia ele que, na realidade, representavam, simplesmente, meras batatas. Não tinham valor algum. Seriam, apenas, o veículo de sua destruição. E ele que até então não entendera a exposição do filósofo, passa a compreender a fórmula:

      — Ao vencedor, as batatas!

      Tão simples! tão claro! Olhou para as calças de brim surrado e o rodaque cerzido, e notou que até há pouco fora, por assim dizer, um exterminado, um bolha; ma que ora não, era um vencedor. Não havia dúvida; as batatas fizeram-se para a tribo que elimina a outra para transpor a montanha e ir às batatas do outro lado. Justamente o seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital. Cumpria-lhe ser duro e implacável, era poderoso e forte. E levantando-se de golpe, alvoroçado, ergueu os braços exclamando:

      — Ao vencedor, as batatas!” (Cap. XVIII)

      PESSIMISMO. Ao lado dessas observações, colocaremos outra característica o Pessimismo.

      O pessimismo está presente em toda a obra. Isto é devido, em grande parte, ao agravamento de sua doença, a epilepsia, mal que, latente na infância, acentua-se por volta dos 40 anos, determinando então seu radical cepticismo. É o que reconhece Viana Moog:

      Ferido no seu orgulho pelo mal que o aflige, Machado de Assis, vinga-se derramando sobra a humanidade a bílis do humor”. “O homem que proclamava, ao termo da primeira fase, que alguma coisa se salva ao naufrágio das ilusões, transforma-se em justiçador dos homens e da vida. Na vida só vê insanidade e imperfeição imanentes. Nos homens só se vêem imperfeições. Seus olhos não descansam enquanto não surpreendem em flagrante a deformação de todas as coisas. (Viana Moog)

      Em Quincas Borba, Machado de Assis vai retratar a sociedade pequeno-burguesa do Segundo Império, onde o importante era a moda, o vestuário luxuoso, os adornos, a habitação, os títulos honoríficos. O valor das pessoas estavam, apenas, na sua exterioridade. Veja alguns exemplos desta preocupação com o mundo exterior.

      Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara, e, enquanto lhe deitava o açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço…” (Cap. III)

      Fora, alguma gente parada; os vizinhos às janelas, debruçavam-se uns sobre os outros, com os olhos cheios daquela curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, havia o coupé do Rubião, que se destacava das caleça velhas. Já se falara muito daquele amigo do finado, e a presença confirmou a notícia. O defunto era agora apreciado com certa consideração. (Cap. CI)

      Quando Rubião perde o dinheiro e a lucidez, você já pode imaginar que, também, os amigos o deixam. Palha e Sofia, os que mais se beneficiaram com a fortuna de Rubião, agora se afastam dele e não têm tempo nem de interná-lo numa Casa de Saúde.

      É uma grande amolação, redargüiu este (Palha). E perguntou que interesse tinha Dona Fernanda em tomar àquele negócio. Que o tratasse ela mesma! Era uma atrapalhação Ter de cuidar de novo do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Doutor Teófilo. Um aborrecimento de todos os diabos. (Cap. XLXIV)

      É o interesse sempre presente no ser humano. Só existem “amigos” enquanto há alguma possibilidade de lucros materiais. Acaba-se o dinheiro, acabam-se as “amizades”.

      Mais uma característica poderá ser colocada ao lado destas – a sátira.

      O que é uma sátira? É uma caricaturização de tipos, situações políticas, situações amorosas, etc.

      Em Quincas Borba vamos encontrar vários exemplos.

      Dr. Camacho é o primeiro desta galeria, o qual representa bem a caricatura do politiqueiro demagogo.

      Camacho era homem político. Formado em direito em 1844, pela faculdade do Recife, voltara para a província natal, onde começou a advogar; mas a advocacia era um pretexto. Já na academia, escrevera um jornal político, sem partido definido, mas como muitas idéias colhidas aqui e ali, e expostas em estilo meio magro e meio inchado. Pessoa que recolheu esses primeiros frutos de Camacho fez um índice dos seus princípios e aspirações:

      - ordem pela liberdade, liberdade pela ordem; - a autoridade não pode abusar da lei, sem esbofetear-se a si própria; - a vida dos princípios é necessidade moral das nações novas como das nações velhas; - dai-me boa política, dai-vos-ei boas finanças; (Barão Louis); - mergulhemos no Jordão constitucional; - daí passagem aos valentes, homens do poder; eles serão os vossos sustentáculos, etc, etc.”(Cap. LVII).

      A sua linguagem é pomposa e enriquecida com constante uso do vocabulário latino. É o que vemos no capítulo CX:

      Os partidos devem ser unidos e disciplinados. Há quem pretenda (mirabile dictu!) que essa disciplina e união não podem ir ao ponto de rejeitar os benefícios que caem das mãos dos adversários. Risum teneatis! Quem pode proferir tal blasfêmia sem que lhe tremam as carnes? Mas suponhamos que assim seja, que a oposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo, à postergação das leis, aos excessos da autoridade, à perversidade e aos sofismas. Qui inde? Tais casos, - aliás, raros, - só podiam ser admitidos quando favorecessem os elementos bons, não ao maus. Cada partido tem os seus díscolos e sicofantas. É interesse dos nossos adversários ver-nos afrouxar, a troco da animação dada à parte corrupta do partido. Esta é a verdade; negá-lo é provocar-nos à guerra intestina, isto é, à dilaceração da alma nacional… Mas, não, as idéias não morrem; elas são o lábaro da justiça. Os vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locais e passageiros a vitória indefectível dos princípios. Tudo que não for isto ter-nos-á contra si Alea jacta est.”

