Resumo:
O presente artigo discute a questão do egoísmo, como tratado por Nietzsche em sua Conferência Sobre o Futuro de Nossos Estabelecimentos de Ensino, nos dias de hoje na escola pública.
O EGOÍSMO DA UTILIDADE
Nietzsche emprega na III Consideração Intempestiva a palavra egoísmo para tratar de certos aspectos da sociedade de seu tempo que atrapalhava a formação do gênio e das instituições de ensino capaz de formá-lo. A expressão egoísmo nos parece muito peculiar, com uma capacidade de expressar um dado traço da sociedade de seu tempo singular. Essa palavra é uma daquelas que entre várias outras possíveis é ela que revela a totalidade de algo. Os tipos de egoísmo são: O egoísmo do Estado, do comerciante, dos entediados e fúteis e, por fim, dos cientistas. A marca de todos: interpor propósitos outros que não os culturais no caminho da formação da autêntica cultura.
Em uma atualização do discurso de Nietzsche sobre essa questão veremos que pouco mudou. Aliás, MARTON nos diz que a atualidade de Nietzsche nos assusta. A batalha de Nietzsche nas Conferências como na III Consideração Intempestiva é para denunciar que a formação propriamente humana era sempre contingenciada. Podemos é claro notar o que é fruto da mentalidade de seu tempo[1], mas excetuando isso, teremos ainda um saldo relevante na análise de Nietzsche. Sua querela era chamar a atenção para o que em seu tempo já se assinalava: a redução do horizonte humano ao do mercado, ao da técnica. Como já assinalamos no Capítulo II, a Alemanha de Nietzsche tinha uma realidade educacional de universalização da formação da juventude. Realidade que nos parece desejável nos dias de hoje no Brasil, porém, quando olhada de perto vamos ver que por detrás dessa universalização não se promove a pessoa humana. Há é uma falsa cultura, a idéia de escola para todos tem na sua porta a placa: aqui se vive com mais amor, com mais humanidade, aqui se é mais ser humano. Contudo, tais dizeres só ficam na porta de entrada, pois lá dentro o que impera são aqueles egoísmos.
E essa é a operação que precisamos fazer para melhor compreender a crítica de Nietzsche. No fundo a briga do autor não contra o bem estar das pessoas. Sua querela é em denunciar que é falsa a relação que se vende de educação e bem estar social. Quem promete tudo isso é um mentiroso, pois no ambiente escolar o que se vê é uma falsa promessa de felicidade que na prática não é possível. A cultura jornalística que impera no jeito de escrever, por exemplo, é uma saída cômoda para o duro caminho a que deveria passar o educando no aprendizado da língua.
Essa é uma vertente que as denúncias de Nietzsche nos alerta. Não se trata de ser contrário ao bem estar das pessoas, mas de denunciar que as promessas dos egoísmos são falsas; são na verdade egoísmos, interesses outros e não a própria formação da juventude.
Nos dias hoje vemos o egoísmo do mercado de trabalho ditando o que a juventude tem que estudar. A escola fundamental é toda ela voltada para outros fins que não a própria juventude. Essa fase da formação não procura desenvolver a autêntica cultura, mas está toda ela voltada para passar no vestibular, no caso das classes mais ricas, e ingressar no mercado de trabalho, no caso da grande maioria da juventude pobre e estudante de escola pública. Observamos, então, prevalecer o egoísmo do mercado de trabalho nos processos educacionais da escola. Os discursos que essas instituições propagam em seus projetos pedagógicos no fundo sempre escondem essa verdade que é a sua determinação segundo o mercado.