      Carlos Maria – é a segunda caricatura da nossa galeria. É o conquistador, galanteador, o próprio “don Juan”. No capítulo LXXI, vamos ver um exemplo deste jovem enganador de corações femininos, como é o caso daquela frase bonita que dissera à Sofia e com a qual esta durante muito tempo sonhou:

      A noite era clara; fiquei cerca de uma hora , entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava comigo? Entretanto, eu quase que ouvia a sua respiração. O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; com esta diferença que o mar é estúpido, bate sem saber por quê, e o meu coração saber que batia pela senhora.”

      Sofia teve um calafrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo: “A noite era clara…”

      Mais adiante vamos ter a verdadeira face dos fatos. O que está pensando o Carlos Maria?

      Carlos Maria saboreou de memória toda a conversação da noite, mas, quando se lembrou da confissão de amor, sentiu-se bem e mal. Era um compromisso, um estorvo, uma obrigação; e, posto que o benefício corrigisse o tédio, o rapaz ficou entre uma e outra sensação, sem plano. Ao recordar-se da notícia que lhe deu de haver ido à praia do Flamengo, na outra note, não pôde suster o riso, porque não era verdade.(Cap. LXXIV)

      Há ainda caricaturas de parasitas (Freitas), amizades falsas (Palha), enfim, de todos os tipos de uma sociedade.

      Outros aspectos do estilo de Machado de Assis, ponderáveis em Quincas Borba são: o diálogo com o leitor; o gosto pelas citações, referências bíblicas, referências a capítulos anteriores e uma predileção muito grande por personagens bem estabelecidas, financeiramente, que agem com muita freqüência, de forma maquinal e inconsciente.

      PERSONAGENS. Na obra de Machado de Assis, o mais importante é o caráter dos personagens. Eles não estão presos à trama da narrativa. Movimentam-se num ambiente mais de reflexões do que de ação.

      É interessante você notar que o personagens são levados por uma força maior que eles. Ficam sempre passivos, e esta força determina-lhes as ações. Sempre é usada a expressão “deixou-se estar”, “deixou-se ficar”.

      Foi aqui que o pé direito de Rubião descreveu uma curva na direção exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas o esquerdo, tomado de sentimento contrário, deixou-se estar; lutaram alguns instantes…” (Cap. XLVII).

      Mais um exemplo é o capítulo que se segue:

      Na rua, encontrou Sofia com uma senhora idosa e outra moça. Não teve olhos para ver bem as feições destas; todo ele se foi pouco para Sofia. Falaram-se acanhadamente, dous minutos apenas, e seguiram o seu caminho. Rubião parou diante, e olhou para trás; mas as três senhoras iam andando sem voltar a cabeça. Depois do jantas, consigo:

      — Irei lá hoje?

      Reflexionou muito sem adiantar nada. Ora que sim, ora que não. Achara-lhe um modo esquisito; mas lembrava-se que sorriu, - pouco, mas sorriu. Pôs o caso à sorte. Se o primeiro carro que passasse viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, não. E deixou-se estar na sala, no pouf central, olhando. Veio logo um tílburi da esquerda. Estava dito; não ia a Santa Tereza. Mas aqui a consciência reagiu; queira os próprios termos da proposta: um carro. Tílburi não era carro. Devia ser o que vulgarmente se chama de carro, uma caleça inteira ou meia, ou ainda uma vitória. Daí a pouco vieram chegando da direita muitas caleças, que voltavam de um enterro. Foi.”(Cap. LXIII)

      Rubião, no íntimo, tinha vontade de ir à casa de Sofia. Se o tílburi viesse da direita, com certeza, ele não ligaria ao fato de não ser um carro. Mas daí a pouco vieram muitas caleças da direita. É muito curioso o fato de serem caleças que voltavam de um enterro. Poderá ser a coincidência, mas a partir dessa decisão, começa o “enterro” de Rubião. É a destruição que caminha a passos largos ao seu encontro. É a vida que se acaba rapidamente.

      ESTRUTURA DO ROMANCE

      Para estudarmos o romance Quincas Borba, falaremos sobre a ação, o tempo, o lugar e os personagens.

      AÇÃO. O leitor que vir a obra apenas por seu recheio romanesco, quer dizer, o enredo ou o entrecho, sairá desiludido da leitura, pois a história contada é trivial e comum, reduzindo-se a um adultério sonhado, desejado, preparado, que afinal não se consuma. Só teria curiosidade como coisa nova o fato de ser a não-realização do freqüente e usual delito do romance realista, a que Machado de Assis, indiretamente, estava ligado. Mas, esse mesmo aspecto pode frustar o leitor que apenas busque na leitura o contacto com a tramas das personagens e não deseje algo mais, que o romance pode e deve dar. E é por esse lado que Quincas Borba tem de ser olhado, porquanto, se a história é chocha em si, vale sempre e sempre o escritor que espalha pelo caminho uma quantidade de pérolas de humanidade e de literatura, muito mais importantes, convenhamos, ao final de consta, do que uma história bem contada. Tudo isso é complexo e surpreendente: ao contrário de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado procurou escrever uma história que pudesse agradar por si própria e não por aspectos marginais. Tanto é assim que diligenciou por limpar o texto daquele excesso de reflexões morais e de interrupções no desenrolar das cenas, comuns no romance anterior. Parece que teve em mira escrever um romance para ser lido e não para ser analisado, daí os poucos ou raros desvios do núcleo da obra, toda ela girando em torno duma paixão que não se consuma em crime, como se fazia prever desde as primeira páginas. (Massaud Moisés).

      A ação se passa no Rio de Janeiro, havendo um recuo no tempo até Barbacena, onde se passam fatos importantes que dão origem ao romance.

      Na Corte é retratada a vida de um grupo de burgueses. Todas as exigências de uma falsa sociedade são descritas. Machado de Assis disseca a alma humana numa visão assistemática da vida. Coloca a nu a ambição, a avareza, as hipocrisias da sociedade.

      A narrativa se fecha em Barbacena, onde Rubião aparece louco. É o círculo da vida. O fim de Rubião é o mesmo de Quincas Borba e tudo termina no mesmo lugar onde inicia – Barbacena.

      A ação, portanto, se concentra em Rubião – Sofia. Mas há núcleos secundários, de real importância, como é o próprio da estrutura do romance; Sofia- Palha, Quincas Borba (cão e filósofo),

      Teófilo-Fernanda, Carlos Maria-Maria Benedita, Dr. Camacho, Major Siqueira-D. Tonica, Freitas, etc.

      TEMPO. É outro aspeto ponderável no estudo de um romance a determinação do tempo. Como é fácil observar, a ação decorre na Segunda metade do século XIX, como se pode aprender das diversas referências a personalidades políticas e fatos históricos da época.

      Não se pode dizer que o desenvolvimento do tempo é rigorosamente cronológico, havendo, às vezes, recuos que podem lembrar o tempo psicológico, como é o caso da história dos enforcados (cap. XLVII) a que Rubião “assiste” muito tempo depois.

      Portanto, os acontecimentos ocorrem na época do segundo império e não evoluem numa cronologia exata. À medida que há necessidade de esclarecimento, volta-se atrás e quando nada acontece de interessante há um salto sobre o tempo:

      Vem comigo, leitor; vamos v6e-lo; meses antes, à cabeceira do Quincas Borba (cap. III).

      Este é o convite feito pelo narrador e, a partir daí, durante 23 capítulos, acompanhamos a vida de Rubião em Barbacena até ele vir para a Corte.

      LUGAR. Como já foi dito, a ação inicia e termina em Barbacena, sendo que todos os fatos intermediários ocorrem na Corte.

      É importante notarmos que, apesar de ser especificado o local, este romance poderá ser enquadrado em qualquer parte do mundo. A temática é universal. Há muitos “Palhas e Sofias” por este mundo… Há muitas “Barbacenas” – princípio e fim de tudo, e muitas “Cortes” que, com seus encantos, envolvem e destroem o ser humano, como Rubião e o Quincas Borba, cão e filósofo, esmagados pela loucura da humanidade.

      PERSONAGENS. As personagens de um romance são, evidentemente, as pessoas que vivem situações e dramas dentro da narrativa. Normalmente, só “gente” pode ser personagem de romance. Às vezes, “animais” também participam de romances e contos, como tem acontecido com freqüência na literatura moderna. É o caso de Quincas Borba, o cão, elevado à categoria de personagem do romance machadiano, como projeção e prolongamento, por metempsicose, do filósofo do mesmo nome.

      a) Quincas Borba: em síntese, Quincas Borba se destaca pelos seguintes atributos: filósofo doido, esquisito, “com freqüente alteração de humor”, “ímpetos sem motivo”, “ternura sem proporção”, extravagante (cap. V), bom, alegre, lutava contra o pessimismo (cap. V) e desejava a sua continuidade através dos tempos como comprova a sua filosofia “borbista”, de natureza “humorística”, o Humanitismo. Depois que morreu, passou, por metempsicose, ao corpo do seu cão, como sugerem as dúvidas de Rubião ao longo da narrativa:

      “Olhou para o cão, enquanto esperava que lhe abrissem a porte. O cão olhava para ele, de tal jeito que parecia estar ali dentro o próprio e defunto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do filósofo, quando examinava negócios humanos…” (cap. XLIX).

      Como ressalta o crítico Massaud Moisés, “encarnado-se em seu cachorro, Quincas Borba continuou a exercer enorme influência, pois eu fiel amigo é um contraponto constante na evolução dos acontecimentos, pelas vezes em que aparece contracenando com Rubião. A preeminência indiscutível do animal sobra s demais personagens, com exceção do Rubião, justifica-se por aquele intuito satírico geral que orienta a obra, levando o leitor a pensar em como apenas um cão se salva do mundo de misérias em que vivem as demais criaturas do romance. Se não se trata de elogio de animalidade inconsciente, ou da mera inconsciência, pois Quincas Borba é um cão diferente dos outros, por trazer dentro de si um filósofo idealista e sonhados, é, sem sombra de dúvida, um recurso de fábula semelhante aos usados por La Fontaine, um dos escritores mais apreciados por Machado de Assis”.

      b) Rubião: de um modo geral, Rubião se caracteriza assim no romance: tem medo da opinião pública, é indeciso, volúvel, ambicioso (cap. I, X, XV), megalomaníaco, obsessivo, desequilibrado, tímido (cap. XXV), acomodado, ciumento, influenciável (cap. LXIX), conflituoso, ocioso, ingênuo.