Pensando um Nietzsche de O Nascimento da Tragédia podemos dar um passo seguinte. Para uma escola que se vê em vistas do mercado de trabalho devemos pensar em uma escola que não seja submissa a essa relação. Certamente parece algo absurdo, já que a força da moda acaba por condicionar o horizonte de nosso olhar. Mas tomemos a idéia de Nietzsche de que a vida é uma “criação estética” de que a vida só vale a pena ser vivida enquanto criação estética. De que os gregos tinham exatamente nesse jogada, a da criação artística, o seu grande legado para a humanidade. Podemos, então, pensar uma educação fundamental que se felicitaria em propiciar ao jovem educando essa ceara da criação. A formação básica seria vista como o momento mais privilegiado desse jogo criativo. Não mais imperaria o decorar fórmulas para passar no vestibular, ou ainda, aprender logo uma coisa útil para o mercado. Mas o jovem seria tragado pela atividade de criação em toda a parte, mesmo que prevalecesse às matérias conceituais, afinal Apolo não pode ser banido, ele aí exercitaria a criação, descompromissada, como naquela associação de literatura que Nietzsche fundou ainda no “ginásio”[2], na qual Nietzsche descreve no início de suas Conferências e exalta a falta de um propósito mercadológico e a pura entrega ao ato de criação literária.
Claro que para propor uma educação baseada na criação temos ainda que vencer os egoísmos reinantes. É preciso nomeá-los, delimitá-los, enfim dizer que eles existem, falar sobre eles. Fazer com todos se dêem conta de que há uma fissura no horizonte, e que há mais horizontes além do que comumente vemos como sendo uma única superfície. E preciso, por exemplo, quebrar o olhar de utilidade que se lança na direção do fazer da educação. Esse olhar condiciona todo o processo educacional, ou seja, o desejo do pai, do educador moderno é que o educando chegue logo ao momento de produzir coisas úteis. Assim, toda a educação não é útil, mas é em vistas do mercado de trabalho, momento desejado, almejado que ela é condicionada. Um desenho infantil é sempre visto nesse jogo em vistas de uma impressão mecânica, o ápice da técnica. Como podemos notar é preciso romper com essa ralação, com esse egoísmo, pois ele sempre condiciona o fazer criativo e despretensiosa da educação.
Na escola pública que atuamos como professor esses condicionantes, egoísmos, contribuem para esvaziar toda a educação. Notamos, em um primeiro movimento, a dileção por matérias ditas úteis, como matemática e língua portuguesa. Mas no final das contas é a própria escola que não tem mais sentido, utilidade.
O processo de esvaziamento de sentido operado na escola pode ser também compreendido em relação ao que Nietzsche denúncia no espírito do homem teórico, conceito de O Nascimento da Tragédia. Segundo essa asserção nietzscheana o espírito socrático-teorico procura arguir o Ser a partir do logos. Essa postura gera um otimismo, um cojunto de certezas que Nietzsche chama de serenojovialidade Alexandrina, para contrapor a uma outra serenojovialiade que é a trágica, construída sob o alicerce do conhecimenot trágico. No caso da escola a idéia do mercado de trabalho ou os egoísmos a que Nietzsche alude na III Consideração é que se torna juiz dos processos aí desenvolvidos, fazendo o mesmo que o homem teórico fez lá na decadência da Tragédia Grega. Entre nós temos o espírito de mercado, esse novo Sócrates, que é o avaliador; no caso da escola pública ele é implacável.Não permite ao jovem filho da classe operária ver outro horizonte se não o da utilidade. Mas quem se deixa guiar por esse juiz, pelo espírito teórico; pelo espírito de mercado, paga o preço que se pagou na Grécia Clássica quando a Tragédia, no olhar de Nietzsche, sucumbiu. Em O Nascimento da Tragédia observamos o fim da Tragédia exatamente quando Eurípides introduz a racionalidade socrática no seio dessa manifestação cultural. Esse novo olhar euripidiano negava à tragédia sua música dionisíaca. Mas era exatamente esse êxtase provocado pela música dionisíaca, esse se relacionar com o não-conceitual, que a tornava proveitosa, espaso de criação estética. Na escoala quando se nega seu seio materno da criação, quando se alija dela o ato de criar em nome de uma racionalidade produtiva, está se fazendo o mesmo que aconteceu com a tragédia.
Se olharmos a escola pública nos dias de hoje iremos ver que existe um pensamento oficial semelhante ao otimismo socrático e que, também, é a fonte do esvaziamento de sentido da escola. Os mandatários públicos entram em estado de êxtase quando vai a público falar que a salvação da educação é a educação para o mercado. Nas escoals privadas, também, vamos ver semelhante discurso. Nesse casso é o vestibular para poder entrar nas melhores universidades que, por sua vez, irá garantir o melhor emprego, o ganha mais. O que difere as aspirações do educando dos dois sitemas educacional é apenas na hierarquia do mercado de trablaho. O da escola pública os cargos que paga menos; os da privada a elite do funcionalismo das empresas ou do próprio Estado. Mas o fato de que o jogo criativo é substituido se dá nos dois sistemas educacionais.
No seio do otimismo socrático uma boa educação é aquela que acossa por completo o ato de criar. O criar é visto como improdutivo, ineficiente. Por outro lado a educaçaõ socrática propõe a adestração, é preciso que o jovem seja adestrado, seja dócil, pronto para ser consumido no mercado de trabalho. Criar aqui na verdade só é aceito quando for reprodução e não criação. Reproduzir é uma espécie de criar o já criado, coisa que em temos lógicos não é possível. Mas a idéia de reproduzir é mais confortável para o espírito socrático porque ela vai apegar ao que já é sucesso. Ou outro modelo é um jogo arriscado, pois a criação radical não tem compromisso com a produção, é um criar que pode não gerar nenhum produto e isso é completamente banido pelo espírito socrático, pois ele quer a certeza; a escola de hoje não pode e não quer arriscar, criar é então visto como desperdício de tempo e de dinheiro. Então fazem de conta que estão criando, mas na verdade estão é reproduzindo, decorando.
Esse mesmo expediente da escola que adestra era familiar a Nietzsche. Ele obvservou que esse adestramenteo criava um tipo de literato: o jornalista. E o que isso quer dizer? O fato do educando ser forçado a adequar-se a outos interess e não aos mais altos píncaros da cultura, gerava um profissional superficial, um letrado, mas sem “alma”. Suas observações a esse respeito, como tematizados nas Conferências, referem-se à produção de textos literários ainda em idade tenra. Esse exercício do modo que era conduzido não permitia uma real experiência estética de criação; a condução desse trabalho era permeada pelos interesses do professor, o que acarretava em uma prática improdutiva. O aluno acaba por aprender a agradar o seu professor.
Uma verdadeira educação certamente precisa retomar o criar como processo que não pode ser subordinado. O criar deve constituir a peça fundamental da educação. Na escola pública ou privada o educando não pode ser tolhido desse direito; a necessidade de “arrumar emprego” ou “passar no vestibular”, como fiéis representantes do espírito socrático, deve ser combatido e expulso do ambiente escolar. Aliás, o senso de utilidade deve ser combatido nas mentes mesmo, pois certamente esse é seu reduto e constitui a esfera da cultura enquanto expressão, substrato de um povo.
Qual o caminho a ser tomado? Certamente ele é longo e caba ao nosso trabalho apenas esboçar uma pequena contribuição. Dizer que ele existe, que é possível pensar um princípio para a educação que não seja estribado na criação; que essa dimensão é fundamental no processo cognoscitivo do educando.
Nossas estratégias certamente acompanham as de Nietzsche quando preconizou o renascimento do pensamento trágico e da tragédia musical de Wagner. Nesse movimento, vale lembrar, Nietzsche critica em O Nascimento da Tragédia a opera. Destaca seu caráter de entretenimento e seu sentido não trágico, mas socrático. Seu registro de renascimento do espírito trágico se dá exatamente na demonstração dos “pontos fracos” dessa manifestação cultural. Nessa crítica ele constrói uma ponte para a sua esperança de renascimento do trágico.