      A sua megalomania, que o levará à sandice, tem desenvolvimento sutil e velado ao longo da narrativa: “A outra gente, que estava à porta e na calçada fez-lhe alas” (cap. LX); “Rubião teve aqui um impulso inexplicável, - dar-lhes a mão a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de si próprio” (cap. XCI); “Tinha os olhos úmidos; acabou, saiu, ladeado pelos outros, e, à porta, com uma só chapelada para a direita e para a esquerda, saudou a todas as cabeças descobertas e curvas. Ao entrar no coupé, ainda ouviu estas palavras, a meia voz:

      — Parece que é senador ou desembargador, ou cousa assim”(cap. CI)

      Depois a megalomania vai aumentando claramente, à medida que sua herança decresce: é a loucura que está chegando com Napoleão III e a imperatriz Eugênia.

      Enfim, à proporção que vai “enlouquecendo”, Rubião vai ficando cada vez mais “lúcido” – herdeiro da fortuna e do espírito do filósofo Quincas Borba, escapando, assim, à chacota e à sátira machadianas, a que são os únicos no livro, além do cão, que conseguem escapar. É que Machado de Assis só sabe ver o mundo através da “loucura e do delírio”.

      c) Sofia: em linhas gerais, o perfil de Sofia, no romance, se delineia assim: vaidosa, orgulhosa, dominadora, fria, cautelosa, ambiciosa, sedutora, caráter ambivalente, frívola, sensual e dissimulada, como revela o cap. LXIX e o excelente cap. XLII, onde se saiu divinamente bem com a anedota do Padre Mendes, quando surpreendida, no jantar, com Rubião, pelo Major Siqueira:

      “— Olá! Estão apreciando a lua? Realmente, está deliciosa; está uma noite para namorados… Sim, deliciosa… Há muito que não vejo uma noite assim… Olhem só para baixo, os bicos de gás… Deliciosa! Para namorados… Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em Icaraí…

      Era Siqueira, o terrível major. Rubião não sabia que dissesse; Sofia, passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma; respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubião teimava dizer que as noites do Rio não podiam comparar-se às de Barbacena, e, a propósito disso, referira uma anedota de um padre Mendes… Não era Mendes?

      — Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou Rubião.

      O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mão presas, a cabeça do Rubião meio inclinada, o movimento rápido de ambos, quando ele entrou no jardim; e sai-lhe de tudo isto um padre Mendes… Olhou para Sofia; viu-a risonha, tranqüila, impenetrável. Nenhum medo, nenhum acanhamento; falava com tal simplicidade, que o major pensou ter visto mal. Mas Rubião estragou tudo. Vexado, calado, não fez mais que tirar o relógio para ver as horas, levá-lo ao ouvido, como se lhe parecesse que não andava, depois limpá-lo com o lenço, devagar, devagar, sem olhar para um nem para outro…”

      Lembremos aqui a Capitu de Dom Casmurro com seus “olhos de ressaca” e natureza dissimulada, como fica explicitado ao longo do romance.

      Mas, por falar em olhos, você notou a importância que Machado de Assis dá aos olhos de Sofia? Parece de propósito, como observa Cavalcanti Proença: os olhos seriam as janelas da alma. Afirmações do livro parecem confirmar a observação do crítico, como esta do cap. L:

      “Rubião olhava para ela muita vez, é certo; parece também que Sofia, em algumas ocasiões, pagava os olhares com outros… Concessões de moça bonita! Mas, enfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios deles. Não havia de ter ciúmes do nervo óptico, ia pensando o marido.”

      Noutra passagem, anotamos este encontro de Palha e Camacho carregado de humor:

      Palha e Camacho olharam um para o outro… Oh! esse olhar foi como um bilhete de visita trocado entre duas consciências. Nenhuma disse o seu segredo, mas viram os nomes no cartão, e cumprimentaram-se”.

      Enfim, concluindo, como ressalta Massaud Moisés, “seu papel acaba por ser duplo, pois representa a luxúria elegante e, ao mesmo tempo, serve de campo de prova para todo o drama de Rubião.

      d) Palha: ambicioso, egocêntrico, vaidoso (cap. XXXV), bajulador, interesseiro, parasita, desonesto, astuto, torpe. “Rotulado por um nome que já lhe traduz o caráter e a personalidade, também se atira ao dinheiro e à posição social como se estivesse no caminho certo”.

      Vagamente pensava em baronia, diz Machado no cap. CXXIX.

      e) Carlos Maria: vaidoso, altivo (cap. LXIX), vazio, galanteador: é a caricatura do conquistador de frases feitas e lugares-comuns. Um aspecto que lhe é bastante característico é o de divindade, que Machado ironiza a toda hora. Casou-se para ser “adorado” pela esposa.

      f) Maria Benedita: tímida, pacata, sem iniciativa, passiva, resignada, influenciável, personalidade fraca. Seu casamento com Carlos Maria que, à primeira vista, significou o encontro da felicidade tão longamente sonhada, não passa de um ludíbrio, em virtude do pouco amor que Carlos Maria lhe dedicava.

      g) Dr. Camacho: é caricatura do politiqueiro demagogo de frase feita e retórica excessiva; astuto e interesseiro.

      h) Major Siqueira: mexeriqueiro, inicialmente, e depois despeitado como se revela no cap. CXXX.

      i) D. Tonica: o desespero desta “solteirona quarentona” já começa pelo nome: D. Tonica. Revela-se invejosa, revoltada, infeliz e frustrada.

      j) D. Fernanda: casamenteira e um tanto fidalga. No mais, uma boa senhora e esposa dedicada que sabe consertar a gravata do marido nas horas necessárias… (modelo para as menininhas de hoje que nem consertam gravatas nem colarinhos…).

      k) Teófilo: é o marido da superesposa acima: ambicioso, dinâmico e, às vezes, temperamental e minucioso, como no caso do “u” pelo “i” do cap. CXIX, em que um jornal torce todo o sentido da frase que escrevera: “Na dúvida, abstém-te, é o conselho do sábio. E puseram: Na dívida abstém-te… É insuportável!” comenta, quase chorando, o Teófilo que era forte candidato ao ministério…

      m) Freitas: caricatura do parasita e dos glutões de jantares e de charutos alheios. Deus que o tenha na sua santa glória!