Acompanhando esse movimento, pensamos que para vencer o espírito socrático presente no seio da escola precisamos falar da Indústria do Entretenimento ou, nos termos de Nietzsche, do jeito jornalístico de lidar com o conhecimento. Mas por que falar do entretenimento e do jeito jornalístico? Ora o valor que tais produtos gozam entre alunos, professores e familiares é de uma profundidade que irrita qualquer um preocupado com a autêntica cultura. O interessante notar é que tais fazeres, como o jogo de futebol, é algo inútil. A notícia do jornal, também, tende, como crítica Nietzsche nas Conferências, a simplificar e ser, desse modo, superficial e, também, inútil. Mas por que tais fazeres gozam de posição privilegiadas entre alunos, professores e familiares? Um espectador quando procura um jogo de futebol no estádio ele sabe que tal atividade não tem utilidade.
A Indústria do Entretenimento dá lucro e tem um propósito bem demarcado na sociedade de mercado. Mas o hilário é que a principal característica de seu produto é ser sem utilidade, ou seja, o público pagante quanto vai ao estádio de futebol vai a procura de sensações que fogem àquela batuta que se impõe a escola. Eles não visam com o “entretenimento” um lugar no mercado de trabalho. Citamos o futebol, mas a nossa sociedade moderna é recheada de entretenimento. Esse espírito é profundamente arraigado na sociedade e notamos que a idéia do show também se faz presente no ambiente escolar quando o aluno gostaria de ter uma aula “legal.
Não pretendemos em nosso trabalho tratar das imbricações da Indústria do Entretenimento e suas implicações com a educação. O que nos interessa é apenas dizer que há nesse produto o germe da não-utilidade e que dado a sua intensa presença na vida das pessoas ele serve para quebrar o império da utilidade que recai sobre a educação de nosso tempo. Para combater esse “egoísmo” precisamos demonstrar que o horizonte da utilidade a que são submetidos os processos educacionais tem uma fissura; Há outros horizontes, é só pensarmos o quanto de coisas inúteis somos levados a fazer durante o dia.
Para provar que fazemos coisas inúteis e assim quebrar a imposição de utilidade que recai sobre os processos da educação formal, podemos tomar como dado o fato de que um aluno passa o mesmo tempo ou mais assistindo televisão ou jogando videogame. Recentemente pesquisas até revelaram uma curiosidade: crianças mais pobres passam mais tempo na Internet do que as de melhores condições financeiras.
Ao apresentar argumentos de que há vida além da utilidade certamente se pode pensar em instituições educacionais voltadas efetivamente para a criação. Esse movimento não é simples, vale dizer novamente, mas as condições teóricas para se pensar uma ruptura passam por essa via: existe vida nas atividades que não são voltadas para o mercado de trabalho, o humano, enquanto ser que se cria no jogo estético, deve ser a atenção.
Para finalizar, certamente uma educação no âmbito dos textos de Nietzsche que aqui demarcamos passa pela valorização da criação. Uma educando irá apreender com muito mais vigor quando ele participar do jogo de criar aqueles achados históricos. Se esses mesmos achados forem impostos, para serem decorados, certamente estamos falando de uma educação da adestração e que se preocupa unicamente com o mercado de trabalho e não com o próprio educando. Educar passa nesse contexto por uma rígida educação, como já dissemos sobre a Vontade, mas essa rigidez só vai ganhar contornos vivos quando regada de criação.
[1] A esse propósito a leitura do artigo de Gallo nos fui esclarecedor. O autor demonstra que entre o pensamento de Nietzsche e Stiner, seu contemporâneo, se vê que as teses de Nietzsche sobre educação era também presente em Stiner. Revelando que o discurso de Nietzsche tinha um lastro intelectual em seu tempo.
[2] O que seria nosso Ensino Médio