      PROBLEMÁTICA APRESENTADA

      Para concluirmos este trabalho, parece-nos importante destacar aqui três aspectos ponderáveis no romance: a nulidade da vida, numa visão niilista e pessimista’; a apresentação de uma sociedade falsa e carcomida pelo câncer da hipocrisia e da ambição; e a indiferença dos astros do céu diante dos problemas do homem.

      A seguir, procuraremos desenvolver esses três aspectos:

      NIILISMO-PESSIMISMO. Sem dúvida, como ressalta o crítico Massaud Moisés, “o livro todo é uma grande sátira da vida, de seus ingredientes e de suas “verdades” (…) A ironia atinge a todos e só se salvam (caso o consigam), os loucos, os mansos e os animais irracionais”.

      O romance é uma visão fria e impassível da vida. Lúcido como sempre, pessimista e niilista, Machado de Assis vai dissecando com sua câmera lenta toda a humanidade, corroída e carcomida pelo câncer da hipocrisia e da falsidade, espalhando por toda a terra e suas criaturas a sua “bílis” de epiléptico e de mestiço da sociedade. Tudo perpassado de uma visão irônica, de um humor niilista e pessimista que sempre marca a literatura machadiana. Em suma, é uma visão da vida que só a lucidez de um espírito louco, como Quincas Borba, pode dar: a humanidade desenfreadamente louca a buscar prazeres fáceis e fugazes, numa vida que só é opróbrio e alienação, embora com toda a fisionomia de verdade, porque aceita como convenção o imperativo moral da sociedade. No fim, a vida não passa de uma batatada: come-a a tribo vencedora - “ao vencedor as batatas”. Ao cabo de tudo, os “heróis” da vida pegam nada, levantam nada e cingem nada, como aconteceu com o Rubião:

      Poucos dias depois morreu… Não morreu súdito nem vencido. Antes de principiar a agonia que foi curta, pôs a coroa na cabeça, - uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútilas brilhantes e outras pedras preciosas(cap. CC).

      Enfim, é assim a vida humana; achamos que temos na cabeça uma coroa de ouro, quando, na verdade, tudo não passa de um chapéu velho ou coisa semelhante.

      Mas Rubião é apenas um símbolo - “o fenômeno é universal”- e a vida, haveria de continuar corredia e besta como ela é, ad saecula saeculorum, amen…

      HIPOCRISIA-AMBIÇÃO. Dentro dessa perspectiva niilista e pessimista é que Machado situa a sociedade que retrata - sociedade hipócrita e falsa, interesseira e fútil, incapaz de olhar mais a fundo no íntimo dos problemas.

      Em volta do Rubião formou-se a constelação de parasitas e ambiciosos. Quem se salva entre eles? - Talvez apenas o cão, o único que era capaz de receber um pontapé e voltar correndo para o seu dono. Acaso alguém se interessou, realmente, pelo Rubião, quando este perdeu toda a sua fortuna? Entretanto, ele tivera “amigos”. A casa vivia cheia deles.

      Enfim, tudo gira em torno do interesse e da ambição e para combatê-los só resta a ironia e humor. Nada escapa à análise dissecante de Machado nem a troca de um “u” por um “i” nem a estrutura secular do matrimônio indissolúvel. Afinal, como pensava D. Fernanda, a propósito do casamento, “um marido, ainda mau, é sempre melhor que o melhor dos sonhos”… (cap. CXVIII).

      INDIFERENÇA CÓSMICA. Acaba-se o mundo, chore quem quiser, ria, gargalhe a humanidade, que os astros do céu pouco estão ligando para os risos e lágrimas humanas. Ficarão sempre firmes e inabaláveis, longe das intempéries do planeta dos homens. Assistirão,, com a mesma indiferença e impassibilidade de sempre, “às bodas de Jacó e ao suicídio de Lucrécia” (cap. XLVI).

      Este é outro aspecto marcante do romance: a indiferença cósmica com que Machado de Assis vai fechar o seu livro. A passagem se refere à morte do Rubião e do cão Quincas Borba:

      Eia! Chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma cousa. O cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens(cap. CCI)

      PROF. TEOTÔNIO MARQUES FILHO

12 08

NAS COXAS
As primeiras telhas do Brasil eram feitas de argila moldada nas coxas dos escravos.
Como os escravos variavam de tamanho e porte físicos, as telhas ficavam desiguais.
Daí a expressão fazendo nas coxas, ou seja, de qualquer jeito.    

VOTO DE MINERVA 
Na Mitologia Grega, Orestes, filho de Clitemnestra, foi acusado de tê-la assassinado.
No julgamento havia empate entre os jurados, cabendo à deusa Minerva, da Sabedoria, o voto decisivo. 
O réu foi absolvido, e Voto de Minerva é, portanto, o voto decisivo.   

CASA DA MÃE JOANA 
Na época do Brasil Império, mais especificamente durante a menoridade do
Dom Pedro II, os homens que realmente mandavam no país costumavam se encontrar num prostíbulo do Rio de Janeiro cuja proprietária se chamava Joana. Como, fora dali, esses homens mandavam e desmandavam no país, a expressão casa da mãe Joana ficou conhecida como sinônimo de lugar em que ninguém manda.  

CONTO DO VIGÁRIO
Duas igrejas de Ouro Preto receberam, como presente, uma única imagem de determinada santa, e, para decidir qual das duas ficaria com a escultura, os vigários apelaram à decisão de um burrico. Colocaram-no entre as duas paróquias e esperaram o animalzinho caminhar até uma delas. 
A escolhida pelo quadrúpede ficaria com a santa. E o burrico caminhou direto para uma delas…
Só que, mais tarde, descobriram que um dos vigários havia treinado o burrico, e conto do vigário passou a ser sinônimo de falcatrua e malandragem.  

A VER NAVIOS 
Dom Sebastião, jovem e querido rei de Portugal (sec XVI), desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos. Provavelmente morreu, mas seu corpo nunca foi encontrado. 
Por isso o povo português se recusava a acreditar na morte do monarca, e era comum que pessoas subirem ao Alto de Santa Catarina, em Lisboa, na esperança de ver o Rei regressando à Pátria. Como ele não regressou, o povo ficava a ver navios. 

 NÃO ENTENDO PATAVINAS 
Os portugueses tinham enorme dificuldade em entender o que falavam os frades italianos patavinos, originários de Pádua, ou Padova.
Daí que não entender patavina significa não entender nada.  

DOURAR A PÍLULA 
Antigamente as farmácias embrulhavam as pílulas amargas em papel dourado para melhorar o aspecto do remedinho.
A expressão dourar a pílula significa melhorar a aparência de algo ruim.   

SEM EIRA NEM BEIRA
Os telhados de antigamente possuíam eira e beira, detalhes que conferiam status ao dono do imóvel. Possuir eira e beira era sinal de riqueza e de cultura. Estar sem eira nem beira significa que a pessoa é pobre e não tem sustentáculo no raciocínio 

12 08

Mesmo que você saiba de todas essas formas corretas, não custa revê-las sempre que surgirem dúvidas.
 
Nunca diga:- Menas (sempre menos)
- Iorgute (iogurte)
- Mortandela (mortadela)
- Mendingo (mendigo)
- Trabisseiro (travesseiro) - essa é de doer, hein!
- Cardaço (cadarço)
- Asterístico (asterisco)
 - Meia cansada (meio cansada)

E lembre-se:

- Mal - Bem
- Mau - Bom 

-Trezentas gramas (a grama pode ser de um pasto). Se você quer falar de peso, então é O grama: trezentOs gramas.

- Di menor, di maior (é simplesmente maior ou menor de idade).

- Beneficiente (beneficente - lembre-se de Beneficência Portuguesa)

- O certo é BASCULANTE e não VASCULHANTE, aquela janela do banheiro ou da cozinha. 

- Se você estiver com muito calor, poderá dizer que está “suando” (com u) e não “soando”, pois quem “soa” é sino !

 - A casa é GEMINADA (do latim geminare = duplicar) e não GERMINADA que vem de germinar, nascer, brotar.

- O peixe tem ESPINHA (espinha dorsal) e não ESPINHO. Plantas têm espinhos.

- Homens dizem OBRIGADO
e mulheres OBRIGADA.  

-”FAZ dois anos que não o vejo“ e não “FAZEM dois anos”

- “HAVIA muitas pessoas no local” e não “HAVIAM”

- “PODE HAVER problemas” e não “PODEM HAVER….”
(os verbos fazer e haver são impessoais!!)

- PROBLEMA e não POBLEMA ou POBREMA

- A PARTIR e não À PARTIR

- O certo é HAJA VISTA (que se oferece à vista) e não HAJA VISTO. - POR ISSO e não PORISSO (muito comum nas páginas de recado do orkut, junto com o AGENTE pode marcar algo… Se é um agente, ele pode ser secreto, aduaneiro, de viagens…) A GENTE = NÓS        

- O certo é CUSPIR e não GOSPIR.         

- HALL é RÓL não RAU, nem AU. 

 - Para EU fazer, para EU comprar, para EU comer e não para MIM fazer, para mim comprar ou para mim comer…  

- MIM não conjuga verbo, apenas
“eu, tu, eles, nós, vós, eles” 

- Você pode ficar com dó (ou com um dó) de alguém, mas nunca com “uma dó”; a palavra dó no feminino é só a nota musical (do, ré, mi, etc etc.)

- As pronúncias: CD-ROM é igual a ROMA sem o A. Não é CD-RUM (nem CD-pinga, CD-vodka etc).  ROM é abreviatura de Read Only Memory - memória apenas para leitura. 

  •  Não é        

 “eu vou ESTAR mandando”  

 ”vou ESTAR verificando”

  “vou ESTAR passando”

  • E Sim:

  ” vou mandar”

  ”vou verificar”

  ” vou PASSAR”
                   

 Da mesma forma é incorreto perguntar:COM QUEM VOCÊ QUER ESTAR FALANDO?

- Veja como é o correto e mais simples: COM QUEM VOCÊ QUER FALAR?

- Ao telefone não use: Quem gostaria?

 - Não use: peraí, agüenta aí, só um pouquinho, prefira: Aguarde um momento, por favor.  

 -  Por favor, arranquem os malditos SEJE e ESTEJE do seu vocabulário (estas palavras não existem!!)

- Não é elegante você tratar ao telefone, pessoas que não conhece, utilizando termos como:
querido(a), meu filho(a), meu bem, amigo(a)… (a não ser que você esteja ironizando-a(o).
Utilize o nome da pessoa ou senhor(a). 

11 24

Advérbio é a palavra invariável que modifica o sentido do verbo, acrescentando a ele determinadas circunstâncias de tempo, de modo, de intensidade, de lugar, etc. Ex.

Um lindo balão azul atravessava o céu.
Um lindo balão azul atravessava lentamente o céu.

Nesse caso, lentamente modifica o verbo atravessar, pois acrescenta uma idéia de modo. Os advérbios de intensidade têm uma característica particular, pois além de intensificar o verbo, eles podem intensificar o sentido de adjetivos e de outros advérbios. Ex.

Nosso amigo é inteligente demais.
As encomendas chegaram muito tarde.

• Locução Adverbial

Locução adverbial é toda expressão formada por mais de uma palavra e que funciona como advérbio. Ex.

As notícias chegaram cedo.
As notícias chegaram de manhã.

• Classificação do Advérbio

Dependendo da circunstância que expressam, os advérbios classificam-se em:

Lugar: lá, aqui, acima, por fora, etc.
Modo: bem, mal, assim, devagar, às pressas, pacientemente, etc.
Dúvida: talvez, possivelmente, acaso, porventura, etc.
Negação: não, de modo algum, de forma nenhuma, etc.
Afirmação: sim, realmente, com certeza, etc.
Intensidade: muito, demais, pouco, tão, menos, em excesso, etc.
Tempo: agora, hoje, sempre, logo, de manhã, às vezes, etc.

• Palavras Denotativas

Existem palavras e locuções semelhantes aos advérbios, as palavras denotativas, que indicam idéia de:

Inclusão: até, mesmo, inclusive, etc.
Exclusão: só, apenas, menos, etc.
Retificação: isto é, aliás, ou melhor, etc.
Explicação: por exemplo, ou seja, etc.

11 24

Mas/Mais:

Mas: conjunção adversativa, equivale a porém, contudo, entretanto:
Ex.: Tento não sofrer, mas a dor é muito forte.

Mais: pronome ou advérbio de intensidade, opõe-se a menos:
Ex.: É um dos garotos mais bonitos da escola.

Onde/Aonde:

Onde: lugar em que se está ou que se passa algum fato:
Ex: Onde você foi hoje?

Aonde: indica movimento (refere-se a verbos de movimento):
Ex: Aonde você vai?

Que/Quê

Que: pronome, conjunção, advérbio ou partícula expletiva:
Ex: Convém que o assunto seja esquecido rapidamente.

Quê: monossílabo tônico, substantivo, ou interjeição.
Ex: Você precisa de quê?

Mal/Mau

Mal: advérbio (opõe-se a bem), como substantivo indica doença, algo prejudicial:
Ex: Ele se comportou muito mal. (advérbio)
Ex: A prostituição infantil é um mal presente em todas as partes do Brasil. (substantivo)

Mau: adjetivo (ruim, de má qualidade)
Ex: Ele não é um mau sujeito.

Ao encontro de/De encontro a

Ao encontro de: significa “ser favorável a”, “aproximar-se de”.
Ex: Quando avistei minha mãe fui correndo ao encontro dela.

De encontro a: indica oposição, colisão.
Ex: Suas idéias sempre vieram de encontro às minhas. Somos mesmo diferentes.

Afim/A fim

Afim: adjetivo que indica igual, semelhante.
Ex: Temos objetivos afins.

A fim: indica finalidade:
Ex: Trabalho hoje a fim de folgar amanhã.

A par/ Ao par

A par: sentido de “bem informado”
Ex: Eu estou a par de todas as fofocas.

Ao par: indica igualdade entre valores financeiros.
Ex: O real está ao par do dólar.

Demais/De mais

Demais: advérbio de intensidade, sentido de “muito”.
Ex: Você é chato demais.
Demais também pode ser pronome indefinido, sentido de “os outros”.
Ex: Alguns professores saíram da sala enquanto os demais permaneceram atentos às orientações.

De mais: opõe-se a de menos.
Ex: Não vejo nada de mais em seu comportamento.

Senão/Se não

Senão: sentido de “caso contrário”, “a não ser”.
Ex: não fazia coisa alguma senão conversar.

Se não: sentido de “caso não”.
Ex: Se não houver conscientização, haverá escassez de água.

Na medida em que/ À medida que

Na medida em que: equivale a porque, já que, uma vez que.
Ex: Na medida em que os projetos foram abandonados, os estagiários ficaram desmotivados.

À medida que: indica proporção, equivale a à proporção que.
Ex: A emoção aumentava à medida que o momento da apresentação se aproximava.

11 24

O uso dos porquês é um assunto muito discutido e traz muitas dúvidas. Com a análise a seguir, pretendemos esclarecer o emprego dos porquês para que não haja mais imprecisão a respeito desse assunto.

Por que

O por que tem dois empregos diferenciados:

Quando é a junção da preposição por + pronome interrogativo ou indefinido que tem o significado de “por qual razão” ou “por qual motivo”:

Exemplo: Por que você não vai ao cinema?
Não sei por que não quero ir.

Quando é a junção da preposição por + pronome relativo que tem o significado de “pelo qual” e poderá ter as flexões: pela qual, pelos quais, pelas quais.

Exemplo: Sei bem por que motivo permaneci neste lugar.

Por quê

Quando vier antes de um ponto, seja final, interrogativo, exclamação, o porquê deverá vir acentuado e continuará com o significado de “por qual motivo”, “por qual razão”.

Exemplos: Vocês não comeram tudo? Por quê?
Andar cinco quilômetros, por quê? Vamos de carro.

Porque

É conjunção causal ou explicativa, com valor aproximado de “pois”, “uma vez que”, “para que”.

Exemplos: Não fui ao cinema porque tenho que estudar para a prova.
Não vá fazer intrigas porque prejudicará você mesmo.

Porquê

É substantivo e tem significado de “o motivo”, “a razão”. Vem acompanhado de artigo, pronome, adjetivo ou numeral.

Exemplo: O porquê de não estar conversando é porque quero estar concentrada.
Diga-me um porquê para não fazer o que devo.

11 24

A ou Há?

Para saber se você deve usar “a” ou “há” apresentamos aqui algumas dicas para facilitar a eliminação de dúvidas a esse respeito:

Usa-se “há” quando o verbo “haver” é impessoal, tem sentido de “existir” e é conjugado na terceira pessoa do singular.

Exemplo: Há um modo mais fácil de fazer essa massa de bolo.
Existe um modo mais fácil de fazer essa massa de bolo.

Ainda como impessoal, o verbo “haver” é utilizado em expressões que indicam tempo decorrido, assim como o verbo “fazer”.

Exemplos: Há muito tempo não como esse bolo.
Faz muito tempo que não como esse bolo.

Logo, para identificarmos se utilizaremos o “a” ou “há” substituímos por “faz” nas expressões indicativas de tempo. Se a substituição não alterar o sentido real da frase, emprega-se “há”.

Exemplos: Há cinco anos não escutava uma música como essa.
Substituindo por faz: Faz cinco anos que não escutava uma música como essa.

Quando não for possível a conjugação do verbo “haver” nem no sentido de “existir”, nem de “tempo decorrido”, então, emprega-se “a”.

Exemplos: Daqui a pouco você poderá ir embora.
Estamos a dez minutos de onde você está.

Importante: Não se usa “Há muitos anos atrás”, pois é redundante, pleonasmo. Não é necessário colocar “atrás”, uma vez que o verbo “haver” está no sentido de tempo decorrido.

Ao invés, invés ou em vez de?

Muita dúvida surge no emprego de “ao invés”, “invés” ou “em vez de” e é comum, uma vez que são muito semelhantes na grafia e também no significado.

Primeiramente, o termo “invés” é substantivo e variante de “inverso” e significa “lado oposto”, “avesso”. Na expressão “ao invés”, o substantivo “invés” continua com o mesmo significado, contudo, é utilizada para indicar oposição a algo ou alguma coisa e, portanto, significa “ao contrário de”. Geralmente vem acompanhada da preposição “de”.

Observe:

A empresa de cobrança ao invés de enviar o boleto de julho, enviou o de junho.

Ao invés de protestar seu nome, lhe concederei uma nova chance.

O termo “invés” é substantivo e variante de “inverso” e significa “lado oposto”, “avesso”.

Já a expressão “em vez de” é mais empregada com o significado de “em lugar de”, porém, pode significar “ao invés de”, “ao contrário de”. Observe:

A menina assistiu TV em vez de filme. ( não poderá ser usado “ao invés de”, pois não há oposição de termos).

A professora, em vez de diminuir a nota do aluno, aumentou. (a expressão “em vez de” poderia ser substituída por “ao invés de”, pois temos termos contrários “diminuir” e “aumentou”).

Se “em vez de” pode significar “ao invés de”, como poderemos identificar o emprego de ambas as expressões?

A expressão de “em vez de” pode ser empregada em múltiplas circunstâncias, desde que seus significados sejam mantidos. Já “ao invés de” poderá ser aplicada somente quando há termos que indicam oposição na frase, significando “ao inverso de”.

Acerca de ou há cerca de

Na expressão “há cerca de” está inserido o verbo “haver” no sentido de tempo decorrido, sem saber o período com exatidão de dias, meses ou anos. Aproxima-se do sentido de “faz” quando também se refere a tempo. Na dúvida substitua o verbo “há” por “faz”. Observe:

Lembramos que a revolução ocorreu cerca de meio século atrás. (faz cerca de)

Já o termo “acerca” ou a locução prepositiva “acerca de” têm significado de: “a respeito de”, “sobre algo”. Veja:

Falávamos acerca de sua resposta à professora.
Não falei nada acerca disso.

Tampouco ou tão pouco

Tampouco significa “também não” e é advérbio. Geralmente, é usado na expressão “nem tampouco” para enfatizar o sentido de negação. Veja:

Não sei escrever esta palavra, você tampouco.
Não verifiquei se minha grafia está correta, nem tampouco a pontuação.

Tão pouco significa “muito pouco” e refere-se à medida (de tempo, de valor). Observe:

Faz tão pouco tempo que estamos trabalhando!
Que bom, o sapato que quero comprar custa tão pouco!

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